“Como juíza no tribunal do crime, salvei vida do homem que matou meu filho”

A história de Maria Aparecida Rodrigues*, uma dona de casa de 65 anos da Zona Leste de São Paulo que decidiu anistiar o assassino de seu filho mais velho em um julgamento do PCC

Yan Boechat
May 20 · 6 min read

Por Maria Aparecida Rodrigues*, em depoimento a Yan Boechat

*Todos os nomes, locais e datas foram alterados para preservar as identidades dos personagens desse depoimento

fazia uns dois dias que eles tinham levado ele para o cativeiro. Eu sabia que eles estavam batendo nele, que estavam maltratando. Estavam esperando uma decisão nossa, sobre o que iríamos querer que fizessem com ele. Era uma pressão danada, eles queriam matar o rapaz logo. A família dele já tinha sido avisada que não ia receber o corpo. Convidaram a mãe dele, os irmãos, os primos, todo mundo, para irem lá no cativeiro fazer as despedidas. Mas o corpo eles não iam entregar. É assim que eles fazem nesses casos, é pra mostrar disciplina mesmo. Pelo menos era o que minha filha e meu neto, que foram lá, que viram o rapaz apanhando, me contaram. Eu não fui. Por mais raiva que eu tinha daquele homem, o homem que degolou o meu filho por uma briga boba, eu não quis ir.

Aí no segundo dia eles me ligaram. Queriam saber qual era minha posição, o que a gente tinha decidido. Eu não sabia o que fazer, vou ser sincera, não sabia. Mas naquele segundo dia eu disse que queria que eles dessem água para ele. E que comprassem uma pizza. Era o que eu queria naquele dia, naquela hora, porque eu sei que ele estava sofrendo. E eu sei que a mãe dele estava sofrendo. Não sei o que aconteceu. Tive pena, pensei nos meus dois filhos que já se foram. A única coisa que veio à cabeça naquela hora era que eu queria que dessem uma pizza e água para ele. Atenderam.

As coisas aqui na Cidade Tiradentes* já são assim há bastante tempo. Desde que a disciplina chegou, ninguém mais pode matar sem autorização, sem razão. Antes podia. Todo dia tinha morte, era uma coisa horrível. Todo dia tinha um corpo por aí. Mas depois da disciplina, tudo mudou. As coisas estão mais calmas. Quem mata sem razão, quem desobedece a disciplina, é punido.

Ele matou o Leandro, meu filho lindo, com um corte na garganta, aqui pertinho de casa. O Leandro era menino trabalhador, pai amoroso, tinha dois filhos, a Márcia e o Marcelinho. Trabalhava de ajudante geral em uma empresa, nunca tinha ido nem pra Fundação Casa. Mas ele gostava da maldita da droga. Gostava da cocaína e gostava de beber.

Naquele dia ele foi com a namorada, a irmã dele e o cunhado pra uma quermesse aqui perto de casa. Antes de sair ele ainda me disse que não queria ir, mas foi. Ele era ciumento também e quando bebia e usava droga era pior ainda. Naquele dia, as duas e pouca da manhã minha filha, o marido dela e a esposa dele chegaram em casa reclamando do Leandro. Disseram que ele bateu nelas, que tava daquele jeito. Eu fiquei nervosa e não consegui dormir mais.

Às quatro e meia da manhã um rapaz passou gritando aqui no portão, me chamando. Ainda me lembro direitinho da voz dele: “Dona Aparecida, acorda, vim dar notícia do Leandro”. Na hora eu senti uma coisa, sabia que tinha acontecido alguma tragédia. Fui correndo e quando cheguei lá o Leandro tava caído. A faca cortou o pescoço dele de ponta a ponta. Disseram que ele tava no bar e discutiu com um rapaz, acusou ele de estar roubando. O menino pegou uma faca e cortou o pescoço dele.

O Leandro foi o segundo filho que eu perdi. Anos antes eu enterrei meu filho Francisco, com só 18 anos. O Francisco era mais velho que o Leandro, estava estudando, no segundo ano, mas estava envolvido com umas má influências aqui do bairro. Eu não sabia que ele estava metido em coisa ruim, não tinha nem ideia. Mas um dia ele saiu com os meninos para ir para a escola, saiu de caderno e tudo. Parece que foram numa farmácia roubar. O dono reagiu. Me disseram que prenderam ele. Os meninos que tavam com ele me contaram que ele tinha sido atingido só por um tiro de raspão. Que ele tava vivo, que viram ele sentado e conversando no chão da farmácia.

Fui pra Casa de Saúde Santa Marcelina pra dar uma bronca dele. Mas quando cheguei me disseram que ele não tinha sobrevivido. Não entendi. Ai quando vi o corpo ele tinha tiro no peito, na mão, na cara. Meu deus, meu filho era tão lindo, e tava com os dentes quebrados, a boca toda machucada. Uns disseram que foi a população. Outros que foi a polícia. Eu nunca corri atrás de verdade para saber o que aconteceu.

Foi difícil com o Francisco. Mas com o Leandro acho que foi pior. Eu nem tive tempo de ficar de luto. De repente me vi com netos pra cuidar, com a vida pra tocar, tudo foi assim muito, muito rápido e confuso. Eu me lembro de um dia que eu tava deitada e me veio um desejo de suicídio assim forte, diferente. Não veio da cabeça. Veio de dentro da barriga, do meu útero. Uma coisa muito forte mesmo. E aí, no meio desse sentimento, o Marcelinho, o filho do Leandro, veio pedir um lanche, disse que tava com fome. Enterrei aquela vontade de morrer e fui fazer comida pra ele.

Quando a gente tava lá em casa discutindo o que íamos decidir sobre o assassino do Leandro eu pensava nisso. Eu tinha raiva, mas pensava, será que mais violência vai adiantar alguma coisa? Eu imaginava essa vingança como uma faca de duas pontas. Enquanto a gente feria alguém, era provável que a gente ia ser ferido também. Meu neto também não queria, nem minha filha. Pra ele acho que foi mais difícil, ele estava sendo pressionado, tinha medo de ser visto como covarde. Passei aqueles dias todos rezando, pedindo uma luz. E eu sei que a mãe do assassino do meu filho também estava rezando. Estávamos rezando juntas, apesar de separadas.

Aí no terceiro dia ligaram de novo. Queriam matar o rapaz. Mas lá pelas regras deles a decisão da sentença era nossa. Era minha, que sou a mãe. E ai eu disse que era pra soltar ele. Que eu não queria mais morte. Eles não gostaram, queriam dar a sentença máxima ao rapaz. Diziam que ele criava problema, que já tinha matado mais dois. Mas não me importei. Pedi para soltar. E soltaram. Ele está por ai hoje e a sobrinha dele estuda com a minha neta.

No fim, acho que quem mais sofreu com tudo isso foi o Marcelinho, o filho do Leandro. Cresceu sem pai, se meteu também com as drogas e as coisas erradas. Há 10 meses foi preso. Pegou oito anos por roubo. Está em Franco da Rocha. Ainda não fui visitá-lo.