Submersão (ou como quebrei o tabu do pop)

Sete tem todo aquele misticismo girando ao seu redor. E eu, ruminante e errante que sou, demorei (e demoro) para pular na onda do pop. O mar antes parecia calmo demais pra quem se acostumou a remar contra a maré. Resolvi arriscar e até brincar de oráculo nesse espetáculo de Iemanjá. Foi aí que me deparei com o caldeirão do “Que Delícia, Né Gente?”.

Molhando os pés na beirinha dessa praia gostosa há menos de um ano, percebi o óbvio: sim, é possível a vida inteligente nessas águas. Olhando mais atentamente, é perceptível que as marolas acabam por formar um vertiginoso redemoinho cheio de teias e conexões. Uma reviravolta de potência e amplitude antes terrivelmente subestimadas. Há também inúmeras correntes e novidades que se chocam. Exatamente da mesma forma que se articulam revoluções.

Lá na superfície alternativa, é mais fácil ser inovador e subversivo; não há tantos seres impressionáveis. Estão todos habituados (e enfadados) a uma enferrujada vanguarda. Vez ou outra algum peixinho se aproxima da praia e aprende algo bom. Vislumbra uma possibilidade, e resolve compartilhar a boa nova com o cardume. Em outras ocasiões, ao observar as animados fossas marítimas, uma estrela pode também aprender a girar mais rápido. Os demais neptunianos a seguem para não perderem a onda. Independente do processo, a mensagem nunca é original. Porém, é recebida com ansiedade por multidões, alterando as marés e os ventos que sopram na terra. Alguns tão fortes que alteram o eixo dos mundos.

Pra quem esteve à deriva no barco hasteando uma pretensiosa bandeira de erudição, talvez não seja tão simples avistar as diferentes nuances de azul. É preciso saltar. Antes do impulso, eu precisei me aventurar entre neblinas para adquirir um senso de direção mais apurado. Nesse caminho observei a diferença entre erudição e experimentalismo, aprendendo a questionar o peso e a relevância (nada imutáveis) dos cânones. Só assim pude retornar àquela aventura. Imergindo no QDNG, descobri um exuberante e diversificado espectro. Mas nem sempre essa beleza escondida nas melodias “comerciais” é percebida. Mais indagações seriam necessárias durante o trajeto.

O que é arte erudita? Formada por águas doce da superfície e salgada de abismos submarinos, a verdadeira erudição não estava no convés que naveguei por longas noites. Não ficava no mastro, proa ou parte alguma da embarcação. Na verdade, os sons eruditos sopravam das nuvens e tinham um alcance muito maior do que o avant-garde náutico. Pareciam sacros e intocáveis. A especiaria exótica que carreguei não estava à frente do meu tempo. Tardei em encontrar sua origem.

Verifiquei de onde a erva foi extraída e qual fonte a alimentou. Notei seu perfume diferente e misteriosamente familiar. Nada realmente original. No entanto, o que é a originalidade senão uma memória? É, bem que na escola ensinaram que nada se cria, tudo se transforma. E de onde vem o modelo cultuado pela academia? Provavelmente nunca saberei. A massa amorfa e branca dos tratados do que não é arte e o que é, está fadada a retornar às suas origens em busca de renovação. Depois choverá reinventada sobre o mainstream e o underground, permanecendo sublime demais aos animais inferiores.

Se o cânone, tão ilusoriamente parado e isolado, é de difícil compreensão, resta uma análise global. Música é um anglo cultural que abarca degelos e congelamentos, pressupondo um deságue catártico da psique. Não importa o quão longe ou quantas frequências alcance, a canção sempre será fruto enxertado de seu tempo.

Entre tentativas e descargas arriscadas, a vertente não comercial encontra suas pérolas. Requerem certa cautela no armazenamento e compartilhamento. Contudo, de nada lhes valem o brilho quando restringidas a joalheiros e escassos entendidos. No pop, em meio às falsificações, encontram-se diamantes aparentemente brutos. Quando (auto)criticados de forma coerente, adquirem valores inestimáveis. Sob essa perspectiva, agora valorizada e lapidada, a joia se torna acessível ao deleite da maioria. Sedimentando maremotos de grandes proporções, estão algumas gemas como Beyoncé, Lady Gaga, Nicki Minaj e Miley Cyrus. Menosprezar sua capacidade de transformação, e a de diversos outros artistas das rádios, beira ao absurdo. É uma cegueira adquirida graças à negação da verdadeira natureza do mundo sensível.

Ouso ir mais adiante: deter o olhar em uma só faceta, sendo ela popular ou não, do universo musical contemporâneo é tão descabido quanto acreditar em alienígenas construindo pirâmides. Ou imaginar que a democracia da Grécia Antiga outorgava direitos iguais a todos os habitantes das polis. É anacrônico, no sentido genético da palavra.

O pós-modernismo está sendo enterrado. Seu funeral é aberto a todos os público, doa a quem doer. Em seu túmulo, florescem simultaneamente novas concepções de arte, gênero e (por que não?) dogmas. Afinal de contas, o movimento é pré-requisito do futuro, e ele já está entre nós. Deem boas-vindas a uma nova era. Nela, nada é estático, vertical ou absoluto, mas deliciosamente fresco.

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