Brasileiros continuam lutando em guerra separatista no Leste da Ucrânia

Combatente que chegaram ao país do Leste Europeu há quatro anos agora são cidadãos de república rebelde e dizem que não querem voltar ao Brasil

Rafel Luswargui foi o primeiro brasileiro a se juntar aos rebeldes ucranianos; ele esta preso pelo governo de Kiev e aguarda julgamento
Textos e fotos Yan Boechat, de Donetsk

Preso na Ucrânia desde o fim de 2016, o brasileiro Rafael Lusvarghi é o único estrangeiro detido por Kiev sob a acusação de terrorismo por ter lutado ao lado dos rebeldes separatistas apoiados pela Rússia no leste do país.

Lusvarghi alistou-se como voluntário poucos meses após o início dos conflitos, em setembro de 2014. Rapidamente se tornou um combatente conhecido das forças que declararam independência da Ucrânia nas províncias de Lugansk e Donetsk, já na fronteira com a Rússia.

Apesar de ser o mais famoso, ele não foi e não é o único brasileiro a pegar em armas ao lado dos rebeldes apoiados pela Rússia. Como ele, entre 10 e 15 cidadãos brasileiros cruzaram o Atlântico e boa parte da Europa para lutar contra o Exército ucraniano. Hoje, ao menos dois deles permanecem nas províncias rebeldes e seguem atuando com as forças de segurança da República Popular de Donetsk.

Eles saíram de todas as regiões do Brasil e tinham objetivos muito diferentes entre si. Alguns buscavam apenas aventura, outros, treinamento militar, e há ainda aqueles que foram para as trincheiras acreditando estar diante da última batalha da Guerra Fria.

Entre os combatentes que saíram do Brasil, havia um estudante de comunicação, um ex-boxeador frustrado, um policial militar e até mesmo um militante de um partido de extrema esquerda que levou seu filho de 17 anos para experimentar a vida no que acreditava ser uma guerra contra o imperialismo americano.

Rodolfo Magayver já recebeu o passaporte da República Popular de Donetsk e segue como soldado das Forças de Segurança

O ponto em comum entre todos eles é Rafael Lusvarghi. O ex-PM paulista se tornou uma espécie de garoto-propaganda dos rebeldes e, com apoio de um grupo organizado em Moscou, fazia parte de uma estrutura que auxiliava os brasileiros a chegarem ao leste da Ucrânia viajando de ônibus pelo interior da Rússia.

A narrativa de que esta é uma guerra entre neocomunistas e nazifascistas levou milhares de estrangeiros para os campos de batalha da Ucrânia. Os maiores contingentes foram os de franceses e espanhóis. Mas gente de todo o mundo, com os mais diferentes objetivos, desembarcou no leste do país no segundo semestre de 2014 para lutar. Entre os latino-americanos, os brasileiros formaram o maior contingente.

Rodolfo Cunha Cordeiro, 30, um ex-segurança particular de Presidente Prudente (SP), chegou em novembro de 2014, seguindo a rota estabelecida pelos recrutadores. Comprou um voo até Moscou e lá foi recebido por um grupo de russos, que o colocaram em um ônibus até Lugansk.

Ali ele foi integrado a um batalhão internacional que recebia gente de todo o mundo, a maior parte dela sem nenhum tipo de treinamento militar.

“Logo no começo nos colocaram em batalhas pesadíssimas, no front mesmo”, afirma ele. “Eu servi lá com dois brasileiros. Os dois acabaram feridos perto de Mariupol [cidade no sul da Ucrânia hoje sob controle de Kiev], conta o paulista, que permanece vivendo em Donetsk, assim como um dos brasileiros feridos.

Rodolfo gosta de ser chamado de Magayver — assim mesmo, com a grafia aportuguesada do personagem da série de televisão. Gosta também de dizer que decidiu abandonar a vida em Presidente Prudente para ajudar as pessoas do leste da Ucrânia contra as ameaças fascistas que sofriam.

Rodolfo, no entanto, admite que nem sabia exatamente onde ficava Donetsk e não entendia exatamente do que se tratava a guerra a qual estava indo lutar.

“Preciso admitir que havia uma dose grande de aventura, eu sempre gostei da vida militar”, diz ele, que recusa a pecha de mercenário. “Nunca ganhei dinheiro aqui, o que nos pagam mal dá pra viver”, diz.

Brasileiro em área de combates em 2015

Hoje mora em um pequeno quarto sem banheiro em um edifício destinado a estudantes, no centro de Donestk. Tem uma vida espartana. Recebe o equivalente a cerca de R$ 700 por mês e trabalha nas forças de segurança do Ministério do Interior da República Popular de Donetsk, no que ele chama de uma “espécie de Polícia Federal”.

“Ainda vou pro front, mas em geral fico na retaguarda”, afirma ele, que deixou o Exército após romper os ligamentos do joelho.

Rodolfo serviu com Rafael Lusvarghi e outros brasileiros por vários meses. Estiveram juntos em diferentes batalhas e, assim como o paulista preso, também é considerado um terrorista pela Ucrânia.

Ele agora é cidadão da República Popular de Donetsk. Carrega orgulhoso o passaporte que não é reconhecido por nenhum país do mundo, mas que lhe dá direito a entrar e sair da Rússia quando bem entender.

Quando está de folga, sempre caminha pelas ruas de Donetsk com as quase dez medalhas que recebeu por seus serviços em batalha. No coldre, carrega uma pistola soviética Makarov. “Foi prêmio de guerra, peguei de um soldado ucraniano que morreu em batalha”, diz.

Ele tem pouco contato com o outro brasileiro que vive em Donetsk. O rapaz de 28 anos foi ferido duas vezes em combate, caminha com dificuldade e não quer se identificar.

Lusvarghi, Rodolfo e policial militar amazonense que também se alistou para lutar com os rebeldes em 2015

O jovem, assim como Rodolfo, pretende seguir vivendo na província rebelde. Os dois vêm de famílias de classe média baixa e afirmam não ter oportunidade no Brasil. Preferem seguir a vida distantes de casa. Aqui conquistaram um reconhecimento que dificilmente teriam como segurança privado ou motoboy.

“Minha vida é aqui agora, tenho um bom currículo como militar, não tenho nada para fazer no Brasil”, diz Rodolfo, enquanto mostra a coleção de documentos que comprovam as autenticidade de suas medalhas. Um delas, concedida a ele por rebeldes cossacos, carrega o rosto do presidente russo, Vladimir Putin.


Originally published at www1.folha.uol.com.br on July 29, 2018.