O TEMERoso complexo de vira lata brasileiro

“Parece que estamos sempre deixando a vida para depois porque estamos ocupados demais sobrevivendo. E somos gratos por essa exploração. Que comédia!”
Imagem retirada do google
Primeiramente, “Fora Temer!”

Segundamente, 12 horas de trabalho por dia? Fim do FGTS? Não obrigatoriedade do 13º e fim das férias? Tempos difíceis esses nossos. Presidenta é condenada por crime que não existiu. E, pior, por meio de provas menos existentes ainda. Me pergunto onde enfiaram a eficácia dos trechos penais que afirmam não haver crime sem lei que assim o defina nem, tampouco, condenação sem prova.

Ah, não dá para deixar de fora também a piada de péssimo gosto por parte do novo senhor presidente junto aos senhores parlamentares. Quer dizer então que, “pela família, pela democracia, pelo povo brasileiro”, pedalada fiscal é crime, mas com a senhora Presidenta fora do Palácio da Alvorava, não é mais, não é mesmo? Alguém, por favor, me informa onde se concentra o bate com lata porque até o momento não há relatos de panelas batendo. E é isso que me entristece.

A impressão que tenho é que o brasileiro vive num complexo de cachorro vira-lata. Na menor oferta de dignidade, ou algo que se assemelhe a isso, no que concerne às condições de trabalho, ele já acha que se trata de privilégio. Coitado! Está tão acostumado com a usurpação de direitos e de identidade que se perdeu numa sociedade cruel e capitalista — isso definitivamente soa redundante — que o induz a acreditar no trabalho explorador como pilar da economia. E diariamente somos educados para nos sentirmos em falta, culpados por não querer trabalhar tanto. Como se o desejo pela observância da dignidade da pessoa humana nas relações de trabalho denotasse preguiça. Como se querer ter vida além do trabalho fosse pecado. Como se não querer trabalhar 10–12 horas por dia fosse definitivamente sinônimo de vadiagem.

Viver nesse modelo econômico é como ter uma dívida que não pode ser paga. Aceitamos migalhas para pagar contas de água, energia, alimentação etc, mas a conta maior, que é aquela que nos cobra o que estamos fazendo com nossas vidas, essa a gente nunca paga. Parece que estamos sempre deixando a vida para depois porque estamos ocupados demais sobrevivendo. E somos gratos por essa exploração. Que comédia! Nos iludimos achando que estamos ganhando um pão, quando na verdade estamos perdendo vinte, trinta, quarenta e, acima de tudo, o nosso direito de viver.

Mas essa relação não é nova. Muito me lembra as relações entre servos e senhores feudais. E se pararmos para analisar, é um comportamento que existe desde os primórdios, mas ao longo dos anos foi ganhando novas indumentárias, mais adequadas ao contexto histórico vivido. No princípio, com os índios, já se observava tamanha violação humana e social. Com os negros — acho que dispensa comentários. Nota-se um padrão, um grupo explora outro. Dentre aqueles que sofrem a exploração, alguns desenvolvem esse maldito complexo de vira lata e até defendem seus opressores, pois ainda não se deram conta de que não ganharam 20 pães, mas perderam 200. Outros, vivem o devaneio de se tornarem a nova classe A. Pouco sabem que no dia que isso acontecer, existirá também a classe “A plus”. Não compreenderam ainda que nesse sistema funciona a lei da compensação em favor dos mais beneficiados. Não há ascensão de pobre sem que o rico enriqueça ainda mais. Portanto, nessa corrida maluca da economia, Dick Vigarista e Muttley estarão sempre à frente.

A ordem capitalista constrói relações de completo desrespeito e descaso com a fonte de força trabalhista. Há necessidade dessa mão de obra, mas não há, em contrapartida, sua justa retribuição. Esse é o cenário do setor privado, em que o lucro é mais importante do que as pessoas. Muitos criticam o serviço público, especificamente o servidor público, por gozar de direitos que fogem em muito à realidade vivida no setor privado. Mas, pensemos, não é o servidor um privilegiado, mas o empregado privado um explorado. E se tem algo que deva ser mudado, é a forma como este, o empregado, é visto.

Num modelo econômico que trata necessidades básicas como privilégios, é plenamente natural que muitos queiram ingressar no serviço público, quando este oferece condições razoáveis, estupidamente distantes das oferecidas no setor privado. Não vou entrar aqui no mérito da eficiência ou eficácia da máquina pública. Essa não é a intenção. Mas irei entrar, todavia, única e exclusivamente, no mérito da razão pela qual há superestimação do cargo público. Cargo público representa estabilidade, distanciamento do cenário explorador citado mais acima, induz a maiores chances de se ter uma vida saudável, estabilizada e com tempo para ser pai, mãe, filho, filha, namorado, namorada e, prioritariamente, pessoa, ser humano e indivíduo.

Agora, mais uma vez, questiono, onde estão fazendo o bate panela? A CLT sendo rasgada, a Constituição estuprada, a estabilidade no serviço público ameaçada, conquistas trabalhistas alcançadas ao longo de décadas violentamente assediadas. E ainda assim não vejo os paneleiros se manifestarem, não escuto nenhum barulho metálico, sequer um sinal de fumaça. Por favor, não me digam que há satisfação em meio a esse cenário sociopolítico-econômico caótico. Não me permitam perder as esperanças. Ainda quero acreditar que as coisas irão se acertar. Portanto, se decidirem bater panela, me chamem. Uma andorinha só não faz verão. E estar aqui desabafando é o meu jeito de convidar o bando.