Revisão, e por que não?

Este é aquele típico assunto polêmico onde nunca ocorrem consensos. Alguns alegam que as assistências são movidas apenas por esforços pecuniários e que, deixam à parte as necessidades legítimas da manutenção, priorizando (na maior parte) a cobrança de altos valores. Outros acreditam que, em se tratando de peças caras e renomadas, devem funcionar rigorosamente sem qualquer cuidado adicional. Por conta dessa cultura um pouco polarizada, somos direcionados por esses enganos e deixamos nossas peças à margem da degradação, por ressecamentos ou problemas com estanquidade.


Polêmicas à parte, vou focar em medidas que foram pacificadas — por vários especialistas e fabricantes. São instruções e recomendações que visam proteger o nosso estimado bem. Sentem-se pois, por mais que eu pretenda ser lacônico, é pouco provável que eu consiga exprimir tantas informações em poucas palavras.


Pesquisei em vários manuais de uso e a Omega, Breitling, Heuer e outras, estão todas alinhadas nas mesmas recomendações que consideram o seguinte:

“Como qualquer outro instrumento de precisão, um relógio deve ser revisto com regularidade para garantir o seu bom funcionamento. Obviamente não é possível precisar com exatidão os intervalos adequados para a revisão pois dependem do modelo, do clima e do cuidado prestado ao relógio pelo seu proprietário. Regra geral, estes intervalos de revisão variam entre 4 e 5 anos, em função do uso dado ao relógio.” Fonte: Omega.

A Moebius (a mais tradicional manufatura de lubrificantes) estipula validade de seis (6) anos para a maioria dos lubrificantes que produz. Percebemos então, uma certa consonância com as recomendações das relojoarias. É bastante difundido que em modelos à quartzo, sobretudo os suíços, essa manutenção estaria passível de dilações por conta de sua mecânica leve, o que é outro engano. Os lubrificantes, assim como em automóveis, cumprem funções vitais ao mecanismo e são perecíveis, portanto, não nos convém negligenciá-los. Há fatores variáveis que podem acelerar o desgaste dos componentes de um relógio. Dentre eles, como supracitado, o mais óbvio consiste nas condições de uso. A seguir, vou elencar alguns dos principais:

Temperatura: o funcionamento estável atua numa gama de temperaturas entre 5° e 35°C. Acima ou abaixo desses valores o funcionamento pode ser comprometido. Vale lembrar que a temperatura média no pulso varia de 33° a 35°C e que estamos em um país tropical, logo, aquele passeio com sol a pino na praia, pode facilmente progredir esses valores afetando a marcha do relógio e seu isocronismo. Temperaturas elevadas promovem o aumento da resistência mecânica, exercendo em médio e longo prazo, influência considerável na vida útil dos lubrificantes. Em casos extremos, podem ocorrer transbordo dos lubrificantes mais finos e também estourar baterias em modelos à quartzo. A Moebius garante aos óleos finos elevações de até 70°C. Portanto, é possível concluir que o prejuízo é mais pela reação mecânica que a temperatura em si mesma.

Impacto: a maioria dos fabricantes recomenda que você remova o relógio antes de participar de atividades que envolvam fortes impactos. Um recuo de uma arma de fogo pode ser suficiente para deslocar componentes de um relógio. Vibrações intensas, como as de uma bicicleta em solo irregular ou uma tacada de golfe podem desalojar algumas peças e ter efeitos bem negativos. Os grandes fabricantes investem em medidas, tanto quanto possível, para tentar coibir as reações dos impactos, mas isso não é inteiramente eficaz. Os movimentos possuem fraquezas inerentes que ainda não foram superadas. A Rolex alega executar testes rigorosos:

“equipamento exclusivo de teste de resistência a choques que submete o relógio a um impacto equivalente a 5 mil G — centenas de vezes maior que o crash test dos automóveis. Ainda assim, ao final, o relógio deve permanecer intacto e totalmente funcional a fim de atender aos mais altos padrões estéticos e de precisão.” Fonte: Rolex.

Mesmo assim, não é difícil encontrar um Rolex danificado na oficina por conta de uma queda qualquer.

