Os profetas do Apocalipse e a fé que move o Palácio do Planalto

Alinhada aos evangélicos, política externa de Bolsonaro segue teologia do século XIX que prevê para breve o fim dos tempos e fará do país o 3º a transferir embaixada para Jerusalém

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Templo de Salomão em São Paulo
Textos e fotos Yan Boechat, de São Paulo

Não fosse o burocrático crachá com foto e nome impressos, Roberta estaria pronta para figurar em alguma das novelas bíblicas exibidas pela Record TV em horário nobre. Vestida com uma longa túnica branca e uma faixa dourada a lhe cortar a cintura, ela passa as horas a recepcionar fiéis que chegam ao Templo de Salomão, a suntuosa e faraônica sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, na zona leste de São Paulo. Aos que vencem a compacta barreira de seguranças munidos de detectores para evitar a entrada de celulares, Roberta repete o ritual. Primeiro, candidamente, estica o braço direito com a palma da mão virada aos céus, indicando a entrada. Ato contínuo, abre um leve e celestial sorriso e dá as boas-vindas aos fiéis, em hebreu moderno: 
 — “Shalom”.

O delicado shalom de Roberta é o início de uma jornada por um mundo repleto de símbolos judaicos arcaicos neste que é o maior templo religioso do Brasil. Sob luzes apagadas, 12 gigantescos candelabros representando as 12 tribos de Israel iluminam as paredes laterais de 18m de altura, 6 de cada lado. No palco, grudadas ao púlpito, reproduções do que seriam as duas tábuas contendo os Dez Mandamentos entregues por Deus a Moisés.

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À direita, uma Torá, o Pentateuco judaico escrito em pele de carneiro em forma de rolo de papiro, repousa intocada. Do lado esquerdo, uma nova menorá, o candelabro típico do judaísmo, guarda letras ao estilo hebraico que formam a palavra Yavé, um dos nomes de Deus no Velho Testamento bíblico. Ao fundo, uma representação em larga escala do que teria sido a Arca da Aliança, onde os judeus guardavam as tábuas com os Dez Mandamentos. Banhada a ouro e com gigantescos anjos de vastas asas, a arca ocupa a parte mais importante do Templo de Salomão e domina quase todo o palco.

Sob as luzes ainda semiapagadas, homens e mulheres vestidos como Roberta, a recepcionista da entrada, organizam fiéis que chegam para o último culto de um domingo chuvoso e frio. Com mesma túnica, mesma faixa, mesmo crachá, repetem movimentos doces de braços esticados, palmas das mãos ao céu. Um voz calma, porém repleta de autoridade, avisa:

— “Silêncio, mantenha-se em estado de oração enquanto o culto não se inicia”.

De repente, trombetas ressoam, as luzes acendem e então tudo se transforma. Um bispo de terno preto bem cortado, gravata vermelho sangue, assume o palco, e grita:

— “Glória ao Deus de Israel”.

A plateia repete, respeitosa e contida, influenciada pelo ambiente intimista de poucos segundos atrás:

— “Glória”.

A música fica mais alta; as luzes, mais fortes; o bispo, mais empolgado:

— “Eu não ouvi. Glória ao Deus de Israel!!!”.

A plateia, já sob o impacto das luzes e dos sons, enfim, solta os pulmões:

— “Glória!!!”.

Gritos, cantos, possessões e exorcismos assumem o protagonismo do culto. O Templo de Salomão, rapidamente, se transforma. De uma quase sinagoga, transmuta-se em uma das dezenas de milhares de igrejas neopentecostais espalhadas pelo país. A Israel mítica de Moisés, Davi e Salomão enfim encontra o Brasil do século XXI.

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Nenhuma igreja evangélica brasileira apropriou-se dos símbolos judaicos de forma tão consistente, tão maciça e tão explícita quando a Universal do Reino de Deus. A aproximação com Israel e o judaísmo, no entanto, está longe de ser uma exclusividade da congregação religiosa criada por Edir Macedo em uma antiga funerária no subúrbio do Rio de Janeiro em 1977.

