Usados como escudos humanos, civis são as maiores vítimas na guerra contra o ISIS

Forças iraquianas atribuem dificuldade em avançar nos combates contra o Estado Islâmico por conta da alta densidade populacional nesta que é a segunda maior cidade do Iraque

Texto e fotos: Yan Boechat, de Mossul, Iraque

Reportagem originalmente publicada na Folha de São Paulo em 18/12/2016

O grupo de Humvees das Forças Especiais Iraquianas para na entrada de Mossul para receber instruções e os soldados aproveitaram para sair dos blindados.

Querem fumar e se aquecer no sol forte desta manhã fria do final de outono.

O som das metralhadoras .50 disparando incessantemente indica que aquela é uma manhã de intensa batalha nos bairros periféricos de Mossul. Mas ali, em uma área que o Exército iraquiano garante ter controlado há mais de duas semanas, todos estão tranquilos.

Só quando o som das balas zunindo poucos metros acima de nossa cabeças se torna constante é que os soldados procuram proteção atrás dos Humvees.

“Snipers estão aqui”, diz um deles. E então vem o barulho, alto e rápido, como se um jato estivesse passando a poucos metros do solo. Em seguida, a explosão. Uma coluna de poeira e fumaça sobe a cerca de 30 metros do início do grupo de blindados. Quando ela se dissipa, um soldado está caído, inconsciente, talvez morto.

Em meio à surpresa de um ataque com morteiros naquela área teoricamente segura, os atiradores ampliam o fogo. O pelotão decide recuar.

A poucas centenas de metros dali, um soldado iraquiano grita desesperado. “Eu sou um homem bom, não me deixem morrer”, diz ele aos paramédicos que tentam estancar o sangue de sua coxa direita.

Mais da metade dela se foi, arrancada pelos estilhaços de um carro-bomba que explodira não muito longe deste hospital de campo montado em uma casa abandonada na periferia de Mossul.

Dali é possível ver a coluna de fumaça onde o ataque ocorreu. Ele tem ferimentos nas nádegas, nas costas e também na perna esquerda. Um grupo de oito médicos, enfermeiros e técnicos tenta estabilizá-lo para que possa ser transportado para um hospital em Erbil, distante 80 quilômetros daqui.

O homem berra em desespero, mas lentamente seus gritos vão ficando mais fracos. Até que eles cessam. O soldado está morto. Um dos seus colegas que o trouxe para o hospital diz para si mesmo, quase resignado: “esses covardes, eles não lutam, eles só usam esses carros-bomba”.

Prestes a completar dois meses, a batalha por Mossul corre a passos muito mais lentos que aqueles imaginados pelas forças iraquianas e seus principais conselheiros, os Estados Unidos.

Até agora apenas poucos bairros da região leste desta que é a segunda maior cidade do Iraque foram tomados do Estado Islâmico. E quase nenhum deles está realmente livre dos combatentes extremistas.

O EI tem oferecido uma resistência que parecia improvável para os mais pessimistas generais iraquianos. Aproveitando-se de uma vasta rede de túneis e áreas densamente povoadas, os combatentes reaparecem com frequência em áreas que estão oficialmente “liberadas” para realizar ataques surpresas com “snipers” ou combatentes suicidas.

O uso massivo de carros-bomba é outra estratégia que tem retardado o avanço das forças iraquianas.

A reportagem da Folha presenciou ataques de atiradores de elite em pelo menos três desses bairros teoricamente seguros. Ao mesmo tempo, morteiros disparados de posições não muito distantes dali atingiam as ruas e casas. As forças iraquianas tem feito o mesmo sobre os bairros ainda sob controle da milícia. Quem paga o maior preço por essa tática são os milhões de civis que permanecem na cidade.

No discurso oficial de Bagdá são os civis os maiores responsáveis pelo avanço lento das tropas. “Os civis são o nosso maior desafio até agora e isso tem nos feito avançar mais lentamente”, diz o general de brigada das Forças Especiais Iraquianas, Abdul-Wahab al-Saadi, do alto da varanda de uma casa abandonada que ele fez de seu quartel-general no bairro de Al-Samah.

Posicionado em uma pequena colina, dali é possível ver quase toda a parte leste da cidade. Al-Saadi diz que com tantos civis é impossível utilizar armamento pesado e mais eficaz contra os militantes do Estado Islâmico, como tanques, artilharia ou ataques aéreos.

