Por Onde Começar ? Vaporwave

Iniciando um novo hábito em paralelo com o meu vlog, Vira O Disco, estarei fazendo alguns artigos introdutórios para certos gêneros musicais mais aprofundados e desconhecidos do grande público ou o amante de música mais leigo. Pois na era da internet, com milhões de movimentos e estilos musicais se destacando e sendo redescobertos diariamente, o ciberspaço é um mar de informação que pode desfocar qualquer um que quer tentar se inteirar sobre certos assuntos.

Além também de dar um pequeno histórico sobre tal estilo musical, também vou dar algumas dicas de álbuns e artistas semelhantes, para conseguir dar algum direcionamento para o leitor e daqui ele se guiar e fazer suas próprias pesquisas.

Se você está um pouco antenado na cultura alternativa e jovem da internet, já deve ter ouvido ou visto algo relacionado a vaporwave. Sejam memes e montagens com estética de VHS com bustos tropicais e word art ou a música de Macintosh Plus e seu hit リサフランク420 / 現代のコンピュー.

Mais do que apenas um gênero musical criado na internet, o vaporwave acabou virando uma subcultura com sua própria identidade. Além também de ser o primeiro registro de um gênero musical que teve sua origem e disseminação na internet.

“Ok, mas o que é esse tal de Vaporwave?”, você pergunta. Calma, vamos explicar:

De uma forma bem curta e direta, o gênero se trata de uma música remontada, onde o artista seleciona uma canção pop/funk/soul/new age de décadas anteriores (em particular as de oitenta e noventa), a separa em trechos e repetições, diminui sua velocidade e pitch (tom da música), com isso, outra faixa completamente nova é criada.

Basicamente um novo uso de samples, superficialmente não é muito diferente do uso que vemos no hip hop e música eletronica, mas aqui toda a música é baseada na sonoridade fonte e não há adições do autor. A canção é a mesma, mas a forma como ela é executada, recriada e estruturada é o que faz dela vaporwave.

Com esses andamentos lentos, tons graves, camadas de ecos e reverberações, loops e a equalização retrô criam essa aura etérea, ambient e relaxante. Pegando aquela música que você escutaria num rádio de qualquer consultório médico e transformando ela numa jornada lisérgica, porém com um viés mais urbano e civilizado. Ao invés daquela música new age que te cria um imaginário da natureza, o vaporwave faz você se sentir um com a tecnologia e comunicação em sua volta.

Os primórdios do vaporwave se registram em 2010, com dois lançamentos: Eccojams vol.1 de Chuck Person (alter ego de Daniel Lopatin, do Oneothrix Point Never), que consistia de vários loops e colagens sonoras, com trechos extremamente desacelerados de canções de Michael Jackson, Toto, Fleetwood Mac, entre outros. Criando o conceito dessa desconstrução de músicas conhecidas, destratando-as até um ponto de difícil reconhecimento, criando assim uma nova obra cuja primeira audição cria uma sensação de familiaridade.

Outro álbum importantíssimo foi Far Side Virtual de James Ferraro, que já pela capa demonstra essa estética tecnológica e surreal. O músico diz que o trabalho demonstra concepções de hiperrealidade e cultura de consumo, com essas estruturas sonoras digitais bem simplórias, além do uso de samples de Skype e o efeitos sonoros do Windows, criando essa espécie de lo-fi digital.

Em 2011, surge o pilar do vaporwave: Floral Shoppe, do Macintosh Plus, projeto de Ramona Xavier, conhecida pelo pseudônimo Vektroid. O álbum atraiu um público mainstream e assim o gênero conseguiu mais reconhecimento. Aliado com o fato destas obras serem distribuídas e divulgadas de forma quase viral, entre fóruns online e redes sociais, além de netlabels que disponibilizavam as músicas pra streaming.

O mistério do anonimato destes autores, que muitas vezes podiam ser responsáveis de mais de um projeto ou “grupo” (por exemplo, Vektroid também lançou trabalhos como New Dreams Ltd, PrismCorp Virtual Enterprises, Laserdisc Visions e 情報デスクVIRTUAL). Criando uma cena musical completamente anônima, evasiva, com vários artistas e públicos sem rostos ou identificações físicas, atraindo curiosidade e o interesse do público em desvendar tal mistério. Tal divulgação viral e confusa coincide bastante com um dos conceitos que originou o nome do estilo: vaporware, que se tratavam de softwares que eram anunciados, mas nunca lançados.