Magnetismo: o relógio pode ser afetado de modo significativo por exposição prolongada a um campo magnético. Mesmo em relógios projetados com medidas antimagnéticas, é importante mantê-los longe desses campos. O magnetismo pode causar atrasos ou adiantamentos. Há uma grande variedade de itens que podem causar problemas magnéticos, como: celulares, fones de ouvido, alto-falantes, colchões magnéticos, secadores de cabelo, micro-ondas etc. O relógio tende a permanecer magnetizado mesmo após ter sido removido da área onde a exposição surgiu. Nesses casos, é necessário tratá-lo com equipamento específico encontrado em qualquer assistência, salvo em modelos à quartzo, onde o funcionamento normal retornará afastando-o do campo magnético.

Estanquidade: talvez a maior fonte de problemas. Muitos confundem resistência à água com à prova d’água (waterproof). Antecipam-se em mergulhos ou banhos ao ler em seus mostradores “30 M” e vão longe nesse equívoco. Na verdade, “30 M / 3 ATM” trata da pressão atmosférica da peça em relação a água. Trocando em miúdos, seria:

Observem que, em 3 ATM são suportados apenas chuviscos e respingos da profilaxia das mãos; o gráfico é bastante claro. É recomendado a avaliação anual da estanquidade e sempre antes de mergulhos. A maioria dos profissionais dispõe de equipamentos apropriados para testes dessa natureza. Via de regra, essa assistência é gratuita. É comum encontrar nas oficinas peças que sofreram pequenos impactos (que não foram percebidos pelos usuários) e, por exemplo, um deles promoveu empeno na coroa ou uma minúscula fissura no cristal e foi suficiente para comprometer a vedação. Às vezes essa infiltração é sutil e pode levar tempo para ser detectada e, no pior dos casos, será tarde demais. Outro vilão-mor é o indispensável chuveiro elétrico. A água quente unida a alcalinidade do sabonete ou cloro, pode danificar o sistema de vedação. Parafraseando um mestre relojoeiro: “por que você tira roupas e sapatos para o banho e não tira o relógio?!”. Pense nisso. Enfim, há vários outros fatores , como a exposição a solventes tipo álcool na pulverização de cosméticos, mas não vamos entrar no mérito.


Como identificar o momento apropriado para revisar?

Tirando essas questões patentes, há ferramentas no mercado com condições de avaliar o funcionamento do mecanismo, como o Timegrapher. Basicamente, um aparelho que vai ouvir o seu relógio e transmitir essa audição através de gráficos. Esse diagnóstico foi indispensável nos momentos em que eu quis ter segurança quanto ao funcionamento ou um diagnóstico técnico.

Observem a amplitude de 256

Não vou entrar nas minúcias do seu funcionamento. Visando facilitar o entendimento, frisarei apenas informações básicas destinadas a identificação dos possíveis problemas. Fiquem atentos especificamente na amplitude, este é o fator chave. A indústria considera os seguintes valores como sinais de bom funcionamento:

Mecanismo padrão:

Entre -5 e +15 / Segundos por dia.

Entre 250° e 330° de amplitude horizontal.

Entre 250° e 270° de amplitude vertical.

Cronômetro:

Entre -2 to +6 / Segundos por dia.

Entre 250° to 330° de amplitude horizontal.

Entre 250° to 270° de amplitude vertical (menor por conta do maior atrito).

Cronógrafo:

Entre -5 to +15 / Segundos por dia.

Entre 250° to 330° de amplitude horizontal.

Entre 250° to 270° de amplitude vertical (menor por conta do maior atrito).

O relógio pode apresentar variações maiores ou menores que -5 ou +15 segundos por dia. Tudo bem, necessariamente não é um problema e pode sofrer ajuste imediato. No entanto, os valores da amplitude — via de regra, não devem ser inferiores aos de 250° ou superiores aos 330°. É simples, leve o relógio em uma assistência especializada para aferição e peça para acompanhar o laudo do timegrapher, se os valores destoarem destes é de fato necessário uma avaliação mais aprofundada, pois algo não vai bem. Desta forma, é possível acompanhar a conduta do técnico e evitar equívocos.

Deixo uma imagem para estimular a reflexão:

Dezesseis (16) anos sem cuidados.

Podemos concluir, após toda essa dissertação, que a visita periódica a um profissional capacitado é necessária e nem sempre trará custos. Qualquer peça está sujeita a todas essas variáveis, que são normais ao uso. Utilize-os à vontade, apenas observando e tratando essas questões. Com um pouco de sorte, durarão toda uma vida. Ressalto novamente a importância de um profissional qualificado, pois a imperícia pode negligenciar fatores importantes de uma revisão que, apesar do esforço e investimento pouco adiantará.

Yang ::

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