Especial: 100 anos do Fim da Guerra do Contestado

Guerra do Contestado

Por Carolina Cunha

Pontos-chave

1 — A Guerra do Contestado (1912–1916) foi um conflito armado que opôs forças do governo e camponeses que viviam na região disputada pelos Estados de Santa Catarina e Paraná. Ocorrido durante a República Velha, o sangrento conflito teve origem na disputa de terras e deixou mais de 10 mil mortos, vítimas dos combates, da fome e de doenças. No final, os rebeldes e sertanejos pobres foram violentamente massacrados.

Mapa de onde aconteceu a Guerra do Contestado, no Sul do Brasil

2. A estrada de ferro entre São Paulo e Rio Grande do Sul estava sendo construída por uma empresa norte-americana. Para a construção da estrada de ferro, milhares de famílias de camponeses perderam suas terras. Essas famílias de sertanejos pobres foram atraídas para o movimento liderado pelo Monge José Maria.

3. Em meio à disputa entre Santa Catarina e Paraná, o Monge José Maria e seus fieis fundaram “cidades-santas”, povoados autônomos que atraíam os pobres e camponeses. Vistos como fanáticos e monarquistas, os sertanejos foram reprimidos pelas forças oficiais. Estima-se que mais de 10 mil pessoas morreram na guerra.

No final de julho de 1916, Adeodato Ramos estava embrenhado na mata fugindo de tropas do exército. Ao sair para a estrada, foi avistado por uma patrulha e, então, o último líder rebelde da Guerra do Contestado se entregou. Sua captura colocou fim à revolta mais sangrenta do século 20 no Brasil.

Causas da Guerra

Vários motivos contribuíram para a eclosão da guerra. Desde o Império, Santa Catarina e Paraná tentavam definir seus limites territoriais. A região da fronteira conhecida como “contestado” era alvo de disputa judicial entre os dois Estados no início do século 20. Em 1904, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa aos catarinenses e reafirmou sua decisão nos anos seguintes, mas a sentença era ignorada pelo governo paranaense.

O governo brasileiro autorizou a construção de uma estrada de ferro ligando os Estados de São Paulo e Rio Grande do Sul e que cruzava as terras do contestado. Para isso, desapropriou uma faixa de terra de 30 quilômetros ao lado da rodovia, uma espécie de “corredor” por onde passaria a linha férrea e que poderia ser explorada pela companhia que a construísse.

A responsável pela construção foi a empresa norte-americana Brazil Railway Company, do empresário Percival Farquhar. Além das terras ocupadas para a construção, ele comprou uma grande área onde fundou a Southern Brazil Lumber & Colonization, empresa que se tornou a maior companhia madeireira da América do Sul.

Originalmente, os moradores dessas regiões de concessão eram posseiros caboclos e pequenos fazendeiros que viviam da comercialização de erva-mate e da madeira. Não tinham título da terra, mas viviam há algumas gerações por ali. Com os empreendimentos de Farquhar, os sertanejos que ali moravam foram desalojados à força e passaram a viver em piores condições.

O clima ficou ainda mais tenso quando a estrada de ferro ficou pronta. Ao fim das obras, o grande número de migrantes que se deslocou para o local ficou sem emprego, formando uma legião de mão-de-obra desempregada. Eles permaneceram na região sem qualquer apoio por parte da empresa norte-americana ou do governo.

O messianismo do Monge José Maria

A exemplo da Guerra de Canudos (1896–1897), na Bahia, a Guerra do Contestado foi uma revolta messiânica. E assim como Canudos, também tinha um fundo antirrepublicano.

O messianismo é uma doutrina que acredita que o Messias voltará para libertar o seu povo do mal e criar um lugar de paz e de prosperidade. Na história dos séculos 19 e 20, esses movimentos eram liderados por um líder carismático que fundava uma Cidade Santa, governada pelas leis divinas. Os messianismos são considerados movimentos sociais por serem coletivos e buscarem a destruição de estruturas consideradas injustas e a construção de um novo mundo a partir da fé.

O principal líder da Guerra do Contestado foi o Monge José Maria, que ganhou fama na região por seus supostos dons de cura e profecias. Ele encontrou um povo sedento por ajuda e fez a promessa de construir um povoado onde todos viveriam em paz, com prosperidade, justiça e terras para trabalhar.

Guiados pela utopia de uma vida comunitária, o grupo do beato passou a criar “cidades-santas” que atraíram os camponeses expulsos das terras pela construção da estrada de ferro. Logo o líder passou a envolver-se também com questões políticas. O Monge profetizava que a República seria um sinal dos fins dos tempos e que os caboclos deviam lutar contra o governo e pela volta do governo de Deus, o Regime Imperialista.

As comunidades eram autônomas e viviam sob os princípios da igualdade e da irmandade. Sua existência começou a incomodar os coronéis e grandes fazendeiros. Para os grupos políticos que mandavam na região, os seguidores de José Maria eram vistos como “fanáticos” e “monarquistas”. A Igreja Católica também não enxergava com bons olhos a liderança do profeta. O governo passou a acusá-lo de ser um inimigo da República, que tinha como objetivo desestruturar a ordem estabelecida.

Em 1912, o Monge José Maria foge com seus fieis para Irani (SC). A chegada do grupo foi vista pelo Paraná como uma investida de Santa Catarina para forçar a posse do território contestado. Uma expedição paranaense é montada para prender o beato, que resulta no ataque chamado de “Combate do Irani”. O confronto acaba com a morte de José Maria e do comandante das tropas oficiais.

O episódio deflagrou a Guerra do Contestado. Com a morte de José Maria, cresceu a crença em sua ressurreição e os discípulos mais fieis voltaram a se reunir e a criar novos redutos, nos quais se seguiam os ensinamentos do monge. Era o início de uma ofensiva rebelde generalizada, também caracterizada por saques e invasões de propriedades de coronéis.

Coronéis locais, forças estaduais e Exército se uniram para combater o movimento e foram apoiados pelo presidente da República, Hermes da Fonseca. Os camponeses, armados com armas precárias como espingardas de caça, facões e enxadas, resistiram aos primeiros avanços.

Embora tenham tido pouco sucesso nos dois primeiros anos do conflito, as forças oficiais obtiveram, a partir de 1914, sucessivas vitórias sobre os revoltosos. Em muitos lugares, coronéis contrataram capangas para caçar rebeldes. Entre março e abril de 1915, após longa batalha, veio abaixo o povoado de Santa Maria (SC), a maior das cidades santas, com mais de 20.000 habitantes e que hoje está extinta.

Dados do Exército revelam que houve a participação de mais de um terço do exército republicano brasileiro, a utilização de armamento pesado e o pioneirismo da aviação militar em operações de guerra. Nesse conflito, o Exército usou pela primeira vez pequenos aviões nos combates.

O Massacre

Adeodato Ramos havia passado boa parte do gelado inverno catarinense de 1916 embrenhado na mata, fugindo de seus perseguidores. Depois de uma noite de geada, o último líder rebelde da Guerra do Contestado estava exausto. Ao sair da mata e sentar-se à beira da estrada para se aquecer ao sol, foi flagrado por uma patrulha. O “temido facínora”, o “sanguinário chefe dos fanáticos”, o “flagelo de Deus”, como o descreviam os jornais da época, entregou-se sem nem sequer esboçar resistência.

A captura dele, na virada de julho para agosto, marcaria o fim da guerra, que se arrastou por quatro anos e transformou a região do Contestado (área disputada por Santa Catarina e Paraná) no palco da revolta mais sangrenta do século 20 no Brasil.

Os rebeldes chegaram a se espalhar por uma área equivalente ao tamanho de Alagoas. Entre 1912 e 1916, eles enfrentaram as forças policiais e militares dos dois estados e do Exército. Os insurgentes eram movidos por motivos que iam do messianismo à luta pela terra. Eram contra o poder público e os coronéis locais. Reagiam ao impacto da construção de uma estrada de ferro, que os expulsou da terra onde viviam.

Estima-se que pelo menos 10 mil pessoas pereceram na região do Contestado, tanto nos combates quanto de fome e de doenças como o tifo, que se alastrou pelas “Cidades Santas” erguidas pelos revoltosos. Entre os mortos, milhares de mulheres e crianças.

A guerra mobilizou metade do efetivo do Exército: mais de 7 mil soldados, nos momentos de luta mais intensa.

Messianismo

A indefinição dos limites territoriais entre Santa Catarina e Paraná vinha desde o Império e até a Argentina pleiteava a posse de áreas dos dois estados. O Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa aos catarinenses em 1904 e reafirmou sua decisão nos anos seguintes, mas a sentença era ignorada pelo governo paranaense. Nesse cenário de conflito, a revolta prosperou.

A guerra começou pequena, com um grupo reduzido de sertanejos (moradores desses campos do Sul, chamados de sertão na época) que em 1912 reuniu-se em torno de um curandeiro.

José Maria seguia a tradição de outros dois curandeiros que haviam passado pela região anos antes e eram considerados “monges” pelos sertanejos. Ele também fazia profecias: anunciava uma monarquia celestial em que todos viveriam em comunhão, dividindo bens.

Dos seguidores do novo monge, muitos eram posseiros, sitiantes e pequenos lavradores que haviam sido expulsos das terras em que viviam pelo grupo americano responsável pela construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, do megaempresário Percival Farquhar.

Além da concessão, Farquhar ganhou do governo brasileiro as terras situadas às margens da ferrovia, uma vasta faixa de 15 quilômetros de cada lado.

Depois da construção da estrada de ferro, a região, coberta de matas de árvores nobres como a araucária, começou a ser desmatada. O empresário ergueu lá a maior madeireira da América do Sul na época e uma companhia colonizadora que, depois do desmate, venderia as terras a imigrantes europeus. Famílias que viviam no local foram expulsas por milícias armadas da empresa, com apoio das autoridades brasileiras.

Primeira batalha

O monge José Maria e os fiéis se instalaram em Taquaruçu, nos arredores de Curitibanos (SC). Temendo que o grupo fosse usado por inimigos políticos, um poderoso coronel da cidade pediu ao governo catarinense tropas para dispersar um “ajuntamento de fanáticos” que supostamente queria proclamar a Monarquia no Sul do Brasil.

Ao saber que a força policial havia sido chamada, os fiéis fugiram para Irani (SC), localidade que na época estava na área do Contestado.

A chegada do grupo foi vista pelo Paraná como uma investida de Santa Catarina para forçar a posse do território contestado. Em resposta, o Paraná enviou um destacamento policial para expulsar os supostos invasores. Em outubro de 1912, a ação terminou de forma trágica, com 21 mortos. Entre eles, o monge José Maria e o comandante das forças de segurança do Paraná, coronel João Gualberto.

Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado mostram a reação dos senadores ao conflito. Dois dias depois da batalha, a morte do comandante foi anunciada no Plenário do Senado, sediado no Palácio Conde dos Arcos, no Rio.

O senador paranaense Generoso Marques falou aos colegas sobre a “horda de bandidos e fanáticos” que havia invadido o Paraná e leu um telegrama enviado pelo governador do Paraná, Carlos Cavalcanti, ao Congresso. O governador comunicava que o Estado havia pedido ao presidente da República, Hermes da Fonseca, a intervenção de forças federais.

O senador catarinense Abdon Batista apoiou o colega: “Esse acontecimento, ao mesmo tempo em que nos cobre de pesado luto, nos anima e nos incita na obrigação de secundar as forças do estado vizinho para que, de uma vez, sejam extirpados os elementos maus que procuram perturbar nossa vida de trabalho e progresso.”

Ao longo do conflito, os dois estados trocariam acusações de incentivar os revoltosos e até de fornecer-lhes armas.

Exército encantado

Depois da morte do monge, os devotos se dispersaram. O messianismo, porém, permaneceu. No ano seguinte, difundiu-se a crença de que José Maria voltaria do céu, acompanhado do “Exército Encantado de São Sebastião”. Uma criança de 11 anos dizia ver o monge em sonhos pedindo aos fiéis que se preparassem para uma guerra santa. O grupo rebelde voltou a se reunir em Taquaruçu.

Agora não eram apenas os antigos seguidores do monge José Maria que se prepararam para a luta. Somaram-se a eles descontentes em geral: mais colonos expulsos, fazendeiros que se opunham aos coronéis, tropeiros sem trabalho, desempregados da obra da ferrovia, presidiários e até ex-combatentes da Revolução Federalista (1893–1895), que tinham experiência com armas e contestavam a República.

“Num determinado momento, torna-se uma guerra de pobres contra ricos”, diz o historiador Paulo Pinheiro Machado, autor do livro Lideranças do Contestado.

“Uma guerra daqueles que queriam formar suas comunidades autônomas, onde todos viveriam em comunhão de bens, o que era uma negação da própria ordem republicana, da concentração fundiária, do poder dos coronéis, da Guarda Nacional e da força da polícia, do Exército e da companhia ferroviária norte-americana sobre eles.”

Machado contesta a visão de que o fanatismo religioso de sertanejos pobres e ignorantes foi o principal combustível da revolta. O pesquisador sustenta que, paralelamente à crença na guerra santa, os rebelados haviam desenvolvido uma nítida consciência de sua marginalização social e política e de que “lutavam contra o governo, que defendia os interesses dos endinheirados, dos coronéis e dos estrangeiros”.

“Novo Canudos”

Na época, porém, a visão predominante na imprensa, refletida no Congresso Nacional, ignorava os problemas que motivaram a insurreição sertaneja. Em setembro de 1914, o senador Abdon Batista desqualificou no Plenário denúncias do deputado federal Maurício de Lacerda, do Rio de Janeiro, que afirmava que a usurpação de terras era a principal causa do conflito: “É uma lenda. Essa gente não tem terras nessas zonas, o que querem é viver sem trabalhar.”

Uma das poucas vozes dissonantes no Congresso, Lacerda disse à imprensa que o Contestado era “um novo Canudos” e defendia os revoltosos, “brasileiros donos de suas terras e que foram usurpados por uma empresa estrangeira”.

“As vítimas, como era natural, defenderam-se. O que se devia esperar? Que o Estado fosse em socorro daqueles homens, mas verificou-se o contrário”, declarou aos jornalistas.

O deputado denunciava que dois influentes políticos paranaenses, “protetores da empresa estrangeira que havia se apoderado à força das terras dos sertanejos”, conseguiram que o governo mandasse forças para “defender os ladrões e matar brasileiros que licitamente defendiam suas propriedades”.

Esses políticos eram o senador Alencar Guimarães (que havia governado o Paraná) e o vice-governador Affonso Camargo.

Guimarães defendeu-se no Plenário do Senado. “Nunca fui homem de negócios, jamais advoguei interesses de qualquer companhia nacional ou estrangeira que colidissem com o interesse do Estado.”

“Pavor e pena”

“Expedições militares tentaram desmobilizar o movimento, atacando Taquaruçu. Depois de várias tentativas, o reduto foi destruído em 1914. A força militar bombardeou a comunidade de longe. Atingiu principalmente mulheres, crianças e idosos, pois a maior parte dos homens havia partido para formar outro reduto, o de Caraguatá.

Foi um massacre. Metralhadoras, canhões e até granadas foram usados no ataque. No livro A Campanha do Contestado, o militar Demerval Peixoto, que participou dos combates como soldado, reproduz o relatório do médico que acompanhou a expedição:

“Pernas, braços, cabeças, casas queimadas… Fazia pavor e pena o espetáculo que se desenhava aos olhos. Pavor motivado pelos destroços humanos; pena das mulheres e crianças que jaziam inertes por todos os cantos”.

A revolta da população contra o massacre só fez fortalecer o movimento, e os sertanejos começaram a expandir suas ações. Milhares de novos adeptos se mudavam para os redutos. Novas “cidades santas” surgiam. A maior delas, Santa Maria, tinha 25 mil pessoas.

Ao mesmo tempo, o movimento se militarizou, com líderes “de briga” aliados aos religiosos. No inverno de 1914, os sertanejos começaram a saquear fazendas, roubando gado e comida e arregimentando pessoal (até sob ameaça) para reforçar os redutos. Passaram a atacar e ocupar cidades. Nos ataques, estações de trem e repartições públicas eram queimadas.

Com apoio dos governadores de Santa Catarina e Paraná, em 1914 o governo federal decidiu empreender uma grande operação militar para aniquilar a insurreição. Sob o comando do general Setembrino de Carvalho, 6 mil soldados rumaram para o sul do país. Além deles, 2 mil civis (chamados vaqueanos), a maioria integrantes das guardas privadas armadas mantidas pelos coronéis da região, foram contratados para auxiliar o Exército. A ordem do governo era clara: “acabar com os fanáticos”, como contou o próprio general Setembrino em suas memórias.

Quando o cerco aos redutos se apertou, começou a faltar comida, remédios e munição para os rebeldes. Sobreviventes relataram que, no final, comeram até couro de cintos e arreios para não morrer de fome. Para evitar deserções, alguns líderes, como Adeodato, impuseram um regime de terror nos redutos, executando os suspeitos de traição.

O reduto de Santa Maria foi destruído na Páscoa de 1915. Em telegrama a Setembrino, o capitão responsável pelo ataque detalha: “Tomei e arrasei 13 redutos com enormes sacrifícios do meu heroico destacamento. Matamos em combate perto de 600 jagunços, não contando o grande número de feridos. Arrasei perto de 5 mil casas e 10 igrejas”.

Os últimos combates ocorreram em dezembro de 1915, e os rebelados, derrotados, se dispersaram. Houve rendições em massa das famílias sertanejas.

Os vaqueanos começaram então uma caçada aos últimos líderes rebeldes. Muitos deles foram mortos em execuções sumárias, mesmo depois de rendidos. Alguns vaqueanos ganharam fama por retirar sertanejos da cadeia para executá-los.

Acordo de limites

Com a captura de Adeodato Ramos, o último e mais temido líder dos rebelados, a guerra foi encerrada de vez, naquele inverno de 1916. Logo em seguida, em outubro, finalmente veio a assinatura do acordo de limites entre Santa Catarina e Paraná. Pressionados pelo presidente Wenceslau Braz, cada um dos dois estados teve que ceder um pouco. A partilha, porém, foi vista como favorável aos catarinenses, que ficaram com 28 mil dos 48 mil quilômetros quadrados da área contestada.

Na assinatura do acordo, no Palácio do Catete, no Rio, o governador de Santa Catarina, Felipe Schmidt, comemorou a paz, encerrando um “passado amargo” que fazia os dois estados se olharem com desconfiança, como “dois povos estranhos que aguardassem, de arma em punho, a hora da peleja”.

O governador do Paraná, Affonso Camargo, também exaltou a paz, mas deixou claro o ressentimento com um desfecho que considerava injusto. Ele justificou sua decisão de assinar o acordo mesmo assim citando a necessidade urgente de encerrar uma “luta fratricida sem precedentes”.

“Ali caíram sem vida oficiais do Exército, bravos soldados das forças nacionais e estaduais e milhares de sertanejos, na sua maioria laboriosos, em uma confusão desumana que dolorosamente impressionou todo o país.”

Ao citar os sertanejos “em sua maioria laboriosos”, o governador reconhecia que o movimento, hoje visto como uma das maiores revoltas camponesas do Brasil, era mais que uma combinação de fanatismo e banditismo.

Essa consciência se ampliaria a partir dos anos 1970, explica o historiador Paulo Pinheiro Machado. Com a redemocratização do país, criou-se um ambiente favorável para a retomada da memória e dos estudos sobre a Guerra do Contestado.

No Senado, essa releitura histórica ficou patente numa sessão especial realizada em agosto de 2009 para lembrar a guerra. No Plenário, os senadores ressaltaram o caráter de revolta social do movimento, as injustiças cometidas contra a população pobre do Contestado e a ausência do Estado.

“Quando o Estado falta, não cumpre com seu dever, se omite, o resultado é este: as pessoas reagem”.

Capitão Mattos Costa

Na época da guerra, uma rara visão lúcida do conflito veio justamente de um comandante do Exército, o jovem capitão Mattos Costa. Idealista, ele defendia uma solução pacífica e morreu em combate, em 1914. Ficou registrada em relatos militares sua concepção da guerra:

“A revolta do Contestado é apenas uma insurreição de sertanejos espoliados nas suas terras, nos seus direitos e na sua segurança. A questão do Contestado se desfaz com um pouco de instrução e o suficiente de justiça, como um duplo produto que ela é da violência que revolta e da ignorância que não sabe outro meio de defender o seu direito”

Último líder dos rebeldes ganhou fama de “demônio”

Adeodato foi morto em 1923, numa suposta tentativa de fuga da prisão.

A Guerra do Contestado começou com um líder considerado santo — o monge José Maria — e terminou com outro tido como o próprio diabo — Adeodato Ramos.

“O demônio está encarcerado”, anunciou em agosto de 1916 o jornal O Imparcial, de Canoinhas (SC), referindo-se à captura de Adeodato, que tinha fama de assassino e era temido pelos próprios companheiros.

