Eu votaria no Pedro Paulo

quem me ensinou o que era a esquerda foi o pedro paulo.

o ano era 2006. eu tava na festa de uma criança aqui na rua. um amigo levou um CD pirata e pediu pra mãe da aniversariante colocar.

eis que começa a tocar jesus chorou, do racionais mc’s. 
numa festa infantil.
enquanto eu separava o bolo do guardanapo pra comer, o rádio tocava:

“gente que acredito, gosto e admiro
brigava por justiça e paz, levou tiro:
malcolm x, gandhi, lennon, marvin gaye. CHE GUEVARA…”

…opa. esse nome eu conheço! acho que ele é da jovem fla. 
os cara tem uma bandeira pra ele.

pois bem. cheguei em casa, liguei meu computador COMPAQ, baixei a música no limewire e fui ao wikipedia procurar quem diabos era che guevara.
e aí descobri toda a história da revolução cubana a partir da música do pedro paulo soares pereira,
o mano brown.

fiquei com aquilo na cabeça, achei maneiro, passei a considerar a torcida jovem do flamengo o embrião revolucionário da esquerda carioca, mas só.

*pulei uns meses. aqui o brasil perdeu pra frança na copa e lula foi reeleito*

início de 2007. aí eu aprendi o que era a esquerda na prática.
fui com meus pais comprar um par de sapatos pra usar no colégio.

eu queria uma chuteira total 90, mas o sapato tem que ser todo preto, sem nenhum detalhe. tô puto, tá? dá pra perceber pelo meu olhar maldito, né? escola de merda. me deixa puto aqui. 💂

então fui sentar na escada da loja de sapatos, de frente pra uma banca de jornal. boladão. eu vi que na banca tinha uma revista com aquela fotografia clássica do che guevara na capa.

era uma edição da revista A VERDADE,
do PCR,
meus amigos. o famigerado partido comunista revolucionário. 
mete-o-loco-pra-tu-ve.

fiquei ali, ainda puto dentro das calças, lendo minha A Verdade, sentado na escada. de supetão sinto uma mão peluda porrando forte o meu ombro.

um vendedor da loja achou que eu era uma criança em situação de rua e mandou eu sair da escada. ele quase chutou minhas costas. covardão.
eu tava atrapalhando a circulação dos clientes,
ou seja,
de ninguém. ninguém entrava naquela loja.

aí eu esqueci a total 90 prateada que eu tanto queria. o sangue subiu. olhei firme pra ele, cabeça erguida mesmo, tipo o che guevara na foto.
pensei em várias frases locas do che que eu havia pesquisado no pensador.info,
cerrei meus punhos, ensaiei um palavrão, e lancei:
“que isso senhor, minha mãe tá aí dentro. ô mãe!”
que bunda mole. 
duvido que o marighella apelaria pra mãe.

eu acho maravilhoso quando os amigos dizem que um professor da escola abriu a cabeça, quando a universidade mostrou novos caminhos, deu sensibilidade.
a função é essa mesmo. tenho muito orgulho dos meus amigos professores.
mas é engraçado como existem professores também fora do ambiente escolar.
na vida, nas ruas, no rádio da festinha, na banca de jornal