A Batalha por Mossul

A retomada pelas Forças do Iraque da segunda maior cidade do país, transformada em capital do Estado Islâmico, virou uma carnificina que ainda deve fazer mais vítimas

Atirador de elite das Forças Armadas iraquianas dispara contra soldados do Estado Islâmico, ao sul de Mossul. As Forças iraquianas recuperaram parte da cidade, mas as lutas sangrentas ainda estão por vir
Textos e fotos Yan Boechat, de Mossul, Iraque

O zunido agudo das balas cortando o ar indicava que os tiros estavam chegando mais perto. Já havia se passado quase meia hora desde que os militantes do Estado Islâmico iniciaram uma contraofensiva na tentativa de parar o avanço dos soldados das Forças Especiais Iraquianas. Era o início de uma manhã fria e ensolarada do dia 11 de janeiro, e o que havia começado com uma ação precisa de atiradores de elite, os snipers, logo se transformou em um ataque em larga escala. Aproveitando-se de túneis e buracos entre as casas, eles mudavam de posição com rapidez. Abriam fogo contra os blindados que seguiam em direção à Universidade de Mossul, um dos últimos pontos estratégicos do lado leste da cidade que ainda estavam, àquela altura, sob controle do Estado Islâmico.

Logo vieram os morteiros. Três disparos. Um deles caiu perigosamente perto dos comandantes iraquianos da operação, a não mais que 5 metros. De surpresa, um carro-bomba saiu de uma casa em uma rua perpendicular. Antes de chegar perto dos soldados, o motorista foi atacado por Humvees (veículos militares) iraquianos. Ele se autodetonou ainda distante das tropas. “Eles vão lutar com tudo o que têm para impedir que cheguemos à universidade e estão bem protegidos naquelas casas ali na frente. Nossos homens não estão conseguindo abatê-los”, dizia, em tom de explicação, o general Abdul Wahhab al Saidi. “Vamos bombardeá-los, é mais fácil e mais seguro.” Ao mesmo tempo, Al Saidi discutia com assistentes a localização das trincheiras dos soldados do Estado Islâmico.

Com um dos pequenos tablets Samsung distribuídos a todos os militares em posição de comando nesta batalha contra o Estado Islâmico, um capitão buscava no mapa digital as coordenadas. Por rádio, ele as repassou para uma central dedicada a fazer a interlocução entre as tropas em solo e o centro de controle da aviação de combate da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos e responsável pelo suporte aéreo. “Vamos esperar, o pedido já foi feito e logo, logo os aviões estarão aqui.” Os tiros continuavam, assim como os disparos de morteiro. Onde estavam os oficiais, ninguém foi atingido. Sob a cacofonia dos disparos, uma primeira explosão. E depois outra e mais outra. Colunas de fumaça subiram o quarteirão vizinho e os tiros pararam. Apenas o som dos aviões sob o céu de Mossul podia ser ouvido no final daquela manhã de inverno.

Restos mortais de um civil abatido pelo Estado Islâmico

Assim tem sido desde que a batalha por Mossul, considerada a capital política e econômica do Estado Islâmico, com 1,5 milhão de habitantes, recomeçou, no final de dezembro, após uma pausa de quase um mês. Para conseguir avançar sobre as posições do Estado Islâmico na povoada cidade, os iraquianos se tornaram dependentes dos ataques aéreos e da artilharia de longa distância. Diariamente, caças, drones e até mesmo a clássica fortaleza voadora B-52 despejam toneladas de bombas. É uma mudança de estratégia profunda desde que esta guerra começou, no final de outubro. Preocupados em não repetir as cenas de destruição e sofrimento da população civil vistas em Aleppo, na Síria, tanto as Forças iraquianas quanto a coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos haviam decidido evitar bombardeios maciços nas áreas mais povoadas da cidade. Temendo um caos humanitário, o governo iraquiano também decidira que os moradores de Mossul só deveriam deixar suas casas em situações extremas. “Nossa maior dificuldade neste momento são os civis, não podemos utilizar artilharia ou ataques aéreos da maneira que usaríamos em uma guerra convencional, esta é uma situação nova para nós”, dizia o mesmo general Al Saidi em novembro.

A estratégia das Forças iraquianas até aquele momento era usar blindados maciçamente para obter vantagem em um ambiente de guerrilha urbana, conquistando terreno rua a rua, casa a casa e evitando bombardeios indiscriminados. O resultado, no entanto, foi desastroso. O governo iraquiano não divulga números de vítimas militares ou civis, mas analistas estimavam entre 20% e 25% o percentual de mortos e feridos entre as Forças Especiais nas primeiras oito semanas de combate. Segundo a ONU, mais de 2 mil soldados iraquianos haviam sido mortos apenas em novembro. “São números muito altos. Seria impossível continuar nesse ritmo”, diz o ex-coronel das Forças Especiais do Exército americano David Witty, que dava consultoria para as Forças Especiais Iraquianas. “Eles precisavam rever as táticas.”