O repórter do jornal O Estado, de Florianópolis, porém, se surpreendeu ao entrevistar Adeodato na prisão.

“Nós, que esperávamos ver o semblante perverso de um bandido, cujos traços fisionômicos estivessem a denotar sua filiação entre os degenerados do crime, vimos, pelo contrário, um mancebo em todo o vigor da juventude, de uma compleição física admirável, esbelto, olhos de azeviche [pretos], dentes claros, perfeitos e regulares, e ombros largos”, escreveu, destacando a postura recatada do “célebre bandoleiro”.

O jornal O Dia, de Florianópolis, relatou que ele respondia aos policiais de forma serena e “tinha o olhar suave”.

Adeodato era uma figura controvertida. “É evidente que ele cometeu muitas atrocidades nos redutos, mas não era muito diferente de outros líderes rebeldes”, escreveu o historiador Paulo Pinheiro Machado, ressaltando que houve uma “demonização” do último líder rebelde, alimentada pelos próprios sertanejos.

Conta-se que, no julgamento, após a ouvir a sentença de 30 anos de prisão, o réu declamou no tribunal versos irônicos:

“Para tirar o mal do mundo / Tinha feito uma jura / Ajudei nosso governo / A quem amo por ternura / Acabei com dez mil pobres / Que livrei da escravatura / Liquidei todos os famintos / E os doentes sem mais cura / Quem é pobre neste mundo / Só merece sepultura.”

O cavalo e a viúva

Sobrevivente do ataque à colônia de imigrantes de Rio das Antas, o jagunço Adeodato Manoel Ramos é encarregado de entregar o cavalo de Francisco Alonso de Sousa, o Chiquinho, à respectiva viúva. Adeodato entrega o cavalo de Chico Alonso à viúva e ao mesmo tempo declara a ela que a tomava como esposa. Para não ser infiel à companheira anterior, com a qual havia “casado” no reduto, o novo comandante decide matá-la também.

Cumprida a missão, em Caçador, Adeodato vai conversar com Elias Antônio de Moraes, um dos primeiros moradores de Caraguatá e considerado o guia da Irmandade. Durante a conversa, Adeodato informa que, com a morte de Chico Alonso, ele estava assumindo o comando-geral.

Enquanto se delicia com o novo posto, uma noite Adeodato é possuído por um sonho gostoso e sai dizendo por aí: “Noite dessas o santo monge me apareceu em sonho e ele me ordenou que eu assumisse o posto de comandante-geral.”

Para demonstrar que aceita a ordem do santo protetor de todos os jagunços, Adeodato começa a carregar uma bandeira branca enquanto proclama: “Agora eu sou o comandante-geral. Sou eu que vou tocar a guerra contra o governo, contra os coronéis, ladrões de nossas terras, e contra os peludos.”

Elias de Morais e Maria Rosa não gostam do golpe aplicado por Adeodato. Já assumido como novo e exclusivo líder, Adeodato toma a primeira decisão de “imperador”: manda fuzilar Antoninho, vidente de 20 anos e candidato a comandante, apoiado por Maria Rosa. Um grupo de descontentes com a nova situação também é passado pelas armas.

Para compreender a história

A “História Oficial” é contada a partir de depoimentos de pessoas que vivenciaram aquelas situações, compilados por diversos historiadores, e de algumas poucas matérias veiculadas pela imprensa, principalmente a paranaense, naquela época. Dados oficiais são raros e confusos e não existe um pensamento comum quanto à números, algumas datas e até aos motivos básicos do conflito, na verdade, uma somatória de questionamentos originados da construção da estrada de ferro São Paulo — Rio Grande do Sul e da instalação da serraria da empresa Lumber em Três Barras e Calmon, que resultaram na expulsão dos sertanejos e a consequente agressão aos colonos fixados na região pelo Governo Federal. Isto tudo, aliado à deflagração da Primeira Guerra Mundial, em 1914, que desviou as atenções do país para a Europa, explica a falta de maior esclarecimento sobre a “nossa guerra”, que acabou ganhando proporções gigantescas, porém, divulgada apenas à nível regional.

Ficção e Realidade

Na Série Herdeiros do Contestado, de minha autoria, que proximamente deverá ser transformada em livro, enveredamos na ficção para relatar partes da história não registrada oficialmente ou não suficientemente abordada pelos demais autores. Baseados nos fatos reais de que tomamos conhecimento, os trechos já publicados no Correio do Contestado são livres e romantizados, como forma de trazer uma visão diferente e descompromissada com a “História Oficial”.
Por conta da ficção, fica a descrição da vida pregressa de Henrique Wolland, o Alemãozinho do Contestado, e a escolha desse personagem para exemplificar o comportamento dos comandantes militares dos redutos não foi por acaso.
Foi Wolland, apresentado na História Oficial como um marinheiro que desertou da Marinha Nacional e apareceu nos redutos como fotógrafo, quem comandou o principal ataque a Papanduva e Itaiópolis, empreitada autorizada “ por escrito” pela Virgem Maria Rosa.
Também os relatos sobre a infância e adolescência de Maria Rosa seguem esta mesma linha de romance “imaginado”a partir de narrativas de outros historiadores.
“Abelito o sr. Henrique Wolland, de commandante dos doze pares de São Sebastião da irmandade delle e tendes hordes para ir em Papanduva, Iracema, Lucena e Rio Negro, Campo Alegre município de Joinville e Blumenau para fazer guarda e trancar as estradas destes logares pra combater com os pelludos onde encontrar, quando tiver com percisão de gente combina com outros comandantes, pede ajutório também podendo resgatar de tudo que for perciso para a irmandade, principal almamento e colocar comandante aonde axar necessários. Sendo voluntário tudo e que não abuzes as hordes e tenha fé em Deus e Sãao Sebastião e São João Maria de Agostinho e São José de Maria, que tudo é nada. Maria Rosa, virgem”.

A História não registra a vida amorosa de nenhuma das chamadas “Virgens do Contestado”, no entanto, se Maria Rosa, então com 15 anos de idade, viesse a ter um romance, teria sido com o Alemãozinho, um rapaz jovem, de olhos azuis, “estrangeiro” letrado, de perfil social diferente dos caboclos da região e, principalmente, de visão política bastante apurada e de tanta ou maior valentia, esperteza e coragem quanto os outros comandantes, a ponto de ter recebido diretamente da Virgem a “habilitação” para os ataques às fazendas da região do Planalto Norte. Ao contrário de Adeodato, um jagunço sanguinário que matava pelo prazer de matar, Alemãozinho não era um criminoso nato, apenas tinha o “sangue quente” e não “levava desaforo para casa”, cometendo alguns homicídios em nome da honra, da vingança, da defesa própria ou da causa pela qual lutava e julgava justa.
Outro motivo que nos levou a optar por Henrique Wolland foi o fato de que ele, com sua destacada visão política e social, soube perceber, ao longo da Guerra, quando a “sua” causa e dos seus companheiros jagunços deixou de ser legítima e enveredou para o lado da pilhagem, do vandalismo cruel e sanguinolento e da revolta sem sentido contra o poder dominante que, em análise fria, certo ou errado, era muito mais forte e invencível, tornando a luta desproporcional se comparadas as forças de um e de outro lado. Abandonou e denunciou seus companheiros e isto lhe valeu o título de traidor, mas esse gesto poupou mais alguns milhares de vidas e ajudou a acabar com a Guerra.

As Virgens do Contestado

A “História Oficial” (vamos chamar de História Oficial os relatos verídicos transcritos pelos historiadores à partir de depoimentos de sobreviventes, descendentes e demais personagens reais da Guerra) apresenta, nessa etapa da narrativa, alguns fatos marcantes que nortearam a nossa ficção. Teodora, neta de Eusébio, teria sido a primeira vidente e interlocutora do Monge, na condição de Virgem. Aqui, o termo “virgem” não se traduz apenas como denominativo de mulher intacta sexualmente, mas de “escolhida” pelo Monge que, numa época em que eram poucas as moças de boa aparência que se mantinham incólumes ao assédio tanto dos companheiros de reduto quanto dos vaqueanos e soldados das forças inimigas, tinha a prerrogativa de escolher algumas auxiliares para interpretar e apregoar os seus ensinamentos e decisões. Dentre os preceitos necessários para se tornar uma “Enviada do Santo”, que incluía espírito de liderança, inteligência destacada, fé e determinação, além do “poder” de vidente, a condição básica era que as mulheres fossem jovens e virgens. Assim, as “Virgens do Contestado” eram personagens de grande poder de persuasão entre os caboclos e se tornavam líderes porque tinham a necessária capacidade para transmitir a palavra do Monge.

Massacres e Sequestros

Consta, também, nos relatos oficiais, a descrição de vários sequestros e chacinas promovidas pelos jagunços contra fazendeiros e colonos regularmente instalados.

Em certa ocasião, os homens da propriedade foram assassinados, as mulheres estupradas e um bebê de colo, uma menina, arrancado dos braços da mãe que o amamentava e levado pelos agressores; a mulher acabou ficando louca e passou o resto dos seus dias à procura da filha percorrendo os redutos da região. Não se sabe se a encontrou ou o que aconteceu com a criança posteriormente, nem o destino da mãe.

Trecho de Herdeiros do Contestado

O alemãozinho Henrique Wolland chega à região contestada

…Arrastou seus pertences do jeito que podia por uns trinta metros e, de trás de uma imbuia, ficou a observar os arredores. Gostava muito do seu companheiro de jornada, o Fiel, mas agora torcia para que ele não resolvesse vir procurá-lo justamente nesse momento, trazendo consigo os soldados que, se o encontrassem, com certeza fariam o mesmo que fizeram com os sertanejos acampados pouco antes: matariam -no sem dó nem piedade…

…A sorte e a astúcia deram bom resultado e, quando clareou o cenário, Wolland acompanhou com os olhos a marcha da tropa passando pela trilha, a uns cinquenta metros do seu esconderijo, sem que ninguém desse sinais de perceber sua presença. Fiel, com certeza, estaria bem longe dali, solidário aos outros cavalos fugitivos e protegido por eles, buscando um lugar seguro e um capim macio para saciar a fome.
Conhecendo os instintos dos animais, Henrique apostou consigo mesmo que eles voltariam ao acampamento de onde fugiram e que Fiel estaria com eles pela tendência gregária da espécie; não ficaria sozinho no mato, por mais tenro e fresco que fosse o pasto encontrado na rota de fuga. Também poderia voltar para o ponto de partida, onde deixara seu amo e companheiro, em respeito à forte amizade que os unia; seria outra atitude natural do seu comportamento animalesco.

