Hospital de campo em Mossul é retrato vivo do horror da guerra no Iraque

Em uma casa abandonada, suja e semi-destruída, médicos e enfermeiros tentam salvar soldados e civis feridos nos combates brutais que tomam as ruas da segunda maior cidade do Iraque

Mãe chora pela morte de filho de seis anos após ataques com morteiros em Mossul
Texto e fotos: Yan Boechat, de Mossul, Iraque
Reportagem originalmente publicada na Folha de São Paulo em 18/12/2016

A urgência com que os soldados carregam a maca contrasta com a serenidade estampada no rosto do homem de cerca de 50 anos, barba grisalha, turbante a lhe cobrir a cabeça e um par de óculos tortos.

Seu rosto está coberto por uma espessa camada de poeira cinza e ele olha para o céu, tranquilo, enquanto os paramédicos aplicam um torniquete em sua perna esquerda. Ela foi dilacerada pela explosão de um morteiro que caíra a poucos metros. O pé esquerdo já não existe, e um amontoado de carne e músculos misturam-se com os pedaços de tecido que sobraram de sua calça.

A fíbula e a tíbia estão aparentes até quase a altura do joelho. No ponto onde foram cortadas, estão negras, queimadas pela explosão.

Ao lado dele, um jovem de não mais que 25 anos não se conforma, levanta as mãos para o céu e, por fim, joga-se no chão de barro coberto por gazes ensanguentadas, roupas rasgadas e seringas usadas há pouco.

Perto dele jaz o corpo de um menino, cerca de 10 anos de idade. Morreu ali, sobre a maca, vestindo apenas uma calça preta de moletom.

Mais adiante, uma mulher grita, desesperada, em choque. Perdeu as duas pernas ao pisar em uma mina improvisada. Ela ainda sangra em profusão. Os paramédicos procuram uma veia no braço esquerdo para aplicar soro e medicamentos.

Seu rosto vai ficando cada vez mais pálido, mas ela não para de urrar. O sangue que escorre de suas coxas encharca a maca, o solo e mistura-se ao esgoto que sai de uma outra casa vizinha a essa emergência hospitalar improvisada.

Ela morre poucos minutos depois. Chegou ali sem parentes, sem conhecidos e seu corpo é coberto com um cobertor colorido a espera de que alguém venha buscá-lo para ser enterrado.

Criança atingida por estilhaços de morteiro é atendida em hospital de campo.

O horror da guerra está aqui. Distante menos de três quilômetros do que se convencionou chamar de linha de frente nesta batalha confusa que se desdobra em uma cidade de 200 quilômetros quadrados, o hospital de campo montado pelo Exército iraquiano é o retrato vivo de um pesadelo permanente.

É nesta casa semidestruída, imunda, e no terreno baldio ao seu lado, que centenas de civis e soldados recebem os primeiros socorros todos os dias. Eles chegam em blindados, caminhões, carros ou mesmo pequenas carroças puxadas pelos sobreviventes. E chegam, quase sempre, em estado crítico, feridos, em sua maioria, pelos morteiros que caem indiscriminadamente sobre a cidade.

“Todos os dias recebemos no mínimo 50 civis e nos dias mais agitados, cerca de 200 deles. Uma boa parte crianças, que não conseguem ficar em casa e são vítimas constantes dos morteiros”, diz o capitão Nizar Jawad, um dos três médicos que dão expediente neste hospital de campo, com outros 15 paramédicos.

Jawad, de 38 anos, é um médico de guerra experiente. Vem atuando em hospitais como esse há pelo menos quatro anos e, nos últimos dois, participou das principais batalhas do Exército iraquiano contra o Estado Islâmico, como na retomada das cidades de Fallujah e Ramadi.

“A natureza dos ferimentos agora é igual a de outras batalhas, o que tem nos surpreendido aqui é o volume de civis, nunca tivemos que atender tantos, é impressionante”, diz ele.

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A ONU estima que cerca de 1,5 milhão de pessoas, sendo 600 mil crianças, estejam vivendo em Mossul neste momento, a maior delas em áreas controladas pelo Estado Islâmico e que ainda vivem um período de tranquilidade, sem batalhas intensas ou bombardeios aéreos.

Com as Forças Armadas avançando em direção às áreas mais povoadas, na margem ocidental do rio Tigre, a tendência é que o número de vítimas civis cresça ainda mais, ampliando não só as dificuldades no hospital de campo, mas também nos hospitais em Erbil, capital do Curdistão, a 80 quilômetros de Mossul, para onde são levados os feridos.

E ele está próximo de chegar ao limite. Com 200 leitos, os médicos do Hospital de Emergência da cidade dizem não ter capacidade e nem insumos para tratar todos os pacientes como deveriam. Muitos deles recebem o básico de cuidados e são enviados para os campos.

Foi o que aconteceu com Sheima Abduralah, 37, e sua filha Nadjar, 9. As duas estavam na cozinha quando um carro-bomba explodiu na esquina de sua casa. Parte da parede caiu sobre as duas e um incêndio consumiu rapidamente os outros cômodos.

As duas foram levadas para Erbil. Sheima com múltiplas fraturas na perna direita e Nadjar com uma profunda laceração, deixando parte de sua escápula direita à mostra. As duas passaram apenas três dias no hospital, não foram operadas mas enviadas para o campo de refugiados de Hasanshan, a 40 quilômetros de Erbil.

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“Não temos médico aqui e não podemos sair do campo, quero ir para a casa da minha mãe em Bagdá, mas não temos autorização.”

A chegada do inverno tende a tornar as coisas ainda mais complexas no improvisado hospital de campo. Entre dezembro e fevereiro as temperaturas podem ficar abaixo de zero nessa região do Iraque, e Mossul, neste momento, não conta com energia elétrica nem água encanada, e há escassez de combustíveis.

“Já começamos a receber civis com doenças típicas do inverno. Não estamos preparados para lidar com casos de pneumonia ou gripe aguda, somos um hospital de guerra”, diz o primeiro-sargento Kali Hashan, outro médico que trabalha ali.

Perto dele, Ayman Ahmed, 60, conta com a ajuda de outros soldados para retirar o corpo do filho, de apenas 17 anos, de dentro da casa. Uma nova leva de civis está prestes a chegar e não há espaço para o cadáver do adolescente que acabara de morrer, vítima de um tiro de “sniper”.

“Estávamos dentro de casa, era uma manhã calma e ele decidiu ir à rua para ver o que estava acontecendo”, conta Ahmed. “Nem ouvimos o tiro. Ele simplesmente caiu.”

Ahmed acha que o filho chegou com vida ao hospital, mas não tem certeza. Por mais de duas horas ele ficou sentado ao lado do corpo, coberto por uma manta amarelada. Volta e meia descobria a cabeça do filho para beijá-lo a face. Prometeu enterrá-lo em seu quintal.

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