Resistência abandonada

Venezuelanos que atravessaram a fronteira para a Colômbia foram deixados ao léu por oposicionistas liderados por Guaidó

Yan Boechat
May 3 · 7 min read

Por Yan Boechat, de Cúcuta, na Colômbia

Menos de uma semana depois da fracassada tentativa de entrar na Venezuela à força com toneladas de comida, remédios e insumos de primeira necessidade enviados pelos Estados Unidos, os venezuelanos retidos na Colômbia após o fechamento das fronteiras começam a se sentir abandonados pelos políticos opositores ao ditador Nicolás Maduro. Ao longo de semanas, eles foram convencidos por deputados de seu país a participar de um “tsunami” humano, que seria capaz de convencer os soldados da Força Armada Nacional Bolivariana a abrir caminho para o comboio carregado com produtos enviados pela Usaid, agência americana para o desenvolvimento internacional. Com a operação frustrada, os líderes desapareceram das ruas da colombiana Cúcuta.

“Estavam aqui no sábado (23), mas não apareceram mais. Estamos aqui por nós mesmos, não nos ofereceram nem comida, nem ajuda, nem nada. Ninguém veio aqui”, conta Roberto Alengrano, um ex-pedreiro de Mérida que hoje trabalha como carregador de malas na Ponte Simón Bolívar, por onde passavam mais de 40.000 venezuelanos todos os dias até o fechamento da fronteira.

Ao lado de centenas de venezuelanos que estão na Colômbia, Roberto continua enfrentando os militares de seu país. Todos os dias, eles montam grupos de combate e, armados com pedras e coquetéis molotov, atacam os soldados. Ora sobre a ponte, ora sob ela e cruzando ilegalmente o Rio Táchira, que separa os dois países. Mais de 300 deles ficaram feridos nesses embates, e cerca de quarenta permanecem internados. Dois deles foram feridos por tiros de munição letal.

“Na Venezuela é sempre assim. Eles são as figuras públicas, nós somos o povo. Sempre estamos na luta, enquanto eles estão dando ordens”, diz Roberto, pai de dois meninos. O mais novo ele não vê há ano e meio, desde que saiu da Venezuela.

Como os mais de 300.000 venezuelanos que atenderam ao chamado do autodeclarado presidente interino do país, Juan Guaidó, para participar do Venezuela Aid Live — concerto organizado pelo bilionário americano Richard Branson no dia 22, na Colômbia — , Roberto não conseguiu se aproximar dos novos líderes políticos. Os deputados, empresários e antigos políticos contrários ao chavismo assistiram aos shows em uma grande área vip na entrada da Ponte de Tienditas, com banheiros e farta distribuição de água.

Ao povo foi reservada uma área de terra batida, com pouca infra-estrutura. Sob um calor de quase 40 graus, desmaios eram frequentes. Os dois grupos foram separados por duas linhas de grades. Entre elas, soldados colombianos montados a cavalo e armados com espadas impediam aventuras. Guaidó chegou ao concerto no final do dia, mas preferiu não subir ao palco para saudar a multidão. Do chão, ao lado dos presidentes da Colômbia, do Chile e do Paraguai, ele tirou selfies. Mas o grupo se manteve rodeado de seguranças e inacessível aos manifestantes.

No dia seguinte, Guaidó optou também por ficar distante do público, que em boa parte dormiu na entrada da Ponte de Tienditas. Os seus apoiadores acreditavam que seguiriam ao lado do novo líder da oposição em uma marcha triunfal até a Venezuela, com as toneladas de carga enviadas pelos Estados Unidos. Foram frustados logo no início da manhã quando soldados colombianos proibiram a entrada de populares ao complexo aduaneiro onde a carga estava armazenada.

Lá, Guaidó, acompanhado dos presidente da Colômbia, do Chile e do Paraguai, além do secretário-geral da OEA, fez um pronunciamento prometendo, mais uma vez, que a carga entraria na Venezuela de qualquer maneira. Após a fala de poucos minutos, subiu em um caminhão que ameaçou cruzar a ponte. Posou para fotos e, em seguida, isolou-se em um edifício do complexo. Só saiu de lá quase 10 horas depois para dizer que Maduro cometera um crime de lesa pátria.

A população, que aguardava a oportunidade de caminhar ao lado de seus líderes na esperança de derrubar Maduro, se cansou após passar quase seis horas sob o sol, sustentada apenas por biscoitos enviados pelos americanos. Os manifestantes seguiram para a Ponte Simón Bolívar e tentaram enfrentar os soldados com pedras e paus. Foram derrotados pelo gás lacrimogêneo, pelas balas de borracha e pela lealdade dos soldados bolivarianos.


