Espião
Hoje à tarde eu estava tentando escrever, pois já fazia um tempo que eu não atualizava algumas coisas pessoais. Enquanto escrevia, resolvi sentar-me ao ar livre, já que estava sendo uma tarde bastante quente. Após alguns minutos sozinho, três crianças passaram a brincar na minha frente, simulando lutas, onde elas lançavam objetos umas nas outras (o que achei perigoso, mas não interferi), e corriam para todos os lados.
Desistindo por alguns momentos do que eu estava escrevendo, passei a observar discretamente o que elas estavam fazendo. Pelo que percebi, a criança mais velha, uma menina de cerca de nove anos, era inimiga mortal das duas crianças mais novas: uma menina que aparentava ter cinco anos e um garoto de quatro.
A possível vilã (pois eu assumi que a criança mais velha é a que mais tenderia a ser a vilã) estava sendo atacada por “bombas” (pedras e pedaços de madeira) e tentava fugir. Naquele momento eu pensei: “Posso ver até onde eles vão chegar e tirar alguma ideia das atitudes delas.”, então prestei bastante atenção no que elas estavam fazendo.
O garotinho mais novo parou de lançar as “bombas” e encontrou um pequeno pedaço de madeira, que utilizou para simular uma espada. Em contrapartida, a nossa vilã pegou não um, mas dois pedaços de pau, para revidar. Tínhamos então uma luta de espadas. Perfeito! Continuei a observar.
Valente e destemido, o pequeno rapaz não se curvou diante de tal atitude: avançou em direção à sua inimiga e os dois passaram a duelar de forma desengonçada e tosca, enquanto gritavam comentários como “Eu vou matar você!”, ou “Ê vô matá cê!”, no caso do menino, que parecia ainda não conseguir falar muito bem.
Aproveitando-se da situação, a garotinha mais nova, até então esquecida, não compartilhou da atitude de seu aliado de livrar-se das bombas para obter outra arma, lançando mais alguns desses objetos-bomba, que só serviam para me fazer querer levantar e pedir para que elas parassem com aquilo.
Mostrando a perícia de uma criança de nove anos, a vilã se esquivou de todas as bombas e ainda conseguiu derrubar o seu rival espadachim no chão. Surpresa, a heroína não conseguiu se mexer, já que não tinha mais nenhuma bomba (graças a Deus!). Aguardou a reação da mais velha.
Nesse ponto, eu já estava muito próximo de parar de prestar atenção no que os três estavam fazendo, quando algo aconteceu: o pequeno garoto soltou um grunhido de raiva, que fez com que a garota mais velha, outrora confiante, fugisse do local. Antes de fugir, porém, segurou no braço da menina mais jovem e gritou: “Vamos fugir, ele vai nos matar!”. Eu, confuso, pensei: “Mas elas não eram inimigas?”.
Percebi, então, que não conseguiria me aproveitar da brincadeira delas, porque, enquanto eu esperava uma história que fizesse o mínimo de sentido para apreciar, aquelas crianças queriam apenas se divertir. E não importa se fazia sentido, ou não; assim como não importa se o garoto de quatro anos voltou chorando e gritando para casa, porque aquelas crianças, naquele momento, se divertiram.