Ucranianos seguem a combater e a morrer na última guerra esquecida da Europa

A menos de 200 km de onde o Brasil estreou na Copa do Mundo , soldados ucranianos e rebeldes apoiados por Moscou se enfrentam diariamente em um conflito invisível para o mundo

Soldado da República Popular de Donetsk observa movimentação do exército ucraniano, distante apenas 400 metros de sua trincheira
Textos e fotos Yan Boechat, de Donetsk

Sasha acendeu o cigarro sem prazer. Deu um trago longo, daqueles que se dá pra ter certeza de que a brasa ganhou vida própria. Quando teve certeza de que o tabaco queimava, espetou o cigarro de filtro amarelo na terra fofa da sepultura. “São meus homens, gostavam de fumar e beber”, me contava ele, no final de uma rara tarde chuvosa às vésperas da chegada do verão aqui no Leste da Ucrânia. A seu convite, passávamos em revista as covas de soldados mortos recentemente em batalha. “Esses todos aí eram meus comandados, minha família”, me contava, visivelmente emocionado.

Sasha trazia uma garrafa de vodka, dois terços seca. A cada história de um soldado morto, uma dose. Para os dois. Sasha ficava com a maior parte, mas jamais deixou de despejar um ou dois dedos para os colegas enterrados neste deprimente cemitério na periferia de Donetsk. “Essa guerra não acaba nunca, todo dia alguém está morrendo”, me dizia, olhos vermelhos pelo choro contido e pela vodka. “Eu não aguento mais, essa guerra entrou na minha cabeça, e não sai”, dizia ele, enquanto um dos soldados que o acompanhava tenta consolar o chefe com uma mão sobre o ombro, talvez o mais profundo gesto de carinho permitido a um militar nessa parte do mundo.

Estamos a pouco menos de 200 quilômetros de Rostov, uma das sedes da Copa da Rússia e palco do primeiro jogo do Brasil neste mundial. Estamos, também, a poucas centenas de metros das trincheiras. Ali, soldados rebeldes separatistas apoiados pela Rússia continuam a lutar contra o exército ucraniano nesta que é a última guerra da Europa. Já são quatro anos de batalhas, com mais de 10 mil pessoas mortas e nenhuma perspectiva de solução para um conflito que parece ter sido simplesmente esquecido pelo mundo. O sol caía, e os disparos das metralhadoras e dos fuzis se intensificava. Logo, o som dos morteiros chegaram e Sasha, ainda que bêbado, decide que já não é mais seguro ficar por ali. “Meu pelotão está aqui bem perto, acho que é melhor sairmos, é durante a noite que as coisas realmente acontecem”

Cova simples de um combatente rebelde, morto em batalha contra o Exército Ucraniano

Sasha faz parte de um contigente de cerca de 100 mil homens que estão combatendo no Leste da Ucrânia desde abril de 2014, quando rebeldes das províncias de Donetsk e Lugansk, na fronteira com a Rússia, decidiram declarar independência de Kiev. É uma guerra esquizofrênica, em que nenhum lado avança, mas que nunca param de disparar uns contra os outros. Uma espécie de eterna provocação, em que centenas de vidas são perdidas a cada ano e outras centenas de milhares são afetadas permanentemente. Desde que um cessar fogo foi declarado em fevereiro de 2015, não há ganhos de território. As duas forças estão entrincheiradas em uma linha imaginária que corta o Leste do país de Norte a Sul por quase 500 quilômetros.

Além das milhares de mortes, a Guerra na Ucrânia deixou um saldo de 1,5 milhão de refugiados e hoje cerca de 3,5 milhões de pessoas necessitam de ajuda externa para continuar vivendo. A economia praticamente entrou em colapso. Sem ter para onde ir, cerca de 600 mil pessoas, boa parte delas idosas, vivem num raio de até 15 quilômetros das áreas de combate. É a maior crise humanitária da Europa.

A história e a narrativa desse conflito têm raízes profundas na história ucraniana e é resultado dos interesses geopolíticos de duas das maiores potências globais: Estados Unidos e Rússia. Se alimenta ainda hoje de feridas nunca cicatrizadas entre as populações do Leste e do Oeste da Ucrânia. A parte oriental ucraniana é majoritariamente russa, tanto etnicamente quanto culturalmente. No extremo Oeste, próximo às fronteiras com a Polônia, a República Tcheca e a Eslováquia, quase ninguém se considera russo e o ucraniano é a língua majoritária. Esses dois grupos, com visões de mundo bastante distintas, entraram em choque no outono de 2013.

