Desculpe o transtorno, mas você deveria se bastar sozinho

Se você é daquelas pessoas que gritam aos quatro ventos que não precisa de ninguém, proclama a autossuficiência como meta de vida, enche a boca para se afirmar como suficientemente capaz de viver sozinho e espanta qualquer possibilidade de incluir alguém na sua vida sob a estúpida justificativa de “não querer problema”, temo que tenha perdido a sensibilidade, não seja capaz de empatia e — antes que eu me esqueça — esse texto não é para você.
Imagem retirada do google

Desculpe o transtorno, mas você deveria se bastar sozinho. Não, não se trata de incoerência. Não é de receitas de vida escrotas como as citadas acima ou do discurso de quem vive 24 horas ligado no modo de defesa que estou falando. Afinal, se bastar, nesse contexto, quer dizer não depender de terceiros para deliberar sobre sua própria vida.

Ouvir a opinião do outro é sempre muito bem vindo, mas é preciso ouvir a voz interior que clama por atenção, espaço e vez. A gente acaba por se acostumar a decidir tudo com base em olhares e opiniões alheias, vindos das mais diversas fontes. É aquele amigo que critica demais, a amiga radical, o pai que sempre tem razão, a mãe que só quer o melhor para você. É o seu medo da reprovação berrando intensamente e te roubando a identidade. E quase nunca você ousa desapontar essas pessoas por quem nutre respeito, carinho, admiração ou, na pior das hipóteses, medo. Mas e suas vontades, suas deliberações a respeito de si, o que tem feito com elas?

Jogá-las no mais inóspito lugar que habita em você não parece eficaz. Mais tarde esse pobre lugar se tornará pequeno demais para tantas palavras não ditas, desejos não saciados e vontades não atendidas. Tudo que tiver aprisionado no seu íntimo irá se rebelar quando menos suspeitar, como menos esperar e, provavelmente, no momento menos adequado. Sendo assim, mais uma vez, desculpe o transtorno, sinto muito pelo inconveniente, mas é que às vezes você deve se bastar sozinho.

Tendo isso em mente, pronto, agora você já pode se isolar de todos e viver no seu mundinho particular longe de qualquer ser vivente. Então, sobre isso: trata-se exatamente do contrário. O truque está justamente em participar do coletivo, mas sem violar sua individualidade. Alguém se basta sozinho quando não depende do outro para decidir, escolher, sair ou viver. Desejar aprovação e torcer por um justo julgamento ao seu respeito são coisas inquestionavelmente aceitáveis. É o mínimo de reconhecimento que todo mundo espera. Recorrer a orientações e conselhos também é absolutamente compreensível. Por outro lado, quando você passa a depender da aprovação dos outros para se exercitar, algo está errado — eu diria bem errado, quero dizer, extremamente errado.

É preciso muita coragem para meter a cara e fazer o que realmente diz nossa consciência ou manda nosso coração. Transparece muita segurança esse gesto, mas, acredite ou não, ele não está livre de medos ou detém todas as certezas. A certeza da qual necessita é a que te diz que não importa o que aconteça, mas é você quem estabelece as diretrizes da sua vida. Opiniões, posicionamentos e orientações de terceiros serão considerados, mas no final a escolha será sempre sua. A vida é tão curta e tão sua para deixar que os outros a vivam. Não vale o sacrifício. Principalmente depois que você prova o sabor da liberdade, da independência, do poder que existe na ação de fazer o que se quer porque se quer.

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