Essa tem sido a marca das igrejas pentecostais e neopentecostais que se espalharam pelo Brasil de forma acelerada nas últimas três décadas e que cativaram uma parcela importante da população brasileira. Hoje, 32% de brasileiros se declaram evangélicos (a maior parte deles, pentecostais), de acordo com o Datafolha.

A aproximação com Israel tem como base e razão a teologia apocalíptica pentecostal, que defende: a segunda vinda de Jesus Cristo à Terra, o Armagedon e o consequente Juízo Final só se concretizarão quando os judeus finalmente retomarem Jerusalém e toda a Terra Santa. Para líderes religiosos como Edir Macedo, Silas Malafaia, Marco Feliciano e os quase 200 deputados da Frente Parlamentar Evangélica, defender Israel e lutar para que os judeus controlem a Palestina há de garantir bençãos terrenas e acelerar as promessas divinas de uma vida eterna no paraíso após o fim dos tempos.

É uma visão de mundo exclusivista, em que judeus estão no centro da realização de todas as profecias bíblicas. Para evangélicos que agora ganham inédita influência no Planalto, a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém é passo importante em direção ao Apocalipse — o momento da verdade definitiva, em que a humanidade será julgada e todos os que não receberam a mensagem salvadora de Jesus serão condenados.

“Essa é a visão escatológica que baseia todo o pentecostalismo, seja brasileiro ou americano, e que teve crescente influência na política externa dos Estados Unidos para o Oriente Médio nas últimas décadas e que deve passar a ter aqui também a partir de agora”, afirma Edin Abumanssur, coordenador do Grupo de Estudos do Protestantismo e Pentecostalismo da PUC/SP, onde é professor.

Tanto EUA quanto Guatemala, os dois únicos países que já transferiram suas embaixadas de Tel Aviv para Jerusalém, tomaram a decisão influenciados fortemente por comunidades religiosas que seguem esse mesmo tipo de visão apocalíptica. Nos EUA calcula-se que cerca de 70 milhões de pessoas (a maioria ligada ao Partido Republicano) se assumam como pentecostais. Na Guatemala, cerca de 40% da população declara-se evangélica e majoritariamente pentecostal, a maior proporção entre os países latino-americanos, outrora o grande bastião católico do mundo.

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Se o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), cumprir a promessa que fez nas igrejas e sinagogas brasileiras, aos jornais israelenses, no Twitter e por onde mais passou nessas últimas eleições, o Brasil será o terceiro país a tomar essa decisão extremamente controversa no cenário político internacional. Será uma decisão tomada, em última instância, tendo como base uma teologia marginal nascida no século XIX na Inglaterra e que se espalhou de forma extraordinária nas Américas nos últimos 50 anos. Procurados pela reportagem, a Igreja Universal, o Itamaraty e o futuro chanceler não se manifestaram.

Muro das lamentações, Jerusalém

“Muita gente acha que o que influencia a diplomacia brasileira em relação a Israel e a Palestina são os judeus”, diz Guilherme Casarões, professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas que estuda as relações entre Brasil e Israel há mais de uma década. “Besteira. Quem realmente faz pressão e que agora mandará de forma efetiva nessa relação são os evangélicos. O dispensacionalismo, essa linha teológica que eles seguem, é que dará as cartas a partir do dia 1º de janeiro.”

A ideia de que judeus precisam retornar fisicamente para a região que hoje é conhecida como Israel e Palestina não é nova entre protestantes, notadamente entre evangélicos ingleses e americanos do período pré-industrial. Teólogos britânicos como Joseph Mede (1586–1639) e Thomas Brightman (1562–1607) já defendiam no distante século XVII, ainda que de forma difusa, a necessidade do retorno dos judeus ao Oriente Médio para que as profecias contidas nos livros de Daniel, Zacarias e do Apocalipse se concretizassem. Tanto eles quanto outros estudiosos bíblicos desse período passaram a interpretar as escrituras de forma muito mais literal do que católicos nos séculos anteriores. Diversas passagens, até então analisadas sob um prisma metafórico e filosófico, começaram a ser lidas de maneira objetiva.