Mas, o alemão não ficaria ali parado acreditando piamente nessas probabilidades; tinha que verificar o que realmente acontecera naquele acampamento durante a noite.
Aproveitando as rédeas de couro, preparou uma alça adequada para amarrar a mala nas costas e iniciou a caminhada cheia de obstáculos até a estradinha e, de lá, seguiu na direção do povoado que, certamente, estaria totalmente destruído. À medida que se aproximava, sentia um forte cheiro de carne queimada misturado com o odor de sangue, de fezes, de podridão e de carniça. Um vulto humano feminino que perambulava pelo meio dos cadáveres fez com que ele se abaixasse, de sobreaviso, para não ser descoberto. Acocorado, quase rente ao solo, acompanhou os movimentos de uma mulher que, mais tarde, veio a saber tratar-se de uma das chamadas “Virgens do Contestado”, de nome Teodora, a pioneira das interlocutoras e tradutoras das ordens do Monge para os seus seguidores.
Na extremidade sul do acampamento, outra mulher, com aparência de louca, à exemplo de Teodora, chorava alto e gritava um nome que Wolland não conseguia distinguir, aparentemente procurando alguém por entre os destroços humanos. Constatando que não havia mais ninguém em pé, alem das duas mulheres, Wolland levantou-se e continuou a caminhada, sem se preocupar com a sua presença, tropeçando em pedaços de madeira, em sacas de mantimentos, em ferramentas, em restos de casas que ainda queimavam, em montes de entulho; em restos de corpos, humanos e de animais.
Quando Teodora o viu, saiu em desabalada carreira mato à dentro, vociferando impropérios e gritando coisas desconexas, na certa julgando que ele fosse mais um dos soldados ou vaqueanos agressores que destruíram o reduto.
Já a outra mulher, ao perceber o recém chegado, imaginando-o um jagunço, correu em sua direção repetindo sem parar a pergunta que, há muitos meses, fazia a quem encontrasse em seu caminho:
- O siô viu a minha filhinha? O siô sabe onde tá a minha filhinha? Ela é bem pequenininha, é um bebê e eu tenho que achá ela logo, pois tá na hora de dá mamá pra ela. Cadê a minha filhinha?
Depois, baixando o tom de voz:
- Levaro a minha filhinha, tiraro dos meus braço e levaro a minha filhinha.
E, voltando a gritar:
- Onde tá a minha filhinha? Será que Deus levô a minha filhinha?
Agora urrando como verdadeiro animal:
- Filhinha! Onde tá você? Vorte, meu nenê, mamãe tá aqui te esperando.
E, em tom ameno e baixo, quase um apelo:
- Vem mamá, filhinha, tá na hora! O leite tá escorrendo do meu peito, o teu leite, filhinha. Vem mamá. Você não pode ficá tanto tempo sem comê. Vem mamá, vem!

Como Henrique nada respondeu, pois nada entendeu, a mulher continuou zigue zagueando entre os cadáveres, abaixando-se em cada um deles, fosse de homem, mulher ou criança e perguntando:
- O siô viu a minha filhinha? Ela é bem pequenininha, é um bebê e tá na hora de mamá…
Wolland, entorpecido, tentava entender o que via à sua volta e adivinhar a história triste dessa mulher desesperada. O que teria acontecido com ela para ter ficado assim? Sua aparência era horrível, com os cabelos brancos arrepiados e endurecidos pela sujeira, o rosto enrugado pela velhice precoce, todo sujo de terra, as roupas rasgadas e encardidas; uma mulher “judiada” pelo tempo e pela guerra, uma verdadeira maltrapilha em completo estado de insanidade.
Com o objetivo de se aproximar do centro do reduto onde uma cruz ainda permanecia ardendo em chamas, Wolland foi avançando bem devagar, até porque não havia como andar rapidamente devido aos inúmeros obstáculos, desviando aqui e ali de corpos estraçalhados que se espalhavam pelo chão, a maioria de mulheres e crianças, cuidando para não pisar em braços, pernas, cabeças e tripas que se esvaiam de barrigas abertas à golpes de baionetas.
O que ele mais queria, agora, era acordar e ver que tudo não passara de um sonho estarrecedor. Mas não era um pesadelo, era real, aquilo tinha acontecido mesmo e ele estava no meio dessa cruel realidade, era espectador de uma história verdadeira que se desenrolava sob os seus pés.
Henrique Wolland, o Alemãozinho do Contestado, finalmente se transformava em personagem do trágico episódio que manchou de sangue o chão catarinense.
Cambaleante, conseguiu chegar até um toco de pinheiro ali perto e sentar-se para tomar um fôlego e analisar o quadro à sua volta.
Com certeza o ataque tinha sido arrasador, com o objetivo de aniquilar por completo as forças inimigas, mas, por mais sanguinários que fossem os jagunços, nada justificava tamanha crueldade por parte dos soldados republicanos.
Henrique não sabia, mas podia imaginar, considerando o estado de total insanidade da mulher que perambulava por entre os corpos e pelas palavras confusas que ela vociferava em busca da filha raptada de seus braços, que os sertanejos não seriam menos violentos que os militares que os caçavam e que, com certeza, já teriam feito algo parecido contra os colonos e fazendeiros da região, de tal forma que a chacina que quase presenciara e da qual, agora, constatava as consequências, seria uma vingança e um castigo para servir de exemplo aos que ousassem desafiar as autoridades constituídas.
Ouvira muitas histórias sobre o conflito que grassava no planalto e no oeste catarinense, mas sempre achava que havia exageros nos relatos; agora constatava que a realidade era ainda mais cruel do que supunha. Ele não viera para a região para fazer guerra, apenas queria um pouco de aventura e a possibilidade de ganhar dinheiro fazendo fotos. Saíra da Alemanha porque uma guerra estava por vir; fugira da Ilha de São Francisco para não entrar numa guerra contra a própria consciência, tendo como personagem principal a adolescente que desvirginara e um pai desonrado; deixara para trás um ambiente onde se misturavam animosidade e marasmo para buscar algo mais emocionante e surpreendente onde pudesse “ganhar a vida” e preparar seu futuro exercendo a profissão que gostava; tinha o sangue quente de alemão, não refutava uma boa briga e não aceitava “levar desaforo para casa”, mas, o que presenciava agora era muito mais forte, muito mais estarrecedor do que jamais imaginara. Estava no meio de uma guerra verdadeira.

Um alemão contestador

Ele não era um homem frio, sentia emoções e medos como qualquer ser humano normal; não gostava da República e dos republicanos sem saber por que até aquele momento, agora detestava o regime dominante, tinha bons motivos para odiar.
Conferindo o “calendário da memória” atestou que era o dia 22 de junho de 1914; guardaria essa data, pois, provavelmente, seria inesquecível para si e para milhares de pessoas da região, seria um marco importante para a história catarinense e brasileira.
Num repente, compreendeu que era personagem dessa história, ainda não sabia se como herói ou bandido, mas, com certeza, não podia mais recuar, estava inserido no cenário e voltar atrás não lhe era mais permitido pelas circunstâncias.
Vestiu a armadura da valentia e do destemor e começou a vasculhar as cinzas do chão coberto de sangue. Aqui e ali, inúmeros cadáveres de crianças e mulheres, alguns homens mais velhos com aparência de feridos e moribundos, quase todos segurando nas mãos um rosário e estampando nas faces uma fisionomia de serena conformação. Próximo aos seus pés, um corpo inerte prostrado em posição um pouco diferente lhe chamou a atenção.
Era um homem de idade avançada, sem ferimentos aparentes, que não conseguiu permanecer imóvel ante a aproximação do forasteiro; puxou a perna levemente e abriu os olhos esbugalhados, encarando o alemão com ar de desespero. Henrique percebeu que ele estava vivo e, provavelmente, em condições de conversar. Dirigiu-se a ele perguntando com voz amena para não assustar: — O que aconteceu aqui, amigo?

A resposta veio entrecortada por soluços e gemidos, antecedida pela pergunta inevitável:

- Quem é voismecê?

Após a explicação de Wolland, com muita dificuldade, o homem conseguiu passar um quadro geral da situação.

Estava ferido, com uma perfuração na altura do peito, que Henrique não vira na primeira avaliação.

Pouco pode dizer, antes que o sangue começasse a jorrar pela boca, apenas o suficiente para o raciocínio inteligente do Alemãozinho atestar um perfil razoável do cenário que o cercava; em alguns minutos, deixou a cabeça cair para o lado, fitando o estrangeiro pela última vez.

A única frase plausível que ficou gravada na memória de Wolland, repetida, posteriormente, pela tresloucada de cabelos empinados que voltou para perguntar pela filha, foi:

- Fugiro tudo pro Caraguatá!

Henrique ainda tentou conversar com a mulher, mas esta lhe contou uma história muito confusa, de forma atrapalhada e sem intervalos, “disparando” a falar palavras desconexas e repetindo a todo instante:

- Roubaro a minha fiiinha! Roubaro a minha fia! Tiraro ela dos meus braço, nem deixaro ela mamá!

Juntando as informações captadas do velho moribundo e da mulher senil com o seu próprio raciocínio e observação dos fatos, Wolland conseguiu chegar a algumas conclusões razoáveis.

Sentara num toco de pinheiro enorme que, pela cor, deduziu ter sido derrubado recentemente, com corte reto e uniforme, o que mostrava a ação de uma serra; ele sabia da existência de uma empresa madeireira na região, logo, concluiu que não estaria muito longe da tal serraria.

Enquanto matutava em busca de uma localização na área, observou que a grande cruz de madeira no centro do acampamento destruído não estava mais queimando, as chamas tinham se extinguido por completo e ela permanecia em pé, altaneira, desafiando as circunstâncias. Sabedor da presença de monges, profetas, enviados de Deus ou seja lá o nome que se dava aos tais condutores de almas e incentivadores da rebelião, por um momento acreditou que foi uma força divina que apagou o fogo do cruzeiro, depois, com raciocínio mais cético e materialista, decidiu que fora o vento que batia forte nessa manhã fria e ensolarada que apagou as chamas. Entretanto, alguns casebres ainda queimavam, inclusive a própria igrejinha. Por que o vento não apagou as chamas das outras construções?

Pergunta que esperaria o tempo para oferecer respostas; havia muitas outras perguntas nesse momento e, cada qual ao seu tempo, analisaria e tentaria responder.

