Um dia na vida de um astrófobo

Se fosse uma questão de salvar o mundo, eu já teria dado meia volta e me escondido em casa. (source)

– 10:00 ~ 13:00

O dia hoje começou mais cedo que o normal. Acordo às dez para tomar meu remédio (cloridrato de fluoxetina), tarefa comum nas últimas semanas. Decido continuar acordado.

O dia, até então, parecia simples. Um pouco no Twitter, conversando com amigos, outro tanto sentado na sala assistindo à Fórmula 1 (meu interesse no esporte é quase zero).

– 13:00 ~ 14:00

Após a Fórmula 1, fico sem ter o que fazer. Preparo algo simples para comer e prossigo para o Netflix. Até então, tudo normal.

Assisto Best of Enemies, mesmo não possuindo forte interesse em política, principalmente quanto aos EUA. No final das contas, foram 1h30min bem gastas, com pontos de vista bem interessantes.

– 14:00 ~ 15:00

O tempo, que lá fora estava claro e bonito, com vento agradável (apesar do calor), logo começa a fechar. Nuvens brancas e outras um pouco mais cinzas começam a tomar conta do céu. A chuva de hoje, até então, já estava anunciada há dias. Não era novidade.

Tento me concentrar em assistir à TV, porém nada interessante passava no momento.

– 15:00 ~ 16:00

As coisas começam a piorar. O dia claro logo dá lugar a um dia escuro, com nuvens carregadas. O céu fica completamente escuro, e ao mesmo tempo, o pânico começa a tomar conta de mim.

Não importa o que eu fizesse, a minha atenção era automaticamente voltada para a janela. De minuto em minuto eu precisava olhar para fora, com a esperança de que aquilo fosse sumir e eu tivesse um dia sossegado.

Por mais esperançoso que eu estivesse, tudo foi em vão. O céu continuava ficando mais escuro, praticamente um prelúdio da chuva que estava por vir.

– 16:00 ~ 17:00

Não havia volta. A chuva iria acontecer a qualquer momento. A tortura de ver o céu negro e sem uma gota de água caindo dele era intensa. Meu coração batia mais rápido que o normal, as mãos suavam e se eu não me controlasse, até os dentes começariam a bater um contra o outro.

Em uma tentativa de me acalmar, peguei meu celular (carregado em 100%, preparado para este momento com antecedência), meus fones intra-auriculares, aumentei o volume para cerca de 70% em fones que já são altos o suficiente e “mandei bala”. Mesmo com a cabeça doendo, era melhor ouvir música alta ao invés de lidar com o mundo lá fora.

– 17:00 ~ presente

No final das contas, choveu pouco. Nenhuma trovoada que eu pudesse ouvir. Poucos relâmpagos que eu pudesse ver. Hoje foi um bom dia, apesar da sensação de estar sendo consumido totalmente por dentro.

Esse é só mais um dia na vida de um astrófobo.


Não é engraçado

Uma das situações mais comuns quando conto este meu problema para as pessoas é elas não levarem a sério. Você, lendo o texto, pode também não estar levando a sério.

Na sociedade existem medos aceitáveis e inaceitáveis. Medo de altura? Ninguém irá te julgar. Medo de aranha ou cobra? Normal. Medo de trovões? É sério isso?

Isso acontece mais vezes que você pode imaginar. A minha própria família e amigos não me levam a sério. Quem mais levaria?

Eu convivo com este problema diariamente, por boa parte do ano, desde criança. Não tenho ideia de quando começou, mas me lembro bem da minha avó (que por mais que tenha parte nisto, é uma das pessoas que mais amo) olhando para o céu no final da tarde e dizendo “ihh, vai cair um toró…”

Cresci com isso, com diferentes formas para fugir do problema. Cobertores, dedos no ouvido, fones de ouvido, protetores… o que você imaginar, talvez eu já tenha tentado. O único momento em que eu posso respirar aliviado é quando a primavera e o verão passam.

Quando você menos espera, o que parecia um problema bobo de criança se torna algo muito maior e fora de controle. Você começa a olhar a previsão do tempo de minuto a minuto, toda hora dando aquela olhada pela janela pra ver como está o céu. Se não fizer, haja coração pra aguentar a pressão do desconhecido.

Me sinto como se estivesse em perigo, mesmo sabendo que as chances de um raio me machucar são mínimas, praticamente impossíveis. Mesmo sabendo o que são, como se formam e como me prevenir, a sensação não vai embora. É um medo completamente irracional, que nem eu consigo explicar depois de anos lidando com ele.