Isso resultou em uma série de novas visões sobre o fim dos tempos, a ponto de o pastor americano William Miller (1782–1849) ter criado uma igreja específica com base em seus cálculos de que Jesus retornaria à Terra entre 1843 e 1844. Miller, como se vê, errou, mas a Igreja dos Adventistas do Sétimo Dia criada por ele com base em suas contas permanece até hoje e reúne cerca de 20 milhões de pessoas no mundo.

“Há diferenças profundas entre os sionistas cristãos dos séculos XVII e XVIII e entre aqueles que passaram a defender essa visão teológica a partir do século XIX”, diz Andrew Crome, professor de história moderna da Universidade Metropolitana de Manchester. “Mas, em ambos os casos, o que os une é uma leitura mais literal da Bíblia. Nela, os judeus assumem o papel do povo escolhido e através deles e de uma Israel restaurada se chegará ao fim dos tempos e ao paraíso.” Crome lançou no ano passado o livro “Christian Zionism and English National Identity” (Sionismo Cristão e Identidade Nacional Inglesa), onde defende que essa interpretação bíblica teve influência profunda nos costumes, na política externa e na construção da identidade inglesa moderna.

Foi a partir do século XIX, no entanto, que a teologia do dispensacionalismo ganhou os contornos que tem hoje e se espalhou pelo mundo por meio de pastores proselitistas americanos e ingleses. John Nelson Darby (1800–1882), um pastor londrino anglicano que viajou frequentemente aos EUA e ao Canadá entre as décadas de 1860 e 1870, expandiu a teoria das dispensações divinas.

Segundo ele, uma série de eventos históricos seria necessária para que Jesus retornasse à Terra e o fim dos tempos ocorresse. Com base em seus ensinamentos, Cyrus Scofield (1843–1921), um teólogo americano, desenvolveu no fim do século XIX uma série de interpretações e um esquema de estudo bíblico que se disseminou por todas as Américas. Conhecida como Bíblia de Scofield, ela ainda é a base de estudos e da interpretação literal das Escrituras usada pela maior parte das igrejas pentecostais. No Brasil, ela é facilmente encontrada e amplamente utilizada.

“Essa teoria prevê que uma série de eventos precisam ocorrer para que Jesus retorne, e o principal deles é exatamente a retomada da Terra Santa pelos judeus, incluindo o Monte do Templo, onde hoje está a Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém”, diz Gedeon Alencar, filósofo e doutor em ciências da religião pela PUC-SP, membro da Rede Latino-Americana de Estudos do Pentecostalismo e autor do livro “Assembleia de Deus: Origem, Implantação e Militância”, em que conta a história de uma das primeiras congregações pentecostais do Brasil.

“Por isso, quando Israel foi oficialmente criado, em 1948, iniciou-se uma espécie de contagem regressiva para o final dos tempos. Isso foi ainda mais fortalecido com a retomada de Jerusalém em 1967, na Guerra dos Seis Dias. Para muitos pentecostais, havia a certeza de que Jesus voltaria entre as décadas de 70 e 80”, diz. “Foi um período de muito medo.”

Essa não é, no entanto, uma interpretação bíblica comum a todos os evangélicos e protestantes. Para as igrejas protestantes históricas, Israel é mais uma nação no mundo e os judeus são integrantes de uma religião. “Quando Jesus Cristo veio à Terra, tudo mudou. Todos nos tornamos um só povo, não há mais o povo escolhido, todos somos escolhidos por Deus e não acreditamos que os judeus precisam retornar à Palestina para que profecias se realizem”, diz o reverendo Valdinei Aparecido Ferreira, pastor titular da Igreja Presbiteriana de São Paulo, o mais antigo templo evangélico da capital paulista, fundado em 1865 por missionários americanos.