“Quando avançamos, conseguimos conquistar de 100 metros a 300 metros por dia”, diz ele. “Poderíamos ir mais rápido, mas precisamos proteger os civis.”

Nos últimos dias, no entanto, o número de ataques aéreos cresceu em Mossul, assim como informações de que helicópteros americanos passaram a apoiar os iraquianos disparando contra posições do Estado Islâmico.

Desde o último sábado (10) o governo iraquiano proibiu a presença de jornalistas estrangeiros em Mossul.

A preocupação do general é muito mais política do que humanitária. Mossul é o principal centro sunita deste país de ampla maioria xiita. Desde a invasão americana, em 2003, as tensões sectárias se ampliaram de maneira permanente e contínua até se transformar em uma guerra civil entre as duas principais correntes do islamismo.

Mossul sempre foi o bastião sunita no Iraque e teve participação fundamental tanto na chegada ao poder de Saddam Hussein quanto na resistência ao domínio americano após sua queda.

A cidade também foi um dos principais enclaves da Al Qaeda no Iraque e, não sem razão, o líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, declarou a criação do califado aqui.

Muito do apoio que o EI recebeu dos mossulis quando invadiu a cidade em 2014 veio exatamente do ressentimento dos sunitas com o governo do xiita Nouri al-Maliki.

Com o apoio dos americanos, Al-Maliki ampliou as tensões sectárias que culminaram no levante sunita que, em última instância, serviram de base para o surgimento do Estado Islâmico.

Por isso, neste momento, o governo iraquiano tem feito de tudo para reduzir as tensões sectárias em Mossul.

Como boa parte dos soldados das Forças Armadas é xiita, uma intensa campanha de propaganda tem sido feita para tranquilizar os cidadãos da cidade.

Humvees instalados com alto-falantes passam pelas ruas de Mossul pedindo apoio aos moradores. Um capitão, de microfone em punho, repete incessantemente: “Não tenham medo, eu sou xiita, mas estamos aqui para ajudá-los, somos todos irmãos muçulmanos”.

Os esforços de uma tomada da cidade sem tensões sectárias, no entanto, encontram resistência entre os próprios militares.

É comum ver tanques e veículos blindados carregando bandeiras de mártires xiitas pelas ruas de Mossul, uma clara provocação à população sunita da cidade.

Muros e fachadas estão sendo pichados com slogans enaltecendo o imã Hussein, uma das figuras centrais do xiitismo. Apesar das poucas reclamações, a Anistia Internacional tem pedido investigações sobre denúncias de que forças iraquianas estariam cometendo execuções e torturando civis nos vilarejos no entorno da cidade.

Para tentar reforçar a ideia de que as tropas são profissionais o bastante e evitar um temido caos humanitário, o Exército iraquiano tem feito de tudo para que a população civil não abandone suas casas.

Mossul está cheia de gente. Até agora pouco mais de 80 mil pessoas fugiram para os campos de refugiados, um número bem menor que o estimado pela ONU no início da ofensiva.

Crianças correm pelas ruas sujas, onde é possível vez ou outra encontrar corpos de civis mortos por “snipers” do Estado Islâmico ou de combatentes extremistas. Eles se misturam ao lixo que deixou de ser recolhido desde o início da operação.

O som dos constantes tiros de metralhadora já não assusta mais quem decidiu ficar. As pessoas só fogem para suas casas quando algum morteiro cai nas proximidades. Mas o temor dura pouco, e logo estão de volta às ruas.

A maioria delas prefere seguir os conselhos dos soldados iraquianos do que se arriscar a caminhar por ruas abertas até chegar ao ponto de recolhimento de refugiados, na periferia da cidade.

E com tantas informações desencontradas, muitos moradores acreditam estar mais seguros em meio à batalha do que nos campos de refugiados.

Salah Salah tem 56 anos e decidiu ficar em sua casa, no bairro de Aden, uma das atuais linhas de frente. Ele mora na última rua controlada pelo Exército iraquiano e os combatentes do Estado Islâmico estão apenas a 200 metros de onde ele mora.

“Eu estoquei comida e água, achei que os combates aqui iam durar mais. Foi apenas um dia de batalha intensa e agora temos medo apenas dos ‘snipers’ e dos morteiros”, diz ele.