Sob pressão do Oeste e da parte mais liberal da sociedade, a Ucrânia iniciou um processo de aproximação com a União Europeia, com vistas a se tornar um país membro do bloco num futuro próximo e se integrar à OTAN. O movimento acendeu o sinal de alerta na Rússia, que vê a Ucrânia como aliado estratégico e país fundamental em sua esfera de influência. Sob pressão de Moscou, o então presidente ucraniano Víktor Yanukóvytch suspendeu as negociações de integração com a Europa no final de 2013.

Soldados ucraniano trocam tiros com rebeldes separatistas na província de Donetsk

Kiev entrou em chamas. Protestos violentos se estenderam por quase todo o inverno, até que em fevereiro de 2014, após as forças oficiais matarem mais de 70 pessoas em um só dia, Yanukovich caiu. Forças políticas ligadas ao Oeste do país assumiram o poder. A Rússia reagiu. Primeiro, anexou a Crimeia com os famosos homens verdes. Depois, incitou e incentivou as províncias de Lugansk e Donetsk a se rebelarem contra o poder central de Kiev, tendo como justificativa as lembranças de um dos momentos mais controversos da história ucraniana recente.

Na Segunda Guerra mundial, ucranianos do Oeste, oprimidos pela mão de ferro do império Soviético, aliaram-se a Hitler para se libertar do jugo russo. Lutaram lado a lado com os alemães contra o exército vermelho. Hoje, mais de 70 anos depois do fim da Segunda Guerra, os ódios e paixões que alimentam este conflito ainda é a mesma de quando Soviéticos e Alemães dizimaram 15 milhões de seus próprios cidadãos nestas vastas e belas planícies do Leste Europeu.

Soldado rebelde descansa em alojamento de uma das trincheiras

O tenente-coronel Valeriy Gudz tem uma bandeira do movimento nacionalista ucraniano, o mesmo que se uniu às forças alemãs nos anos 40, sobre sua mesa no quartel general da 24 Brigada do Exército Ucraniano. Ele, no entanto, rejeita qualquer ligação com a ideologia alemã. ”Nosso modelo são os Estados Unidos, nos espelhamos neles, queremos ser como eles”, me diz. Não longe dali, na pequena cidade de Adviivka, Oleg, o comandante de um batalhão do exército ucraniano, me conta a mesma coisa. E faz questão de me levar em uma posição de combate a menos de 100 metros das forças rebeldes. Ali ele mandou levantar uma bandeira americana. “Os russos ficam loucos”, diz, entre risadas. Nas trincheiras, distante dos olhos dos comandantes, não é raro, no entanto, encontrar suásticas ou símbolos da SS pichados.

No outro lado, soldados rebeldes gostam de ostentar a bandeira da União da Soviética, fotos do ex-ditador Josef Stalin e, mais raramente, algum busto de Lenin. Em uma posição de combate do lado rebelde, Konstantin Kuzmin, comandante de um batalhão das forças da República Popular de Donetsk, tem certeza que repete, agora, o destino de seu avô, morto lutando pelo exército vermelho aqui mesmo no Leste da Ucrânia. “Estamos lutando a mesma guerra, protegendo nosso povo do fascismo e do nazismo”, me conta ele, em uma trincheira que lembra os antigos filmes e fotos da Primeira Guerra Mundial.

O jovem Misha joga em um celular, alheio aos tiroteiros e aos ataques com artilharia a poucos metros de seu apartamento

Sasha, o comandante deprimido que encontrei em um cemitério na periferia de Donetsk, já não sabe ao certo porque luta. Sua família esta no que hoje é Ucrânia. Não os vê há quatro anos. Mas fala sempre com eles. Quando a internet está boa, conversam por Skype. Tem saudade da mãe e dos irmãos, mas não sabe quando voltará a vê-los. Na cozinha de sua casa sua mulher nos prepara um chá. O tiroteio recomeça. Misha, seu filho do primeiro casamento, joga em um celular. Uma, duas, três bombas caem não muito distante de onde estamos. O menino, como todos por aqui, está acostumado. Nada abala sua concentração no jogo. Só quando um estrondo maior é ouvido, Tatyana manda o menino para o quarto. “Não fique perto das janelas, você sabe o que pode acontecer”. O som cessa. Sasha sorri um sorriso meio triste, meio nervoso. “Toda noite é assim. Essa guerra entrou na nossa cabeça. E acho que nunca mais vai sair”.