Sociólogo de formação, Ferreira diz acreditar que a visão apocalíptica dos pentecostais ganhou força ao longo do século XX por causa de momentos extremamente turbulentos, como as guerras mundiais, a possibilidade de um confronto nuclear, a desestruturação de um mundo antes muito previsível. “Há uma sistematização de um mundo muito complexo, muito aterrorizante que acabou caindo no gosto de muitas pessoas religiosas, mas com conhecimento teológico muito limitado”, diz. “O dispensacionalismo organiza a angústia do caos, e quando Israel se tornou uma nação, muita gente acreditava estar vendo [o Apocalipse] se cumprir diante de seus olhos e se preparava para o fim dos tempos.”

A cronologia do fim do mundo na interpretação pentecostal é, de fato, assustadora, como diz Gedeon Alencar, o hoje doutor em ciência da religião que foi aterrorizado ao longo da juventude por temer que seria deixado para trás quando Cristo arrebatasse crentes. De acordo com essa interpretação bíblica, Jesus retornará à Terra de forma abrupta e levará aos céus aqueles que acreditam ser ele o filho de Deus e o único meio para a salvação. Aqueles que acreditarem em Cristo como o único salvador nesse momento seguirão para o plano divino, como num passe de mágica. Aos que ficarem para trás, o terror.

Durante sete anos Deus derramará seu ódio contra os que não aceitaram Jesus. Nesse período, conhecido como a Grande Tribulação, haverá dor, sofrimento e caos. Após esse momento, Cristo então retornará à Terra mais uma vez e reinará por mil anos. Ao fim, a batalha final, o Armagedon. Após o mal ser vencido, Cristo retornará aos céus com todos os crentes. Aqueles que não se converteram seguirão para o inferno. Nos EUA diversos filmes e livros sobre esse momento específico foram lançados nas últimas duas décadas. O mais famoso deles, “Left Behind”, teve duas continuações e uma refilmagem estrelada por Nicolas Cage em 2014, “O Apocalipse”.

Dentro dessa visão teológica, apenas judeus, o povo escolhido por Deus, terão uma chance final de reconhecer que crucificaram o messias e que agora, arrependidos, aceitam Jesus como o único salvador. A judeus que não se converterem ao Evangelho, o fim será trágico, como o de qualquer gentio. “A maior parte das pessoas em Israel prefere não ver que essa é uma visão profundamente antijudaica, até antissemita, se você preferir”, diz o historiador e escritor israelense Shlomo Sand, autor de livros como a “Invenção do Povo Judeu”, a “Invenção da Terra de Israel” e “Como Deixei de Ser Judeu”, todos publicados no Brasil.

“A ideia do retorno físico dos judeus a Israel precede o movimento sionista, criado por Theodor Herzl [1860–1904] no fim do século XIX, mas ele sempre teve essa raiz antijudaica, em que os judeus são um meio para o fim do mundo e que para eles sobreviverem a esse apocalipse será preciso abandonar sua fé, sua cultura e se tornarem cristãos”, diz Sand, professor emérito da Universidade de Tel Aviv e ávido defensor de que o judaísmo é apenas uma religião, e não uma raça, como creem muitos judeus e muitos evangélicos. “Me assusta essa ideia.”

Em Israel e nos EUA, o sionismo cristão tem papel fundamental na profunda guinada à direita que esses países tomaram nos últimos anos. Eleitores pentecostais do meio-oeste americano, na região conhecida como Cinturão Bíblico, formam uma das mais importantes bases de apoio ao presidente Donald Trump. São eles também os principais lobistas a pressionar o governo americano a reconhecer e apoiar o avanço israelense sobre as terras palestinas na Cisjordânia por meio de assentamentos ilegais, sob o ponto de vista das Nações Unidas.