Mossul está em ruínas. A cada interseção de ruas, uma cratera. Em cada quarteirão, casas completamente destruídas. É difícil encontrar uma área da cidade tomada pelas Forças iraquianas após a pausa de dezembro que não esteja repleta de escombros e destroços. Carros queimados continuam nas ruas, animais mortos se decompõem nas calçadas e corpos de combatentes do Estado Islâmico permanecem nos locais em que foram abatidos. “Era como se chovessem bombas, todos os dias, por duas semanas. Eles bombardearam tudo, mesmo quando não havia mais terroristas aqui”, diz o técnico de laboratório Askaf Djabouri, de 35 anos, em frente a uma mesquita semidestruída, nas proximidades da Universidade de Mossul.

Askaf perdeu a casa, o carro e a criação de passarinhos que tinha havia mais de dez anos, mas ninguém de sua família morreu. “Os homens do Daesh (Estado Islâmico) já tinham fugido e eles continuaram a despejar bombas aqui. Nossa sorte foi ter ido para a casa de um primo, que tem um porão”, diz ele, indignado. “Mas nossos vizinhos morreram. Eram 15 pessoas, e o bombardeio foi tão poderoso que colocou a casa abaixo. Alguns corpos ainda estão lá”, diz Askaf, que trabalhava no Hospital Universitário.

Morador de Mossul que diz ter sido torturado tanto pelo Estado Islâmico quanto pelas Forças Iraquianas

Quem melhor faz o levantamento sobre vítimas civis no Iraque é a ONG Iraq Body Count (IBC), ainda que de forma imprecisa. Ela busca mapear as vítimas dos conflitos armados no Iraque desde a invasão americana em 2003. ÉPOCA fez um levantamento com base nos relatórios diários da IBC e concluiu que o número de vítimas civis por ataques aéreos cresceu de forma acentuada a partir do final de dezembro. O aumento coincide com o reinício do avanço das Forças iraquianas contra as áreas dominadas pelo Estado Islâmico. Nos 20 primeiros dias de janeiro, cerca de 350 pessoas morreram em Mossul vítimas dos ataques com aviões e drones. Esse número representa um crescimento de quase 60% sobre o número de vítimas dos meses de novembro e dezembro combinados. Nas três primeiras semanas de janeiro, o número de mortes de civis por ataques aéreos superou o número de vítimas por outras causas (morteiros, snipers, tiroteios, explosivos improvisados, carros-bombas) pela primeira vez desde o início da operação, no final de outubro.

A perna direita do homem de cerca de 60 anos tinha um buraco na altura da panturrilha, grande o bastante para fazer uma laranja desaparecer entre os restos de músculos, tendões e pele ensanguentada. A bomba que caiu sobre a cozinha matou instantaneamente dois filhos do homem deitado sobre uma maca no hospital de campanha instalado em uma mesquita semidestruída em Mossul. Os estilhaços arrancaram um pedaço da perna do homem e quebraram sua tíbia. Um pedaço do osso agora pressiona a parte externa, fazendo com que a canela ganhe um formato curvilíneo. O paramédico Gabe Carsillo, um americano nascido em Buenos Aires que veio para Mossul atuar como voluntário no hospital de campanha, tentava estabilizar a perna quando o homem começou a respirar de forma acelerada. Em poucos segundos, ele começou a se sufocar.

Soldados iraquianos comemoram conquista do lado Leste de Mossul, em janeiro de 2017

“Sua perna estava em um estado tão ruim que só me dei conta de que outros estilhaços podiam ter atingido órgãos vitais quando seu pulmão entrou em colapso”, disse Carsillo. Uma perfuração no peito, menor que o tamanho de uma moeda de 5 centavos, indicava onde o pedaço de metal havia entrado. Carsillo e os paramédicos tentaram salvar o homem inserindo longas agulhas com válvulas. Queriam retirar o ar que entrava nos pulmões. Inseriram uma, duas, três, quatro agulhas longas. Sem sucesso. O homem morreu diante do único filho que havia sobrevivido ao ataque daquela tarde.