Salah diz que não vai sair de casa. Teme perder todos os seus pertences e acredita que a vida no campo de refugiados pode ser mais difícil do que em Mossul. “Me disseram que lá há pouca comida e água, melhor nos arriscarmos aqui do que lá.”

A rua em que Salah vive está bem preservada. Há pouca destruição nessa parte de Aden. Os combates não foram tão intensos como em outras regiões. Alguns bairros, no entanto, estão completamente destruídos.

Casas, edifícios, prédios públicos, tudo se tornou um amontoado de escombros. Em várias ruas há destroços de carros-bomba por todos os lados. Eles são o maior temor dos soldados iraquianos. Qualquer veículo pode ser uma arma mortal.

“Quando você vê eles vindo em sua direção você entende que eles não estão simplesmente dispostos a morrer, eles querem morrer, é o objetivo deles”, diz um soldado que perdeu o irmão em um ataque com um carro-bomba há alguns dias. “Eles são loucos.”

Para o general de brigada Fazil Barwari, um dos comandantes mais experientes da chamada Divisão de Ouro das Forças Especiais Iraquianas, o volume extraordinário de carros-bomba muda toda a lógica desta guerra.

“Nós enfrentamos alguns carros-bomba em Ramadi, por exemplo, mas nada como o que estamos vendo aqui”, diz ele. Barwari diz que suas tropas já foram atacadas mais de 180 vezes por carros-bomba desde que entraram em Mossul.

Desde o início da operação, o Exército iraquiano já contabilizou o uso de mais de 650 carros-bomba em todas as frentes de batalha. O general de origem curda, no entanto, vê a estratégia do Estado Islâmico como sinal de fraqueza. “Em Ramadi nós lutamos uma guerra aberta, não como agora. Eles não têm força para lutar”, diz.

Fraco ou não, o fato é que o Estado Islâmico tem conseguido frear o avanço dos iraquianos. Barwari foi um dos comandantes que previu tomar Mossul em dois meses. Passados 45 dias, suas tropas ainda estão distantes cinco quilômetros do rio Tigre e da parte ocidental da cidade, onde, acredita-se, os militantes do EI estão concentrando suas tropas e seus recursos para uma longa batalha.

Lá as ruas são mais estreitas, os prédios mais altos e o número de soldados ainda maior do que na parte leste da cidade.

Até agora é impossível saber se os soldados iraquianos estão avançando lentamente por precaução ou por conta do número de baixas que têm enfrentado.

O governo iraquiano não divulga o número de vítimas militares e o número de baixas civis é incerto. O Exército, no entanto, afirma que já matou 2.000 militantes do Estado Islâmico. Alguns corpos desses soldados ainda estão espalhados pela cidade, dentro das casas ou em pequenos becos.

No hospital de campo é possível ter uma pequena ideia da brutalidade desta guerra. Soldados feridos chegam a todo tempo ali. Alguns, já mortos. O número de civis é ainda maior.

Sem eletricidade e água e com um inverno rigoroso se aproximando, a batalha de Mossul começa agora a ganhar contornos de catástrofe humanitária.

Sem combustível para se aquecer em noites que a temperatura constantemente cai abaixo de zero, a população da cidade começa a pagar um novo preço por essa guerra.

O número de crianças com doenças respiratórias e ligadas ao frio tem crescido permanentemente. No hospital de campo de Al Samah já não há mais remédios para essas enfermidades. Sem condições de garantir a segurança das agências humanitárias nos bairros mais próximos do front, a distribuição de alimentos, remédios e água potável tem sido escassa e caótica.

Com apenas um quarto desta cidade com quase 200 quilômetros quadrados conquistado de forma ainda irregular, é incerto apostar em uma data para o fim desta guerra.

O general Stephen Townsend, comandante da coalizão liderada pelos Estados Unidos, afirmou em uma entrevista à Reuters que serão precisos ao menos dois meses para retomar Mossul.

É uma previsão otimista, principalmente para quem está no campo de batalha. O general iraquiano Barwari, que no início da campanha havia dito que em no máximo 60 dias Mossul estaria livre do Estado Islâmico, já não quer mais fazer previsões. “Não quero mais falar sobre prazos, mas posso garantir que vamos acabar com eles”, diz, seguindo a receita do otimismo absoluto, tão comum nas Forças Armadas iraquianas.

A única certeza é que até o fim dessa batalha muitos do 1,5 milhão de pessoas que se acredita estarem em Mossul perderão suas vidas.


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