Levantamento feito pelo jornal israelense “Haaretz” divulgado nesta semana estima que cristãos evangélicos enviaram mais de US$ 60 milhões na última década para a Cisjordânia afim de financiar assentamentos de colonos judeus. Anualmente, quase meio milhão deles viaja a Israel em peregrinação para Samaria, Judeia e Jerusalém. “O Brasil envia, principalmente por agências ligadas às igrejas pentecostais, quase 50 mil turistas evangélicos para esses destinos”, diz Magno Paganelli, autor de tese de doutorado na USP sobre o turismo pentecostal a Israel.

Não à toa, na cerimônia de transferência da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém, Trump escolheu o pastor texano John Hagee para abençoar a mudança. Ele é fundador e presidente da maior organização sionista cristã dos EUA, Christians United for Israel, e autor de repetidos comentários antissemitas. Para Hagee, por exemplo, Hitler e o Holocausto foram criações divinas para punir os judeus por sua desobediência. “Israel e os judeus deveriam ter medo do crescimento da influência dos evangélicos pentecostais no país”, diz Sand, criticado em Israel por suas posições, que muitas vezes servem como embasamento nos discursos de antissemitas e antissionistas.

No Brasil a comunidade judaica tende a ter visões conflitantes sobre como pentecostais vêm assumindo o papel de defensores de Israel e se apropriando de seus símbolos religiosos. Oficialmente, tanto a Confederação Israelita do Brasil (Conib) quanto a Congregação Israelita Paulista (CIP) afirmam ver com naturalidade o apoio.

“Muitos evangélicos se sentem espiritualmente próximos a Israel e, por esse motivo, gostariam de ver uma maior cooperação entre os governos desses dois países”, afirma Michel Schlesinger, rabino da CIP. Ele diz não se sentir agredido pelo uso cada vez mais intenso dos símbolos judaicos pelos evangélicos. Posição muito semelhante tem o presidente da Conib, Fernando Lottenberg, que diz não ver a visão escatológica pentecostal como antissemita. “Sentimos que o apoio a Israel é genuíno e vem, primordialmente, do fato de Israel ser a Terra Santa da Bíblia — patrimônio comum — e igualmente berço do cristianismo”, diz.

Nas sinagogas, no entanto, o clima não é tão sereno quanto Lottenberg e Schlesinger fazem crer. Desde que setores da comunidade judaica passaram a se aproximar de Jair Bolsonaro, estimulados por suas promessas de apoio irrestrito a Israel e de seguir os EUA na transferência da embaixada para Jerusalém, a cizânia tem sido a tônica. “A comunidade está profundamente rachada, como nunca esteve antes”, diz Michel Gherman, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Centro de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para ele, o apoio da comunidade a Bolsonaro e a aproximação de alguns líderes judeus a figuras simbólicas do neopentecostalismo brasileiro, como Edir Macedo, ampliaram de forma inédita as divisões internas entre judeus brasileiros. “Uma parcela da comunidade vê com preocupação esse movimento dos evangélicos por entender que, ao final, se trata uma visão de mundo que pressupõe o fim da religião, o fim do projeto judeu”, diz Gherman, que concorda com a tese de que a visão escatológica dos evangélicos pentecostais é, ao fio e ao cabo, uma visão nitidamente antissemita.

Para o governo israelense, no entanto, esse não é um problema. A Embaixada de Israel no Brasil tem atuado de forma ativa junto à comunidade pentecostal, em especial à Frente Parlamentar Evangélica (FPE), um dos grupos mais coesos e ativos no Congresso Nacional. Não raro, deputados evangélicos são convidados a visitar Israel pelo governo daquele país e a relação entre o embaixador israelense e deputados da FPE muitas vezes ultrapassa os ritos protocolares.

Neste ano, por exemplo, o embaixador Yossi Shelley gravou um vídeo para o deputado federal Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) usar durante sua campanha. “Temos uma ótima relação. Ele chegou a gravar um vídeo para que eu distribuísse na comunidade judaica dizendo que sou um amigo de Israel”, afirmou o deputado, um dos parlamentares mais ativos da FPE.