Já tinha percebido que a maioria dos cadáveres que jaziam esparramados pelo meio dos casebres era de mulheres, crianças e idosos, o que provavelmente explicava a declaração daquele velhinho segundos antes de morrer e repetido pela tresloucada que procurava a filhinha: — foram todos para o Caraguatá!

Então era isso. Os homens adultos, aqueles que tinham condições de lutar, tinham se mudado para um lugar chamado Caraguatá onde, certamente, preparariam o terreno para a mudança definitiva de todas as famílias já imaginando um ataque inimigo ao reduto atual; o que os jagunços não esperavam era que esse ataque viesse tão rápido e os pegasse tão desprevenidos; acabaram, sem querer, usando suas mulheres, crianças e idosos como escudo para sua fuga e isto, ao longo da história, viria a ser motivo de muito ódio e vingança até o fim dos dias. Foi o que o raciocínio inteligente de Wolland concluiu. Sem erros.

Morte serena

Outro dado interessante chamou a atenção do alemãozinho.

Quase todos os mortos conservavam uma fisionomia tranquila, um olhar de quem está conformado com seu destino; como quem já esperava que isso viria a acontecer, cedo ou tarde.

Rememorando informações anteriores, ainda lá na Ilha de São Francisco e no rápido convívio com o estancieiro Carl, não foi difícil para o estrangeiro deduzir que havia uma grande dose de fanatismo religioso entre os chamados Jagunços do Contestado.

Seria isso uma explicação para o fato dessa gente aceitar a morte como alívio para seus males? E a cruz que se mantivera intacta enquanto todas as outras construções desabaram queimadas?

E aquelas mulheres de comportamento insano, o que faziam ali?

Para a louca que procurava a filha raptada Wolland encontrou um motivo, afinal, sua história parecia verdadeira e, nessas condições, outras pessoas teriam o mesmo destino, mas, e a outra, a que se embrenhou na mata correndo como quem foge do demônio?

Com a primeira, pouco adiantaria conversar, pois ela não dizia “coisa com coisa”, estava completamente fora de si, alienada, perdida nos confins do sertão procurando a filha raptada que, provavelmente, jamais conseguiria encontrar. Mesmo assim, como ela não se afastava dele e continuava derramando um rosário de palavras desconexas e frases sem sentido, resolveu ouvi-la, cuidando para filtrar os contos mais coerentes, separando-os dos que lhe pareciam inverossímeis. Desta forma, acrescentou à sua bagagem intelectual sobre o Contestado, muitas informações novas que, mais tarde, poderia confirmar se eram verdadeiras ou fruto da imaginação fértil dessa mulher tresloucada. De tudo o que ela lhe contou, concluiu que sua casa havia sido atacada pelos jagunços, saqueada e incendiada, e que a família toda aderira à força ao movimento, integrando-se ao grupo de sertanejos e mudando-se para o Reduto sob a premissa do “treis taio no palanque, tem treis dia pra acompanhá por bem”.

Como o proprietário não acatou a ordem “por bem”, teve a residência queimada, a criança arrancada dos braços da mãe e todos os pertences levados pelos invasores. Na falta de alternativa e temeroso das profecias do monge, o chefe da família decidiu mudar-se para o Reduto de Taquaruçú levando mantimentos, utensílios, animais e toda uma história de medo e desesperança, e de desapego aos bens materiais que, agora, dava lugar ao fanatismo e à crença de que “dos céus cairia o maná e dos barrancos jorraria o leite que alimentaria à todos com fartura”.

Foi o que o Profeta prometeu e, quem não acreditasse, “queimaria no fundo do inferno para sempre”

Os Doze Pares de França

Depois da adesão ao movimento, um dos filhos homens do fazendeiro, todos rapazes ainda jovens, foi chamado para compor o “Quadro Santo”, dos “Doze Pares de França”, enquanto a mulher, cuja filha tinha sido roubada do seu colo na premissa do “treis taio no palanque”, acompanhava o marido nas andanças pelo mato, ele na cata de pinhão e outras frutas para “matar a fome do povo”, ela procurando a filhinha, levada por alguém que, talvez, quisesse transformá-la futuramente em mais uma das Virgens do Contestado.

Wolland chegou à conclusão de que muitos desses fatos eram reais, apesar da forma confusa do relato. “Taquaruçú” devia ser o nome do local onde se encontravam agora, ele, a mãe desesperada, a mulher que sumira no mato quando ele chegara e aquelas centenas de cadáveres que já começavam a feder e despertar a cobiça dos corvos que voavam baixo no céu azul. Instintivamente, olhou para as nuvens brancas que pontilhavam aqui e ali a abóbada celeste e prestou atenção nas formas que elas tomavam ao sabor do vento que ainda soprava forte nessa manhã ensolarada e fria. Sem querer, deixou-se levar, por alguns instantes, pelo sobrenatural pregado nas profecias do tal monge e procurou distinguir alguma imagem “humana” nas formações celestiais. Distraiu-se por tempo suficiente para não perceber que a mulher louca “fechara a matraca” e desaparecera. Quando se deu conta, estava sozinho no acampamento, sentado no toco de pinheiro, e assim ficou, por longos minutos, analisando a situação.

Olhando para a grande cruz à sua frente, que permanecera intacta ao fogo, mais uma vez deixou-se levar pela crendice religiosa, imaginando a possibilidade de ter sido a mão de Deus, através das orações do profeta, que impediu que o ícone fosse consumido pelas chamas.

Entretanto, não era homem de acreditar no fantástico, no imponderável.

Ainda não.

Aproximou-se do cruzeiro para conferir o “milagre”e constatou que a madeira utilizada, na verdade dois troncos não muito grossos atravessados um ao outro e amarrados com cipó, era de cedro ainda verde, com casca em alguns pontos, plantado recentemente no local. Isto explicava o fato de não ter queimado como as demais construções, todas de madeira seca. O vento facilmente apagou as chamas e preservou o monumento.

Não havia nada de sobrenatural nisso.

A posição do sol mostrava que o entardecer não demoraria a chegar. Nesta época de inverno, os dias são curtos e, quando menos se espera, a noite chega. Era hora de se ali ou se adentraria a mata à procura de trilhas que o levassem a algum lugar, talvez o novo Reduto de Caraguatá, que ele nem sabia para que lado ficava.
Optou por permanecer no acampamento, pois, na escuridão, não teria a menor chance de encontrar qualquer caminho. Estremeceu ao imaginar que teria que dormir no meio dos mortos, ainda assim, era o melhor a fazer. Não sentira apetite até aquele momento, nem poderia; o cenário de corpos desfigurados não convidava para nenhum banquete, mas agora, o estômago começava a reclamar, afinal, desde a noite anterior não comia nada e uma hora a fome aperta. Vasculhando a mala à procura dos seus últimos mantimentos, descobriu que o que tinha não dava para duas refeições, por mais econômicas que fossem. Quase vomitou ao concluir que teria que catar restos de alimentos em meio aos destroços para refazer suas reservas e continuar a caminhada na manhã seguinte, mas não tinha alternativas. Se havia comércio na região, ele não sabia, e, mesmo se houvesse, seu dinheiro também estava acabando. Além do mais, a possibilidade de encontrar casas habitadas por famílias que se interessassem em pagar por suas fotos também se tornava cada vez mais remota, assim, usou o lenço encardido para tapar o nariz e começou a busca extenuante.
Aqui e ali, encontrou pedaços de charque, toucinho, linguiça; disputou um pão escuro com alguns ratos que chegaram antes e levou a melhor numa acirrada briga com alguns cães por um belo naco de carne assada que jazia espetado numa vara sobre um fogão de pedras. As garrafas de aguardente, um rolo de fumo e algumas palhas de milho deram menos trabalho, pois não havia concorrentes para esses produtos, assim como uma velha garrucha meio enferrujada que encontrou por debaixo de uma tábua podre. Não se animou muito com esse último achado, pois, garrucha sem munição não tinha serventia, a não ser para intimidar possíveis agressores, mas resolveu levá-la, mesmo assim.
Não precisou acender um fogo, pois havia muitas brasas ainda ardendo, aqui e ali, apenas juntou alguns pedaços de tábuas secas com tocos de árvores mais grossos para que as labaredas durassem mais tempo e o aquecessem nessa noite gelada que estava por vir. Gostara dos pinhões assados que comera numa das noites anteriores e saiu à procura das frutas em baixo dos pinheiros mais próximos; acabou encontrando, também, um cadáver vestido com uma espécie de capa grossa e longa que se constituía num belo e aconchegante agasalho. Respirou fundo, tapou o nariz com o lenço e, com cuidado para “não machucar o morto”, tirou-lhe a capa e jogou nos próprios ombros. O agasalho era bastante grande, bem maior que o franzino alemãozinho, mas o que não o preocupava agora era andar na moda, bem vestido. Voltou com os pinhões e a capa para o seu fogo, levando também alguns galhos de sapé, que acabaram não sendo necessários, já que o brasido era suficiente para assar os frutos. Por via das dúvidas, cuidaria para não deixar as labaredas subirem muito. Imaginava a possibilidade de, durante a noite, alguém aparecer. Talvez os próprios soldados, para conferir se tinham executado bem a sua tarefa de destruir o reduto, ou então os sertanejos para buscar seus mortos para o sepultamento. De qualquer maneira, melhor seria se não aparecesse ninguém e ele pudesse dormir tranquilo até a manhã seguinte, quando decidiria o que fazer e para que lado ir.

Uma noite bem difícil

Levou muitas horas para “pegar no sono”, pois, a todo instante, “via” vultos perambulando de um lado a outro à sua frente. Procurou se conscientizar que “mortos não andam”, mas, ali, sozinho, “não teve medo de ter medo”, não teve vergonha, pois não haveria ninguém para vê-lo tremer de pavor. De vez em quando entoava algumas preces atrapalhadas, não sabia rezar, não conhecia nenhuma oração completa, nem sabia se devia orar para Deus ou para o monge. Mas, pedia, do seu jeito meio ateu:
- Deus, por favor, me ajuda!
Entre um cochilo e outro, estremecia com a “presença” de alguma alma penada que insistia em chamá-lo:
- Moço, venha até aqui, me tira essa faca do meu peito.
Ou então:
- Hei, amigo. Joga uns galhos em cima do meu cadáver para o monge me encontrar e me levar com ele!
Por mais de uma vez “cagou-se” todo, mas jurava que não era de medo e sim dos pinhões que comera em grande quantidade, alguns meio crus, e isto lhe desarranjara o estômago.
Quando o cansaço, finalmente, ficou maior do que o medo, dormiu por algumas horas e não viu o tempo passar até que, ainda na escuridão, acordou com a nítida impressão que havia alguém bem perto dele, chamando-o. Agora tinha certeza: não era nenhuma alma penada. Num reflexo de auto defesa, pegou a garrucha descarregada e apontou na direção da silhueta, perguntando:
- Quem está aí?
- Não atira, não atira!