Quem não sofre do problema, não sabe como é

Experimente fazer uma busca na internet. Eu particularmente acho este guia do WikiHow extremamente interessante, porque ele é do início ao fim escrito por alguém que nunca sofreu do mesmo problema.

Quem tem medo de trovões sabe que não é romantizado assim. Você treme, sente o coração acelerado, acha que pode infartar a qualquer momento.

Nos dias ruins, lembro-me de pressionar os dedos tão forte em meus ouvidos que eles chegavam a doer. A dor era forte, mas era melhor que ouvir os trovões com toda a força. E isso acontecia por horas, todos os dias.

Houve um certo momento que percebi que apertar os ouvidos não resolveria. Então comecei a ouvir uma única música, que parecia bloquear o som dos trovões da melhor forma possível, por horas. Horas e horas com a mesma música. É uma música que eu sinceramente gosto muito (miwa — Faith), mas depois de ouvi-la tantas vezes, eu induzi a mim mesmo um trauma. Hoje não consigo mais ouvir essa música sem me sentir mal. Foram horas, todos os dias, ouvindo a mesma música. Contando quantas vezes eu ouvi ela até os trovões acabarem, e assim calcular uma média de quantas vezes eu precisaria ouvir sempre que chovesse. Cerca de vinte à trinta vezes uma música de cinco minutos, faça as contas. Se isso não é tortura, eu sinceramente não sei o que é.

Uma das piores coisas sobre tudo isto, é que para quem está no papel de observador, “eu só preciso superar isso”. Se fosse simples, eu já teria me livrado disto.

Um ser humano disfuncional em sociedade

Houve inúmeras vezes que eu não estava em casa quando um temporal aconteceu. Um dos que me lembro mais vividamente foi quando fui fazer a prova do ENEM, em 2013. Quando eu menos esperava, raios, trovões, vento, chuva forte. A combinação mais catastrófica possível.

Não podendo colocar as mãos no ouvido. Não podendo ouvir música. Não podendo fazer nada, apenas fechar os olhos e torcer pra que acabe logo. Além de tomar cuidado para que ninguém perceba.

O estrago, porém, já estava feito: em cerca de cinco minutos de temporal, o estrago psicológico foi suficiente para prejudicar todo o resto da prova. A capacidade de pensar racionalmente simplesmente vai embora, e sobra apenas o casco de quem você é.

Durante o verão, principalmente, não consigo sair de casa sabendo que posso voltar no horário que costuma cair os temporais. Deixo de sair com amigos, família, trabalhar ou me concentrar em outros projetos. Tudo para ficar em um canto, esperando o momento de tudo acontecer, e assim ter um pouco de paz de espírito quando finalmente acaba.

Prospecto para o futuro

Por mais que o texto possa ter parecido pessimista, o que não era primeiramente o objetivo, ainda tenho bastante otimismo com o futuro.

Hoje, aos 20 anos, a minha tolerância é muito maior que antes. Com exceção de dias como o descrito no topo do texto, costumo apenas ficar nervoso em casos mais extremos. Na maioria das vezes consigo me acalmar apenas ouvindo música. Em muitas situações, chuva forte com trovões leves não me incomodam tanto.

Eu ainda sonho pelo dia que serei totalmente livre disto. Seja com remédios ou não, e eu possa apreciar os raios e trovões da forma mais pura que são: como fenômenos da natureza. Um fenômeno incrível e lindo, mas que por enquanto me assusta.


Post scriptum

Por algum motivo, o texto atraiu um pouquinho mais de atenção do que eu imaginava. Abaixo alguns pontos que costumam me perguntar e outros pontos talvez interessantes:

  • Não possuo medo da chuva ou vento, normalmente a intensidade dos dois somente aumenta o medo dos raios e trovões;
  • Não faço ideia da origem do medo, sei que tenho ele desde que me entendo por gente;
  • Eu não odeio a chuva, raios, trovões, vento ou qualquer fenômeno natural relacionado. O medo é totalmente irracional;
  • Remédios ajudam muito no tratamento, porém não sei se eles em algum momento vão eliminá-lo;
  • Atualmente há bastante progresso com o uso de realidade virtual para o tratamento de fobias diversas. Pretendo desenvolver um simulador com o intuito de ajudar pessoas como eu (além de me ajudar, principalmente).
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