Cavalcante, como boa parte dos quase 200 deputados que fazem parte da bancada, é um defensor agressivo de Israel no Congresso e junto ao governo. Há anos vem atuando de maneira incansável para ver a transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém se concretizar. “Israel serve como uma bússola para o mundo e o movimento iniciado pelos Estados Unidos em transferir a embaixada para Jerusalém é um dos indícios fortíssimos de que a volta de Cristo está próxima”, diz. O deputado afirma ainda não ter ido a Jerusalém em uma das tantas viagens oficiais organizadas pela embaixada de Israel no Brasil. “Mas já disse ao embaixador que vou acompanhar o presidente Bolsonaro quando ele for lá.”

Criada em 2003, a Frente Parlamentar Evangélica vem ganhando força ano a ano com demandas ligadas aos costumes no ambiente interno. Ao mesmo tempo, a bancada tem pressionado o Itamaraty a adotar uma política externa que passe a tratar Israel de maneira mais condescendente.

“Ao longo dos anos os parlamentares passaram a destacar a importância de um brasileiro na criação de Israel, exaltando a figura de Oswaldo Aranha [1894–1960] e toda a questão tecnológica, principalmente aquela ligada à defesa e agricultura”, diz Rafael Bruno Gonçalves, professor da Universidade Federal do Pampa e autor do livro “Conexões Entre Religião e Política: As Estratégias Discursivas e a Atuação da Frente Parlamentar Evangélica”. Para ele, essa foi uma estratégia desenvolvida pela FPE para ampliar o arco de interesse por Israel que não fosse apenas a questão religiosa. “Eles fizeram isso para tornar o discurso mais palatável e conseguir atingir um público mais amplo. Foi uma estratégia vitoriosa.”

Bolsonaro tem baseado seu discurso pró-Israel exatamente nas potencialidades econômicas que uma aproximação maior com o país do Oriente Médio poderia trazer ao Brasil. Católico, ele é devoto da Virgem Maria, a quem os evangélicos não atribuem nenhuma santidade. Muitos parlamentares e líderes evangélicos têm dúvidas se ele compreende a importância do apoio a Israel por conta das profecias bíblicas. “Não acho que ele tem um entendimento profundo das implicações teológicas, nem eu nem o Magno [Malta, senador pelo Espírito Santo] entramos nessa questão a fundo, nosso ponto de contato sempre foi mais ideológico”, diz o pastor Silas Malafaia, que celebrou o casamento de Bolsonaro com a futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro, em 2013.

A relação do agora presidente eleito com o movimento evangélico se intensificou a partir de 2014, quando ele iniciou sua campanha ao Planalto, e se sedimentou em 2016, quando Bolsonaro foi batizado nas águas do rio Jordão, em Israel, pelo líder da Igreja Assembleia de Deus e presidente do Partido Social Cristão, pastor Everaldo Dias.

Em campanha, Bolsonaro passou a prometer a fiéis evangélicos que, eleito, transferiria a embaixada brasileira para Jerusalém. Fez a mesma promessa aos líderes israelenses, entre eles o embaixador Yossi Shelley, com quem já se encontrou ao menos por duas vezes após ser eleito, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

“Ele será cobrado por isso, foi uma promessa que ele fez a uma nação”, diz Malafaia, afirmando que não exigirá uma ação imediata de Bolsonaro em seu primeiro ano de governo. “Mas haverá uma reação se ele não a cumprir. Essa promessa caiu como uma luva para ele no movimento evangélico.”

As relações diplomáticas e comerciais entre Brasil e Israel nos últimos 70 anos têm obedecido à lógica tradicional do Itamaraty, baseada no universalismo e no multilateralismo. Ao longo desses anos, o Brasil tem votado com as maiorias nas Nações Unidas nas resolução pró e contra Israel — a maior delas, contra.