Ex-médico de combate e soldado do Exército americano por oito anos, Carsillo não é um novato nesse tipo de situação. Ainda com as calças e a camisa molhadas de sangue, ele se dizia impressionado com a violência da guerra em Mossul. “Estive um ano em Bagdá, em um dos períodos mais duros, em 2005”, contava ele no quintal da mesquita, em frente a uma fogueira e ao lado de três buracos abertos no solo por morteiros. “Mas nunca vi tanto sangue quanto aqui, é violento demais.” Poucos dias depois, a coordenadora dos esforços humanitários da ONU no Iraque, Lise Grande, deu números para as conclusões empíricas do voluntário americano. De acordo com ela, a ONU estava impressionada com a quantidade de vítimas civis em Mossul. “Em um conflito como esse, espera-se que a taxa de mortos e feridos entre civis seja algo em torno de 15% dos números de mortos e feridos entre combatentes. Quando o volume é muito alto, pode chegar a 20%”, diz ela. “Mas aqui estamos percebendo que chega a 50%. É um número impressionante.”

A mudança de estratégia pode ter custado a vida de mais civis, mas, sob o olhar pragmático dos militares iraquianos, foi um sucesso. Até o final de dezembro, as Forças iraquianas haviam capturado algo entre 30% e 40% da parte leste de Mossul, uma das maiores derrotas do Estado Islâmico desde que o grupo começou a perder território. Em dezembro de 2015, o Estado Islâmico controlava 78.000 quilômetros quadrados na Síria e no Iraque. Agora, esse domínio caiu para cerca de 60.000 quilômetros quadrados — em boa parte, sem importância econômica e estratégica. Em janeiro, o primeiro-ministro iraquiano, Haider al Abadi, anunciou a retomada de toda a margem esquerda do Rio Tigre em Mossul. Rodeado por combatentes em uma base militar nas cercanias da cidade, o comandante das Forças Especiais Iraquianas, general Talib Shagati, comemorou a vitória: “Eles estão fracos e não têm a nossa experiência. Vamos libertar toda a Mossul em pouco tempo”.

O discurso ufanista desbragado pode encontrar lastro no avanço acelerado das últimas semanas de janeiro. Mas não tem eco entre aqueles que estudam as táticas e estratégias do Estado Islâmico. Desde o início desta guerra, a expectativa é que o lado leste de Mossul, agora dominado pelos iraquianos, seria o mais fácil. Isso se explicaria por uma série de razões. A principal delas diz respeito às características urbanas de cada lado da cidade. A parte oeste, onde o Estado Islâmico mantém o domínio, é mais densamente povoada que a margem esquerda do Tigre, onde há grandes avenidas e bairros planejados. Nas áreas retomadas pelas Forças iraquianas, lentamente, a vida, em meio ao cenário de destruição, começa a dar sinais de retorno, com a volta de habitantes que haviam buscado abrigo nos campos de refugiados. Pequenas lojas estão sendo reabertas, mercados de verduras e frutas tomam conta das ruas. Até mesmo cigarros — item banido pelo Estado Islâmico — passaram a ser vendidos livremente. Em algumas áreas há congestionamento de veículos e filas nos postos de gasolina.

No lado oeste, a ONU estima que existam mais de 750 mil moradores. As ruas são mais estreitas, as casas mais antigas. Em algumas áreas, os automóveis não trafegam pelas ruelas. Ali, os combatentes do Estado Islâmico terão fartas opções para emboscadas, ataques suicidas e uso de bombas caseiras, práticas que se mostraram extremamente eficazes contra as Forças iraquianas nas primeiras semanas de batalha.

Charles Winter, pesquisador sênior do Centro Internacional de Estudos da Radicalização, de Londres, acompanha o Estado Islâmico há cinco anos e não acredita que as coisas serão tão simples quanto os generais iraquianos querem fazer crer. “Está muito claro que houve uma retirada estratégica nas últimas semanas, os avanços foram muito rápidos”, disse ele, em uma entrevista por e-mail. Para ele, as batalhas no leste de Mossul serviram como um teste para o Estado Islâmico medir as forças e as estratégias do Exército iraquiano. “A resistência no outro lado do rio será maior. Será uma batalha mais violenta”, diz. Winter não descarta a possibilidade de que a porção oeste de Mossul se transforme em algo semelhante à tragédia de Aleppo.

Essa também é a opinião do ex-coronel das Forças Especiais americanas David Witty, que até há pouco tempo trabalhava como consultor do Exército iraquiano. “Será uma batalha muito dura, não sei se como Aleppo, porque os militares iraquianos têm tido verdadeiro cuidado em minimizar as perdas civis. Mas as ruas estreitas, a cidade antiga e populosa, tudo isso fará com que as coisas não sejam fáceis”, diz. O avanço sobre o oeste deverá ocorrer nas próximas semanas. Poucos duvidam que as Forças iraquianas devem sair vitoriosas, mas ninguém arrisca a que custo.