A resposta veio em voz feminina.
- Só quero ficar perto do fogo. Estou com muito frio!
Num primeiro momento, achou que era a louca que tinha voltado e ficou com raiva.
- A senhora de novo? O que quer agora?
Fez-se silêncio por alguns segundos, até que a “silhueta” falou novamente:
- Sou eu, Teodora! Não me mate, por favor. Só quero me aquentar um pouco. Não aguento mais de frio.
Henrique percebeu que a voz era, realmente, diferente, da “outra” louca e perguntou:
- Teodora? Seu nome é Teodora?
- Sou a Virgem do Monge, a Enviada!
- Ah!

Gaguejou titubeante sem entender nada, mas concluiu que ela não oferecia perigo e convidou-a para se aproximar do fogo. Aproveitou para colocar mais alguns pedaços de lenha e sentou-se perto dela para conversar…

Elias de Morais, o pai de Maria Rosa

Elias de Morais interpretado por Paulo Matos na Minissérie Guerra do Contestado

Elias de Morais, ou o Eliasinho da Serra era um desses tantos caboclos analfabetos que habitavam os sertões do Espigão.
Isolado nesse mundéu perdido entre vales e montanhas escarpadas da Serra Geral, ninguém sabe de onde veio, onde nasceu, se por ali mesmo, ou trazido pelo destino de algum lugar distante. “Constituiu” família com uma bela mulher, mas a sorte não lhe reservou a opção de uma prole, como tantos dos seus amigos e compadres conquistados nos redutos da vida. Apanhada pelo tifo, a esposa se foi bem cedo, deixando-lhe a tarefa de cuidar da única filha, ainda bem pequena, a quem haviam escolhido o nome de Maria Rosa, sugestão do profeta que passara pela região nessa época remota para que ela fosse conservada pura como a Virgem Maria, a Santa Mãe de Jesus, e doce e valente como a flor — símbolo de ternura e desafio.
Nenhuma flor é tão viçosa e autoprotegida como a rosa, a quem a natureza dotou de espinhos pontiagudos para defender-se de seus agressores.
Quem quiser sentir o perfume da rosa, há que vencer seus espinhos. Quem tem medo de se ferir e sangrar, que não aprecie as rosas, pois elas são assim: doces, ternas, lindas e perfumadas, mas de difícil conquista. Para se chegar ao seu aroma, há que se vencer muitos obstáculos.
E Elias não descumpriu as promessas feitas à esposa no leito de morte; se viva permanecesse, não cuidaria melhor desse único rebento.
Como as roseiras, Maria cresceu e alastrou seu perfume, bem protegida dos predadores da natureza.
A vida foi passando difícil para Elias e a menina-flor. Não havia recursos, vizinhos próximos que pudessem ajudar na tarefa, não havia orientação, pois até o profeta sumira, deixando órfãos pai e filha perdidos nos confins.
Somente a abnegada dedicação paternal proporcionou lastro e estrutura para levar adiante a árdua missão de criar e educar sozinho uma criatura fragilizada, protegida apenas pela própria natureza indócil.
Mas, um dia, o profeta teria que voltar, afinal, prometera isso, e Eliasinho esperaria esse momento para entregar em suas mãos uma menina bem cuidada, foi esse o seu compromisso. E ambos haveriam de cumprir, o andarilho eremita não o desapontaria.
Nessas tantas tardes frias da serra, depois de recolhidas as galinhas no pátio coberto de sapé e a única vaca leiteira na estrebaria, findada a tarefa do dia na roça, Elias, como era seu costume rotineiro, sentava-se à varanda para contar histórias à pequena órfã de mãe.
De baixa estatura, o que lhe outorgara o apelido, orgulhava-se de ter lutado junto ao Monge João Maria lá no Cerco da Lapa, no distante Paraná.
Era, na verdade, um fugitivo dessa guerra sem sentido, mas considerava-se um herói sobrevivente, já que a maioria dos seus companheiros havia tombado ante as armas militares do exército republicano, e passava para a filha essa versão “oficial” mais honrosa para que ela sentisse orgulho dele.
- Nunca perdi uma guerra e ajudei a levar mais de um cento pro inferno. Só não cheguemo na capitar pruque Deus não quis. Nóis era um contra sete, setecentos contra sete mil. Mais, cada um de nóis levô meia dúzia pros quinto. Nóis se escondia na gruta do profeta João Maria, lá na Lapa, e dali ninguém tirava nóis, só na bala. Os cavalo não descia o grotão e os sordado num tinha corage de descê sem montaria, então ficavo lá de cima atirando sem rumo. Às veiz uma bala ricochiteava nas pedra e vortava, foi assim que moreu um dos meus amigo que tava na trinchera.

Muitas vezes, Elias contava histórias para ele mesmo, sem perceber que Rosa adormecia deitada no chão sobre restos de pelegos e trapos e não mais ouvia seus relatos.

Sempre com uma garrafa de aguardente na mão, sem copo, em intervalos de alguns minutos sorvia um gole generoso, olhava a imensidão da floresta para constatar seu silêncio, levantava a cabeça para o céu como a procurar a esposa falecida no meio das nuvens escuras e, sem prestar atenção na criança que dormia no assoalho, continuava a contar seus causos. Invariavelmente, antes do sono chegar, algumas lágrimas furtivas rolavam de seu rosto. Quando isso acontecia, lembrava da pequena aos seus pés e, com esforço, “se segurava” para que ela não o visse chorar.

Então, levantava-se cansado, tomava-a no colo, entrava na casa, acendia o tosco lampião de querosene com o velho avio que “ganhara do comandante por seus atos de bravura”, arrumava com esmero a cama de casal que servira de leito nupcial até alguns meses antes e, com imensa ternura, colocava a “pequena” enrolada nos fiapos de cobertor que ainda restavam dos tempos da esposa viva.

Com o corpo amortecido pela cachaça comedida e cansado do trabalho extenuante na roça, “largava-se” nos pelegos alinhados no chão e nem tinha tempo de remoer o passado antes de cair no sono profundo. Os únicos pensamentos que ainda conseguia remoer, depois da oração noturna, era que, no dia seguinte, tudo seria exatamente igual. A mesma rotina, os mesmos afazeres.

Levantar, assim que o sol mostrasse a cara, acender o fogo, encher a velha chaleira de ferro com água para o chimarrão e o café. Enquanto a água aquentava, lavava o rosto e o sovaco na bica que construíra para trazer o “rio mais pra perto da casa”, jogava uns milhos pras galinhas, apanhava o latão e se dirigia à mangueira onde a vaca mimosa já o esperava para a ordenha.

Muitas vezes, quando voltava, encontrava a menina em pé, avivando o fogo com pedaços de lenha ou se lavando na bica. Repreendia-a, então, pois tinha medo que ela se queimasse no fogão, ou que escorregasse e caísse na fonte de água; preferia que ela continuasse dormindo até ele mesmo ir chamá-la quando o café já estivesse pronto. Tinha um enorme senso de proteção à companheirinha que jurara cuidar e defender com a própria vida.

Uma menina muito esperta

Durante essa primeira refeição do dia, aproveitava para ensinar alguma coisa de religião para a filha, afinal, ela já estava com cinco anos e já era hora de saber um pouco mais da vida. Já se passavam muitos meses desde que a mãe se fora para sempre e, agora, cabia a ele a tarefa de prepará-la para o futuro. Apesar de que nem ele próprio sabia o que o futuro reservava para ambos, confinados naquela imensidão da serra, achava que tinha que manter a esperança de que, cedo ou tarde, o “seu amigo profeta” retornaria e queria que ele encontrasse a menina bem instruída quanto à religião.

Na aritmética, apesar do seu total analfabetismo, era até bom nas contas; aprendera a contar, sabia que tinha no galinheiro 42 galinhas, uma delas ainda choca cuidando de onze pintinhos; três galos, um deles índio, desses que gostam de uma boa briga. Tinha também uma marreca com uma prole de sete filhos, todos saudáveis e bem alimentados pela abundância de brotos do terreiro. O pai, já havia sido transformado numa deliciosa sopa dias antes, num domingo.

Porcos, tinha nove; uma leitoa viçosa, um cachaço que estava na hora de castrar para a engorda e sete porquinhos ainda carentes da mãe que tinha virado banha e toucinho no mês passado…

Uma parelha de cavalos, uma vaca de boa produção de leite, uma novilha esperando a hora do cio (teria que levar para cruzar com o touro do vizinho, a mais de três quilômetros de distancia, pois o seu, havia vendido para comprar café, sal e alguns metros de tecido) e “uns par” de cabritos. Esses, não sabia dizer quantos eram, pois viviam pendurados no paredão procurando comida e nunca voltavam todos juntos para que ele pudesse contar. Mas sabia que eram mais ou menos uns trinta. Cada vez que um estava bem gordo, carneava e salgava a carne para conservá-la por mais tempo, ou então levava para a bodega do Seu Antenor, lá pras bandas do Tamanduá, serra acima, umas duas léguas que perfazia de carroça, para trocar por mantimentos.

Assim, Maria Rosa também já aprendera alguma coisa da matemática, já sabia contar até dez, praticando com os porcos e com os marrecos. O dez era um número infinito, pois havia nove porcos…se tivesse mais um, dizia o pai, seria o de número dez. As galinhas, era um numeral incógnito, pois, multiplicar dez por quatro e acrescentar mais dois, Maria Rosa achava que nunca ia entender.

Na parede da cozinha, o crucifixo pendurado era a inspiração para Elias falar de Deus, de São Sebastião e, principalmente, de João Maria.

Sem querer, passou para a filha que o Profeta era mais importante do que Deus, Jesus Cristo e São Sebastião, pois era ele que ensinava sobre os outros três, portanto, merecia um respeito maior.

Alem do mais, João Maria já estivera ali, enquanto que os outros, só se via nas nuvens e sem ter certeza se era um ou outro. Tanto mais que, nas nuvens, ele procurava com mais fervor a figura da finada esposa, apesar de não contar isso à filha para não gerar mais lágrimas e tristezas.

E Maria Rosa ia crescendo bem assessorada quanto a ensinamentos diversos, protegida, alimentada com certa fartura, vestida com a graciosidade que a mão masculina permitia; feliz, de certa forma, sem sentir tanto a ausência da mãe, e, principalmente, amada.