O Brasil votou a favor da resolução que determina a linha do armistício da Guerra dos Seis Dias, em 1967, como fronteira de Israel e da Palestina e que qualquer decisão interna israelense sobre Jerusalém é nula sob o ponto de vista do direito internacional. Por fim, o Brasil considera que Israel ocupa de forma irregular territórios na Cisjordânia. “A política externa sob o comando de Bolsonaro não terá relação com a política externa tradicional brasileira”, afirma Guilherme Casarões, da FGV.

“Mas ainda é difícil saber o que de fato vai ocorrer, porque há grupos com visões distintas dentro do governo. Os militares e os ruralistas tendem a pressionar o Itamaraty para ter uma posição mais pragmática, mais preocupada com os impactos na economia e na segurança que uma mudança dessas tende a gerar”, diz. “Por outro lado, os evangélicos e um grupo que podemos chamar de antiglobalistas procurarão dar um tom mais ideológico a essa relação.”

Para uma boa parte dos pentecostais brasileiros, o estreitamente das relações com Israel tem também um componente econômico profundo, mas de natureza mística e pessoal. “Com a chegada e a expansão do que ficou conhecido como teologia da prosperidade, o discurso apocalíptico passou a ocupar um papel secundário no pentecostalismo brasileiro”, diz Gedeon Alencar, um dos principais estudiosos do movimento pentecostal no país. “De uma hora para outra passou a não fazer muito sentido relembrar que o mundo está próximo do fim”, diz. “Se eu estou pregando que quanto mais dinheiro você der para Deus mais retorno você terá materialmente nessa vida, não parece muito inteligente ficar lembrando que o fim está próximo.”

Na maior parte das igrejas pentecostais brasileiras, o que agora embasa o apoio a Israel é a ideia de que quem defende a Terra Santa e o povo escolhido por Deus há de ser recompensado na existência terrena. “Deus disse a Abraão em Gênesis 12:3: ‘E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem’”, diz o deputado Sóstenes Cavalcante, pouco antes de contar uma conversa que teve com o presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu. “Eu avisei para ele que se ele seguisse votando contra Israel na ONU haveria consequências. Não deu outra, três meses depois veio a gravação do Joesley Batista.”

As luzes centrais do Templo de Salomão se apagam logo após uma sessão de exorcismo à beira do palco. Chamas projetadas cintilam logo abaixo dos dois anjos de longas asas que protegem a Arca da Aliança.

“Quem aqui está brincando de ser crente?”, grita o bispo. A plateia se mantém em silêncio. “Quem realmente acredita em Deus? Esta é a hora de você mostrar que não é um 171 da fé.” As chamas sob os anjos ficam mais intensas. Algumas pessoas na plateia gritam: “Amém!!”.

“É a hora de você dar tudo que tem a Deus, não importa, quanto. Aqui está a fogueira santa, aqui Deus vai retribuir àqueles que têm fé”, diz o bispo. “Amém, senhor”, gritam fiéis. Repentinamente, um pequeno exército de homens e mulheres vestidos de túnicas brancas, faixas douradas e crachás, surge diante do palco com as mão repletas de envelopes com uma fogueira impressa.

“Os levitas estão trazendo os envelopes para a fogueira santa. Mostre a Deus a sua fé.” O bispo então explica que dentro do envelope há um cartão onde deve ser preenchido o nome daqueles que aceitam entregar tudo o que possuem para Deus.

“Nós vamos levar seu nome ao Monte Carmelo em Israel para você ser ainda mais abençoado”, diz. As luzes seguem apagadas, o fogo projetado sobre a arca ainda arde quando Roberta surge entre os levitas distribuindo os envelopes. O sorriso celestial se foi e o braço direito já não executa movimentos tão gentis. Há pouco tempo para distribuir tantos envelopes a tanta gente antes que o culto se encerre.

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Originally published at www.valor.com.br on December 14, 2018.