Na travessia ilegal, a assessora que ficou para trás

Nem só cidadãos que vivem à margem da indigência nas ruas de Cúcuta e em cidades venezuelanas, como Roberto e seus amigos, foram abandonados pelos deputados da Assembleia Nacional, o último resquício de oposição a Maduro na Venezuela. Zulma Lopes, uma jornalista de San Cristóbal, cidade a poucos quilômetros da fronteira, foi para a Colômbia na semana passada para trabalhar como assessora voluntária dos congressistas. Passou dias conectando jornalistas a fontes, organizando entrevistas e distribuindo comunicados. No domingo 24, quando as fronteiras estavam fechadas, se viu sozinha com três amigas na cidade colombiana.

“Não sei o que fazer, todos se foram. Alguns para Bogotá, outros para Miami, e nós ficamos aqui.”

Na terça-feira 26, Zulma, que permanecia na cidade com as diárias do hotel pagas por deputados e empresários venezuelanos, foi checar uma das “trochas” — as passagens irregulares usadas por centenas de venezuelanos para cruzar a fronteira. Caminhou pelas trilhas, observou o rio e as pedras e perguntou aos que iam e aos que vinham sobre os riscos envolvidos na operação.

“Eu sei que é perigoso, que os colectivos (milícias criadas pelo ex-presidente Hugo Chávez) estão ali do outro lado revistando a todos”, conta ela, à beira do Rio Táchira. “Mas não aguento mais, preciso ir embora, já estou ficando sem dinheiro.”


Brincando de guerra

Ricardi Rodriguez, 19 anos, se juntou ao grupo de jovens que tentaram forçar a passagem de toneladas de mantimentos enviados pelos Estados Unidos. Vive nas ruas de Cúcuta com outros 300 rapazes venezuelanos (Yan Boechat/VEJA)

Ricardi Rodriguez, de apenas 19 anos, não tem a mesma sorte de Zulma. Desde a sexta-feira 22 ele dorme na rua junto com um grupo de 300 a 400 rapazes que se autointitula “Resistência da Fronteira”. Passam o dia produzindo coquetéis molotov e criando estratégias mirabolantes para atacar os soldados da Guarda Nacional Bolivariana. Uma ou duas vezes ao dia, eles fazem investidas contra os soldados leais a Maduro com pedras, paus e suas bombas incendiárias. Recebem a ajuda de voluntários colombianos, sensibilizados pela disposição dos jovens em enfrentar o regime de Nicolás Maduro.

“Eles são uma população vulnerável e não têm apoio de ninguém, por isso organizamos um grupo de voluntários para os auxiliar com alguma coisa”, conta Alejandra Ortega, uma enfermeira que passa as tardes livres distribuindo remédios e fazendo curativos nos feridos.

Após receber um comprimido de ibuprofeno das mãos de Alejandra, Ricardi trata de explicar o que o move e a seus colegas. “Seguimos lutando para libertar nosso país, não nos importamos com os políticos, estamos aqui para buscar a liberdade e vamos conseguir”, diz ele, que está na Colômbia há algumas semanas.

Ao seu lado, Michel, quase tão jovem quanto ele e que prefere não dizer o nome completo, diz que, apesar de não contarem com a ajuda da oposição organizada da Venezuela, eles continuam a acreditar que Juan Guaidó é a melhor saída para o país. Michel vive em Cúcuta há oito meses e nunca mais voltou a Puerto Ordaz, no estado de Bolívar, 700 quilômetros distante da fronteira brasileira. Faz de tudo um pouco para sobreviver e enviar algum dinheiro para família.

“Não se pode mais viver na Venezuela. Não há comida, não há remédio. Eu sai de casa e deixei meu filho e minha esposa para vir aqui trabalhar para conseguir mandar algo para eles comerem”.

Sua história é comum. Como quase todos que compõem a Resistência da Fronteira, Michel nasceu e cresceu sob o chavismo. Beneficiou-se enormemente das políticas de distribuição de renda do ex-presidente venezuelano. Mas, agora, sem a fartura dos tempos em que o barril de petróleo cruzava sem cerimônia a casa dos 100 dólares, todas as conquistas se foram. “Chávez fez coisas boas, mas errou muito ao escolher Maduro. Esse só quer roubar o dinheiro para ele e sua família”, conta ele, certo de que ,se o carismático ex-presidente seguisse vivo, as coisas seriam diferentes.

Michel, Ricardi e Roberto agora espalham-se pelas ruas de Cúcuta aguardando a chegada da cavalaria. Sabem que os paus, pedras e os coquetéis Molotov não irão derrubar nem o cerco da Guarda Bolivariana nas pontes que unem a Venezuela à Colômbia e nem o governo de Nicolás Maduro. “Queremos a intervenção, que façam com Maduro o que fizeram no Panamá”, diz Michel, em referência à invasão americana ao país da América Central em 1989 para derrubar o então ditador Manuel Noriega. Com a decisão do Grupo de Lima de não intervir militarmente na Venezuela, é provável que logo comecem a se questionar se, uma vez mais, as promessas da elite política opositora venezuelana não são apenas mais uma bala de festim.

Coquetéis molotov prontos para serem atirados contra os soldados da Guarda nacional Bolivariana na fronteira (Yan Boechat/VEJA)

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