Caixa preferencial

Eu nunca tive problemas com a ideia de envelhecer — apesar deu ter completado vinte e um anos há apenas dois meses e parecer ridículo pensar nisso, mas é que minhas amigas, desde os quinze, não param de falar em como estão envelhecendo, e como isso deixa elas preocupadas — e até gosto da ideia. Mas tenho que admitir que “o que vem depois” me assusta.

Eu tava naquela fila do banco, esperando minha vez pra pagar minha conta, e tinha sempre um idoso passando na minha frente. Eu tava irritada com o fato deles não terem um caixa preferencial. Mas isso não é importante. Já tinha perdido a conta de quantos idosos e idosas haviam passado na minha frente, quando a minha vez chegou. Eu tava prestes a me levantar, quando mais um velhinho chegou no local. Confesso que fiquei tentada a me levantar correndo, fingir que não vi ele e fazer cara de tacho quando ele chegasse bem perto, então ficar em silêncio quando o atendente pedisse que o senhor aguardasse só mais um pouco, enquanto eu era atendida. Sim, eu pensei em fazer isso, mas não fiz. Em vez disso, sorri educadamente, quando ele olhou ansioso pra mim, e acenei com a cabeça, enquanto ele sorria de volta e ia pagar seja lá o que a família toda dele tivesse pedido pra ele pagar.

E, puta merda, ele demorou pra caralho. Que bom que eu tava sentada.

Mas isso não me incomodou, eu já ia sair de lá mesmo. Eu fiquei observando o senhorzinho se enrolando com alguns papéis e isso me lembrou meu avô. O de parte de pai — o de parte de mãe eu nem cheguei a conhecer. Meu avô era meio desastrado, as vezes. Ele derrubava um monte de papéis no chão, e eu tinha que catar um por um, ouvindo os frequentes “cuidado pra não amassar isso aí”. Eu gostava, até. Me sentia prestativa.

Quando eu nasci, meu avô já tinha cinquenta e cinco anos, já que ele teve meio pai mais ou menos aos vinte e cinco e meu pai me teve mais ou menos aos trinta. Eu achava ele velho, mas como eu disse isso não era um problema.

Nos momentos que ele não tava derrubando alguma coisa, ele tava sentado em uma cadeira de balanço — nisso eu tinha uns nove anos, eu acho, mas deve tá mais pra sete, já que eu sentava no colo dele e ele me contava umas histórias doidas.

O fato é que meu avô era todo doido, ele inventava um monte de histórias pra mim, e eu adorava. Eu tentava sempre não por muito peso na perna dele, tadinho, mas ele sempre pedia pra eu pegar meu banquinho de plástico e sentar do lado dele, porque eu era meio pesada.

Quanto às histórias, eu não lembro muito bem. Mas tinha uma que eu gostava de ouvir, era sobre uma menininha, que coincidentemente tinha meu nome, já que Ana é um nome muito comum, mesmo onde a gente não morava (meu avô dizia isso toda vez que contava uma história, mas eu achava mesmo é que ele não sabia muitos nomes). Enfim, esse menininha ia pra um lugar com o pai, que trabalhava viajando muito, por todos os países que existem no universo. Daí um dia, quando eles tinham parado numa ilha qualquer pra bater fotos, porque do que adianta ir pra todos os países que existem no universo se você não pode bater fotos deles? Mas não era só pra bater foto não, era uma pausa obrigatória lá do navio e eles iam ficar um dia todo na ilha.

A menininha curiosa, pediu, logo depois do café da manhã, pra conhecer melhor a ilha. Seu pai deixou, claro, já que ela era super independente, conhecendo várias países do universo. Quando ela andou por lá, não encontrou nenhuma outra criança, o que de certa forma era uma decepção pra uma criança que queria brincar mais do que conhecer aquela ilha aparentemente tão comum.

Mas não era uma ilha comum, meu vô dizia, tinham diversas criaturas mágicas lá. Tinha um tatu falante, que gostava de apostar corrida com qualquer um que quisesse aceitar, mas gostava de trapacear, entrando em buracos que eram atalhos que ele mesmo criou — daí eu era advertida a não trapacear nunca nas corridas e eu nem corria. Tinha um papagaio mudo, que escrevia coisas com as patas, algo assim, mas ele só falava besteira, tinha um macaquinho que era mais inteligente que a maioria dos outros macaquinhos, só que ele era muito ruim em matemática, daí ele só sabia contar até catorze, porque estranhamente ele possuía sete dedos em cada mão. E tinha um monte de bicho que eu mesma ficaria morrendo de medo de ver, não sei meu avô.

Eu sei que no final a menininha encontrava o tatu, vencia ele na corrida mesmo com a trapaça dele, ensinava o papagaio a falar umas coisas legais lá e ajudava o macaquinho com a prova da semana que vem.

Pois é, eu gostava do meu avô. Não era só isso que a gente fazia, mas o resto era coisa normal de avô e neta, não interessa tanto. Além disso, o velhinho acabou de ser atendido e eu tô doida pra ir pra casa, não aguento mais esse lugar.

Quando meu avô morreu eu tinha catorze anos, foi muito ruim. Meu pai chorou tanto, minha mãe… eu também chorei muito. Tinha que chorar. Era meu avô. Eu não fui pra escola por uns dias, então minhas amigas me visitaram, choraram um pouco comigo e aos poucos foi passando.

E daí um ano depois começaram com essa história de estarem ficando velhas. Eu não, eu queria ficar adulta e depois velha, lembrava do meu avô. Queria ser legal que nem ele, dar carinho pra os meus netos, reproduzir as histórias dele.

Mas sobre isso aí, meu medo mesmo não é ficar velha. Isso é natural. Mas o que vem depois… se eu chegar lá — e eu vou! — o que vem depois é difícil. Só de pensar em meus filhos e netos chorando a minha morte já me parte o coração.

Morrer eu confesso que não quero, dói demais. Doeu demais. Mas eu não sei, talvez eu mude de pensamento com o tempo. Meu avô sempre dizia que eu tinha muito a aprender. E se tem uma coisa que eu gosto de fazer é lembrar das coisas que meu avô dizia.

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