Fé e valentia

Eliasinho da Serra era analfabeto, mas muito inteligente, criativo, dedicado, honesto e fiel às promessas feitas no último sorriso da índia que os deixara para sempre, levada por Deus e por São Sebastião.

E era valente. Daquelas valentias próprias do homem do sertão, aquele que só conhece o mundo pela versão dos contadores “oficias” da história, personagens vivos que, invariavelmente, “acrescentam um ponto ao contar um conto”. E que ninguém duvidasse, pois, chamar alguém de mentiroso era sentença de morte. E, duvidar pra quê, se ele próprio estivera na Lapa, lutando ao lado de gente famosa por suas conquistas lá no sul, lá “nas farroupilhas”?

De quantas pelegas já havia participado, nem ele sabia, mas eram muitas. E tinha vencido todas, afinal, estava vivo. Quantos inimigos mandou, realmente, para o inferno? Se a Lei era olho por olho, dente por dente, matar para não morrer e bigode para garantir compromissos, por que faria diferente? Tudo bem que o profeta pregava a paz, a conversa para resolver desavenças e o apego às Leis Divinas, mas, o monge não tinha inimigos que pudessem lhe cravar uma peixeira no bucho cada vez que defendesse suas ideias, pois todos o respeitavam como personalidade superior, como enviado de Deus e porta voz de São Sebastião; ninguém questionava seus ensinamentos. Até os padres, os poucos heróis que perambulavam pelo sertão para catequizar os caboclos, preferiam não combater e não duvidar das profecias, afinal, também eles tinham lá o seu respeito pelas divindades que nem conheciam direito. Só mesmo o louco do tal Frei Rogério achava que sua batina mostrava superioridade em relação ao monge. Só porque usa batina, não quer dizer que seja melhor e que seja o dono da verdade! Quem é o dono da verdade? Qual é a verdade verdadeira?

Têm as coisas que a gente vê, têm as coisas que a gente não vê. E as coisas que a gente não vê, tem que acreditar em quem viu.

Quem viu mais coisas, o padre ou o profeta?

João Maria veio de longe, andou por esse mundéu, fez pousada em tantas freguesias, plantou cruzeiros e benzeu as águas, curou doentes, ensinou as pessoas, conduziu crianças ao reino da paz e da religião.

E, o mais importante, ele o conhecia pessoalmente, orgulhava-se muito de ter conversado com ele lá na Lapa, foi acolhido na “sua casa”dentro da gruta, até tomou chimarrão com ele. Como poderia duvidar dos seus ensinamentos? Um homem simples, sem paramentos, servia-se de sua própria coragem e autoridade para pregar a justiça social, o bem estar para todos. Se fosse preciso lutar, que se empunhassem as armas, mas, só depois de exauridos todos os argumentos. Infelizmente, a República não ouvia argumentos, só se quedava ante o medo da revolta, e sufocava qualquer tentativa com fuzis e canhões.

Então, como enfrentar o inimigo que não ouve, só com palavras de esperança e de paz?

A Palavra do Profeta

O Profeta falara, sentado em sua “cadeira” especial, incrustada no paredão da gruta, que as terras pertenciam aos homens que moravam nela, que nela criavam suas famílias, plantavam suas histórias, enterravam seus umbigos.

O Monge João Maria e as Três Virgens

Entretanto, os europeus chegaram, corromperam as almas dos incultos aimorés, misturaram-se a eles, formaram etnias impuras e dizimaram o que sobrou. E estava instituída uma nova nação, a Pátria dos caboclos, agora donos legítimos dessas terras generosas. Isto levou séculos para acontecer. Não foi uma transição pacífica, mortes e dores aconteceram, lágrimas e sangue jorraram, mas, afinal, o verdadeiro homem brasileiro tinha o seu chão.

Faltavam regras, é verdade, faltava um consenso sobre como dirigir suas vidas, faltava aos caboclos saber exatamente o que era bom e o que era ruim para cada um e para a coletividade. Imperava a lei natural do mais forte, do mais esperto, o sertão carecia de espírito comunitário. E Elias aprendeu com o profeta que, se o povo se unisse em torno de um objetivo comum, seus direitos e os direitos de todos seriam respeitados. A terra lhes pertencia porque dela tomaram posse antes dos outros.

A Gloriosa Nação Cabocla

Os Xoklengs se dispersaram, se bandearam pra longe à procura de um novo chão, onde viveriam harmoniosamente com os pássaros, os peixes, as onças, a caça abundante e a fartura da terra.

Mas isto levou muitos anos, gerações, e os homens do final do século dezenove estavam ali, agora, como legítimos herdeiros do solo. Foi a própria natureza gregária dos índios que os levou a saírem. Eram um povo, uma nação, uma etnia de laços indissolúveis entre si, um conglomerado harmônico que, cedo ou tarde, se reuniria em algum canto dessa imensidão. A Nação Cabocla não os expulsara da terra, pelo contrário, fora formada justamente pela mistura de sentimentos e de ideais. Famílias se constituíram a partir dos casamentos entre europeus e botocudos, alguns até consolidados pela lei de Deus através dos padres. A solidão, a carência sexual e afetiva dos bandeirantes e dos exploradores do sertão, proporcionou muitas uniões promissoras do ponto de vista genético entre portugueses e belas índias aimorés. E vieram os descendentes mestiços, meio pardos, meio brancos; um pouco pagãos, um pouco devotos. E formou-se nos sertões uma nova etnia, a gloriosa Nação Cabocla. Sem grandes guerras, sem grandes derramamentos de sangue, ao natural, com forte conotação promíscua, mas estava ali, era um povo; sem os conhecimentos tecnológicos da Europa sofisticada, porém muito mais evoluído na comparação com os nativos xoklengs. E era uma nação.

Acrescentou à sabedoria indígena os ensinamentos religiosos que norteavam os governos, trouxe um parâmetro da presença de um Deus único e verdadeiro a quem se devia adorar. Substituiu ícones falsos, representados por tudo que era incompreensível para os nativos, como o sol, a lua, os trovões, por uma entidade abstrata que ninguém via nem ouvia. Proporcionou uma verdadeira transformação cultural, mudança de hábitos, de credos, de horizontes, nas várias tribos em guerra permanente pela auto defesa de suas raízes e de seus patrimônios; destruiu características, apagou memórias, instituiu a dúvida e a confusão, exterminou tradições.

E estava formada a gloriosa Nação Cabocla dos sertões do Contestado.

Para compreender a História.

O Cerco da Lapa

A divergência teve inicio com atritos ocorridos entre aqueles que procuravam a autonomia estadual, frente ao poder federal e seus opositores. A luta armada atingiu as regiões compreendidas entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

O Cerco da Lapa foi um episódio que ocorreu durante a Revolução Federalista em 1894, quando a cidade de Lapa (Paraná) tornou-se arena de um sangrento confronto entre as tropas republicanas, os chamados pica-paus (legalistas) e os maragatos (federalistas), contrários ao sistema presidencialista de governo. Lapa resistiu bravamente até que os lapeanos, comandados pelo Coronel Antônio Ernesto Gomes Carneiro, caíram em combate. Resistiram ao cerco por 26 dias, mas sucumbiram ante o maior número do exército Federalista. A batalha deu ao Marechal Floriano Peixoto, chefe da República, tempo suficiente para reunir forças e deter as tropas federalistas. Ao todo foram 639 homens entre forças regulares e civis voluntários, lutando contra as forças revolucionárias formadas por três mil combatentes.

A obstinada resistência oposta às tropas federalistas na Lapa, pelo Coronel Carneiro, frustrou as pretensões rebeldes de chegarem à capital da República. A resistência da Lapa impediu o avanço da revolução. Gumercindo Saraiva, então impedido de avançar, bateu em retirada para o Rio Grande do Sul.

Uma Nação Cabocla em Terras Contestadas.

Elias, amigo de João Maria desde o cerco da Lapa, veio par o sul junto com um grupo de combatentes que lutara ao lado de Gumercindo Saraiva e do monge em defesa dos ideais dos maragatos.

Na longa jornada à procura de um lugar para viver e fixar suas raízes, o grupo foi, gradativamente, se dispersando, cada um se ajeitando da forma como conseguia. Muitos se integraram ao projeto da construção da estrada de ferro, outros foram ficando aqui e ali, segundo seus interesses particulares. Elias se tornou um viageiro contumaz, já tinha seus 30 anos, não era mais um jovem e perdeu o rumo quanto aos desconhecidos anseios políticos farroupilhas, mas conservou a índole briguenta e revolucionária formada à partir do convívio com esses contestadores das confusas leis instituídas desde a proclamação da República Federal. Em suas andanças, esteve em lugares distantes, foi até Lages, passou por Curitibanos, Irani, seguiu os ventos que sopravam em todas as direções. Conheceu algumas caboclinhas bonitas, relacionou-se com nativas fogosas, teve decepções e esperanças com polaquinhas imigrantes; finalmente, encontrou a companheira apropriada na figura de uma mestiça encantadora a quem chamava de “minha índia” e por quem desenvolveu laços profundos de amor e cumplicidade. “Assentou o juízo” ali por 1898, casando de papel passado sob o crivo de um padre lá pras bandas do Timbó. Instalou-se numa terra sem dono nos contrafortes da serra do espigão, num terreno relativamente pequeno, dois ou três alqueires, espremido entre os paredões. Era o suficiente para ele e a companheira Berenice, com quem partilhava as tarefas da lavoura e os cuidados aos poucos animais que possuíam. As coisas andavam relativamente bem nos primeiros tempos. Plantavam milho, aipim, feijão, algumas verduras, e tinham sempre uma área maior para o cultivo de couve, pois aprendera com o monge a gostar dessa hortaliça que, segundo o profeta, era muito saudável e oferecia muito vigor físico e mental a quem a consumia. Além do mais, era a comida preferida de João Maria que, em suas visitas, abençoava as plantações de couve das famílias que o acolhiam e lhe serviam tal alimento, por isso os quintais eram sempre cheios de viçosos pés de couve, menos os dos moradores que não lhe recebiam bem. Para estes, poucos, na verdade, o profeta rogava praga e não só as plantações de couve, mas todo o resto, morria à míngua.

Dois Monges ou apenas um?

Elias ouvira, na infância, muitos causos sobre esse profeta. Alguns diziam que ele foi para o morro do Taió e que nunca mais voltou, mas ele, Elias, não era bobo, sabia que o monge fixara residência no Taió após suas andanças pelo planalto e pela serra, e lá permanecera até envelhecer, depois subira aos céus, levado numa carruagem divina, e viera pousar, trazido pelos ventos do sul, lá nas terras da Lapa. Foi lá que o conheceu e não havia a menor dúvida: João Maria de Agostinho era o mesmo João Maria de Jesus e estava, agora, com mais de 180 anos.