Yousuf Jamal, de 22 anos, morador do bairro de Baladiyat, na parte leste de Mossul, abriu o portão de casa pela primeira vez em cinco dias quando conseguiu ver os primeiros Humvees do Exército iraquiano em frente a sua garagem. O som dos tiros e dos morteiros ainda ecoava alto quando ele avisou para os soldados não se preocuparem. “Eu não sou Daesh, eu não sou Daesh, só quero agradecer a vocês”, disse ele. Yousuf ainda tinha a barba longa tornada obrigatória a todos os moradores de Mossul pelo EI quando deu as boas-vindas aos soldados. “A primeira coisa que vou fazer é raspar a barba, eu a odeio”, disse, sorriso aberto. Ex-aluno da faculdade de línguas da Universidade de Mossul, Yousuf reclamava dos dois anos que ficou sem estudar. “As coisas não eram tão ruins assim, mas ficar sem estudar, perder dois anos da minha vida, isso foi o pior.”

Mesmo com a derrota do EstadoI, Mossul deverá permanecer terreno fértil para o extremismo sunita

Ele e sua família, como a maior parte dos moradores de Mossul, receberam bem os combatentes do EI quando eles chegaram à cidade, no verão de 2014. Acreditavam estar sendo libertados da opressão das Forças Armadas iraquianas, majoritariamente xiitas, que haviam invadido a cidade poucos anos antes para combater o grupo terrorista al-Qaeda. Bastião sunita em um país com quase dois terços da população xiita, Mossul sempre foi o grande desafio do governo de Bagdá após a queda de Saddam Hussein. Em suas ruas estreitas, boa parte da elite militar e política dos tempos de Saddam se refugiou após a invasão do país pelos Estados Unidos. Os dois filhos do ditador, Uday e Qusay, foram mortos ali, enquanto lideravam a resistência. Mossul também foi a cidade iraquiana que melhor recebeu a al-Qaeda de Bin Laden e, não à toa, o local escolhido por Al Bagdhadi, o líder do EI, para declarar o califado islâmico.

Os anos que antecederam a chegada do Estado Islâmico foram de terror para os habitantes de Mossul. Mortes, julgamentos sumários, extorsões e estupros foram cometidos por parte dos militares iraquianos. Havia — e ainda há — uma imensa desconfiança mútua entre a população civil e o Exército iraquiano. Foi por isso que o primeiro-ministro Abadi proibiu a entrada das milícias xiitas na cidade, conhecidas como Movimento das Unidades Populares. Ele temia que os abusos se repetissem. Mesmo sem a entrada oficial dos milicianos, a reportagem de ÉPOCA viu vários deles circulando pela cidade. Os casos de barbárie se multiplicam. Há gravações de torturas e de execuções de moradores suspeitos de integrar o Estado Islâmico por parte de soldados. As denúncias levaram a ONU a pedir uma investigação oficial e detalhada ao governo iraquiano.

Tanto a ONU como as forças de coalizão contra o Estado Islâmico sabem que, se não conquistarem os corações e mentes dos moradores de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, outro grupo extremista sunita encontrará terreno fértil para florescer. “Mesmo com a libertação total da cidade, o Estado Islâmico permanecerá com muitos apoiadores ali. Acho que veremos em Mossul o que vimos em Bagdá durante a guerra sectária entre xiitas e sunitas, em 2005. Muitos ataques, muita violência, enfim, tudo que possa impedir uma estabilidade”, diz Charles Winter.

O capitão Ouqbar Nafar tem tido dias calmos. Enquanto não recebe ordens para avançar, ele e seus homens patrulham pontes destruídas entre os afluentes do Tigre que cortam a cidade. Diante de uma multidão que tentava cruzar uma delas no fim de uma rara tarde quente de janeiro, Nafar dizia esperar um atentado a qualquer momento. “Esta cidade é muito grande, qualquer um deles pode vir aqui correndo e se explodir, não temos como prevenir esse tipo de ação”, dizia, rodeado por soldados jovens e nervosos que faziam sua segurança. “Nós vamos expulsar o Estado Islâmico de Mossul, mas a guerra não vai acabar”, dizia ele, com rara franqueza. “A força deles não está nas armas ou em seus combatentes, a força deles está nas ideias que espalham”, dizia, pouco antes de mandar um morador que se aproximava em busca de informações se afastar. Aos berros.


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