Agora que fomos devidamente apresentados, vamos começar a introduzir você, leitor, ao mundo etéreo e neon do vaporwave. Que mesmo sendo um estilo musical com mais ou menos seis anos de “idade”, já houve bastante variações e experimentalismo o suficiente que equivalem a algumas décadas da música pop, refletindo bastante a ansiedade e velocidade da internet nesse gênero.

Como o gênero tem milhares de artistas e ramificações, escolhi cinco álbuns com propostas um pouco variadas mas que se encontram no universo do vaporwave. Considere isso uma introdução geral, vendo onde procurar artistas e bandas, há sites que tem catálogos completos de projetos pra download grátis.

S U R F I N G - Deep Fantasy

Indo pelo lado mais básico e clichê do estilo, creio que esse álbum é perfeito pra começar a compreender o vaporwave. O uso de samples aqui é simplório, mas efetivo, demonstrando bastante a suavidade e um tom kitsch. Conta com 10 faixas que tem uma boa variação, vai do lado nostálgico ao mais ambient e etéreo do vaporwave sem soar intrusivo ou peculiar demais para um passageiro de primeira viagem.

Se gostou, você também pode ouvir: Infinity Frequencies, Luxury Elite, Vector Graphics , 猫 シ Corp.

SAINT PEPSI - Hit Vibes

Saindo de um espectro alternativo e indo pra algo mais pop e nostálgico, Saint Pepsi performa aquilo que alguns chamam de future funk. Os samples de funk, soul e música pop aqui são mesclado com batidas eletrônicas e alguns efeitos sonoros, concebendo um clima mais festivo. Energético, dançante e completamente carismático, esse disco mostra a faceta mais pop e agradável do universo vaporwave. Inspirando de artistas e projetos, por sua maioria divulgados pelo canal Artzie Music, também ajudando na acessibilidade do estilo para novos públicos. Hoje em dia o Saint Pepsi abandonou a carreira no gênero, seguindo como Skylar Spence, trabalhando em nu disco junto com o Daft Punk.

Se gostou, você também pode ouvir: Yung Bae, Architecture In Tokyo, マクロスMACROSS 82–99

BLACK BANSHEE - Black Banshee 0

Aqui, os samples modificados se aliam com batidas eletrônicas e uma cadencia mais puxado pra trap music, misturando o surrealismo sonoro com essa ginga e direcionamento puxado pro hip hop e R&B. Mesmo sendo experimental, o album tem composições bastante envolventes e dançantes, até tendo um que de sensualidade e aquilo que os jovens chamam de swag.

Se gostou, você também pode ouvir: Vaperror, NxxxxxS, Taspo

DISCONSCIOUS - Hologram Plaza

Mallsoft, a vertente talvez mais específica e curiosa do gênero. Consistindo da produção típica, porém com uma atenção maior na produção, bastante reverberação e foco em composições suaves e lentas, as típicas “músicas de elevador”. Criando essa impressão do ouvinte estar passeando num shopping ou supermercado. Não há muitos projetos no estilo, mas esse álbum é uma das maiores referências da subvertente.

Se gostou, você também pode ouvir: 死夢VANITY , 식료품groceries , Hantasi

2 8 1 4 — 新しい日の誕生/Birth of a New Day

O projeto dos artistas Hong Kong Express e t e l e p a t h テレパシー能力者, a dupla tenta criar essa obra conceitual com um ar bastante cinematográfico. Apontando pra um lado mais experimental e ambient do estilo, as faixas aqui são longas, atmosféricas e criam essa sensação bastante visual ao ouvinte. Aperte o play seja imerso nessa jornada num mundo cyberpunk que, mesmo distópico, tem esse ar atrativo, colorido e até mesmo relaxante, pelo menos é essa sinestesia sonora que o 2 8 1 4 me despertou. Outro fator crucial e que quebra muitas regras aqui é que todas músicas aqui foram compostas e executadas por instrumentos originais, o uso de samples aqui é o mínimo possível.

Se gostou, você também pode ouvir: Hong Kong Express, t e l e p a t h テレパシー能力者 , GOLDEN LIVING ROOM , Eyeliner