Mudara o sobrenome para ficar mais perto do Filho de Deus e para ser melhor compreendido pelo povo. Benzia as fontes, plantava cruzeiros, curava as pessoas e adivinhava o futuro, tudo igualzinho ao que seus pais lhe contaram sobre o primeiro profeta. Pregava a paz. Andava por esse mundéu trazendo a Palavra do Criador.

Era um santo, por isso era eterno, imortal.

Só havia um João Maria nos sertões do Contestado.

O “Compadre” João Maria

Elias e Berenice seguiam com rigor todos os ensinamentos do monge. Aceitaram que ele batizasse a filha e escolhesse o nome: Maria Rosa. Para que ela fosse pura como a mãe de Deus; doce, robusta e de difícil conquista como a flor cheia de espinhos.

Para se colher uma rosa há que se submeter a muitos sacrifícios.

Um dia, com muita tristeza, o eremita fizera uma previsão que deixou Elias e a esposa alarmados e, desta vez, preferindo não acreditar no profeta. Como seria bom se algumas das suas predições não se confirmassem, mas, qual, o monge não falhava nas suas profecias. Ali pelo início do século vinte, Maria Rosa ainda uma criança quase indefesa, Berenice começou a sentir os sintomas do tifo, moléstia das brabas para a qual não havia nenhum remédio eficaz. Nem as ervas, nem as rezas, nem os benzimentos de João Maria, nem toda a fé deste mundo resolveram o problema. Nem toda a dedicação e amor de Elias, nem as necessidades maternais da menina, nem os grandes esforços de ambos seguraram Berenice aqui na terra e ela se foi para o Reino Encantado de São Sebastião.

Já no leito de morte, suas últimas palavras foram a promessa de que ficaria perto deles, nas nuvens, de onde olharia e cuidaria de Maria Rosa e de Eliasinho.

Elias pai; Elias mãe

Os anos se passaram. Elias foi pai e foi mãe. Foi professor, companheiro, até colega nos folguedos infantis. Quando o monge aparecia, dava muitos conselhos, instruções, deixava uma verdadeira cartilha registrada na cabeça inteligente do caboclo. Sempre que precisava, nos inevitáveis problemas de saúde por que passam todas as crianças, vasculhava o cérebro e tinha sempre uma solução, um chá, uma “garrafada”, uma simpatia e, principalmente, uma reza adequada para cada situação. Sua fé era grande e, sempre que o desânimo chegava, apegava-se ao “santo”, sabia que ele não lhe faltaria. O Peregrino não errava nunca. Acertara até o que todos preferiam que errasse, que Berenice não viveria muitos anos entre eles. Predissera, também, que Maria Rosa seria uma guerreira, uma condutora de almas e de corpos, porta voz de suas ordens e conselhos. Que, ainda mocinha, levaria o povo ao paraíso, a um lugar encantado onde não faltaria comida nem abrigo, onde o leite desceria dos barrancos, o maná cairia dos céus e a fartura brotaria do solo fértil, sem necessidade de plantar. Seria só rezar e colher. E acreditar.

Então, se o profeta dissera isso, era porque Rosa teria muita saúde, nenhum mal lhe atingiria, viveria sob a proteção divina de Deus, de São Sebastião e dele, João Maria, até chegar à idade adulta, até poder ser sua intermediária e transmitir suas orientações ao povo.

E que ninguém contestasse suas ordens, pois eram ordens do santo eremita que tudo podia e que nunca errava.

Maria Rosa aos sete anos

Maria Rosa da Serra tinha sete anos quando recebeu a bênção pela última vez do profeta João Maria de Jesus que, aos 188 anos, desapareceu definitivamente da região, dizendo que iria refugiar-se no Morro do Taió e que, se Elias precisasse, deveria procurá-lo na sua última morada. Não tinha mais condições físicas de perambular pelos sertões e, agora, só atenderia os fiéis que se dispusessem a ir pedir seus conselhos lá na “sua casa”. Prometeu, também, que em breve voltaria em outra condição, que reencarnaria em um substituto, determinando que os caboclos seguissem as ordens do novo profeta que os conduziria aos caminhos da paz, mesmo que houvesse a necessidade de guerras para atingir seu objetivo final: um lugar sagrado e definitivo para enterrarem seus umbigos.

E João Maria de Jesus subiu ao Morro do Taió, de lá, pegou “carona” na Carruagem Celestial de São Sebastião e foi morar nas nuvens, de onde continuou a comandar seus fiéis cá da terra, devotos fanáticos que o viam em todos os lugares, como se Deus fosse, e que “sentiam” sua presença onipotente em todos os momentos difíceis porque passavam em suas lidas cotidianas.

E Maria Rosa, menina, se tornou sua interprete maior, tradutora de ordens e desejos, de visões e premissas do presente e do futuro. Anos mais tarde, condutora de almas e de corpos.

O Pequeno Mundo de Maria Rosa

Maria Rosa interpretada por Annelise Mileo na Minissérie Guerra do Contestado

Havia no pequeno mundo de Elias e Maria Rosa, além de muitas outras árvores frutíferas, um convidativo pé de araçá, com seus galhos lisos e confortáveis, bifurcados e quase horizontais, que ofereciam muito conforto e segurança para alguém sentar e ficar observando os arredores. Essa árvore fora plantada pelo profeta, em uma de suas primeiras visitas à família, quando Berenice ainda era viva, e se tornara um refúgio especial para a pequena menina logo na sua primeira produção dos deliciosos frutos. Não era muito grande, mas ficava numa elevação, bem acima do restante do pomar e da horta, o que possibilitava um visual bastante amplo de toda a propriedade e de uma boa parte da serra com seus morros esfumaçados. Rosa dividia esse cantinho especial com vários pássaros, principalmente sabiás que, logo de manhãzinha, se aglomeravam no local em busca das frutas amarelas e bem maduras. Não disputavam nem o espaço, nem as frutas, pois havia grande abundância do alimento, suficiente para todos. Pelo contrário, ficaram muito amigos e até conversavam, trocavam ideias e projetos, cada um no seu linguajar. Maria Rosa se acomodava na forquilha preferida, enquanto as aves, que podiam voar, se penduravam nos ramos mais finos e distantes do tronco. Às vezes, os sabiás até pousavam nos ombros da menina, brincavam com seus cabelos e beliscavam carinhosamente seu rosto com seus bicos delicados. Perfeita harmonia entre irmãos, todos filhos de Deus e, provavelmente, devotos de João Maria.

Galinhas, Cabritos e Sabiás

Quando os frutos acabavam, depois de algumas semanas, os sabiás sumiam e deixavam a menina muito triste, pois não tinha com quem conversar, senão seu pai, Elias. E este, apesar de até procurar entrar no mundo ainda infantil da filha, não tinha lá muito jeito para o romantismo nem para as fantasias. Conversar com passarinhos não era, com certeza, tarefa normal para um adulto, pai de família, ainda mais que, com a morte da esposa, endurecera seu coração para essas coisas.

Era, sim, muito amigo e companheiro de Maria Rosa, mas não tinha cabimento ficar tagarelando com uma menina de nove ou dez anos sobre o belo por do sol visto da propriedade, sobre o azul celeste das montanhas da serra, sobre sabiás ou qualquer outro pássaro, sobre roseiras ou pés de araçá. Ver seus cabritos escalando os paredões próximos era uma coisa interessante, sem dúvida, principalmente para poder contar quantas cabeças havia, qual era o valor do seu patrimônio, qual deles estava mais gordo e pronto para a carneada, mas não da forma como acontecia com Rosa, que também gostava de contar nos dedos das mãos e dos pés, e faltavam dedos, quantos eram os animais que se penduravam de forma tão engraçada e corajosa nos barrancões, mas só para exercitar sua matemática e seu aprendizado. Claro, o espetáculo em si era muito bonito, havia os brancos, a maioria, outros pretos, alguns meio marrons e outros quase tão amarelos quanto os araçás maduros de semanas antes.

Algumas cenas sempre lhe chamavam a atenção quando, pela manhã, se acomodava nos galhos do pé de araçá. Bem cedinho, as galinhas cacarejavam anunciando a postura dos ovos, e ela, consciente de seus deveres domésticos, corria para o pátio para recolher o valioso alimento; como paga pela doação, apanhava uma caneca de milho e, com as mãos, distribuía o cereal para as simpáticas penudas. Curiosa, perguntara ao pai por que as galinhas, já que tinham asas e penas iguais aos sabiás, não voavam como eles. A explicação de Elias não a convenceu de todo e, um dia, para tirar suas dúvidas, carregou uma das galináceas árvore acima e soltou-a, do lugar mais alto onde conseguira chegar, para ver se ela voava. Até que a galinha não se saiu tão mal, pois não caiu verticalmente ao chão, voou alguns metros e estatelou-se no solo de forma bisonha e engraçada, arrancando muitas risadas da arteira menina. Ela não voa como os sabiás, concluiu. Por que? Levaria alguns anos para entender.

Imagens Celestiais

Lá de cima, da forquilha preferida, um lugar estratégico que lhe permitia girar e olhar os arredores em todas as direções, estudava o cenário e fazia suas considerações inteligentes. Sempre havia alguma coisa que lhe despertava mais atenção. Se o sol nascia logo, bem brilhante, adivinhava um dia claro e bonito, mas, se o céu continuasse cinzento e descolorido, sabia que a chuva, com certeza, viria, geralmente em forma de garoa fina e insistente, fenômeno típico do meio da serra. Raramente a chuva era forte e torrencial, quase sempre nos dias menos frios do verão, antecedida por um sol mais “ardido”. Conhecia a natureza, de tanto observar. Procurava nas nuvens, por sugestão do pai, imagens humanas, na busca pelo rosto da mãe Berenice, ou da carruagem na qual o profeta subira aos céus, desde o morro do Taió, mas o que via eram formações indefinidas que não pareciam nem um pouco com a figura da mãe. Talvez lhe faltasse fé, como explicava Elias, ou uma interpretação mais atenta das formações, fato é que, apenas ao entardecer, quando o sol ficava gigantesco e sorridente no horizonte e o céu manchado de cores púrpura, vermelho e alaranjado, ela conseguia distinguir a figura mais querida e mais saudosa de sua vida. Nem dava muita importância à carruagem, aos cavalos dos guerreiros do Contestado, ao monge barbudo que estava sempre segurando um cajado, com seu chapéu em forma de cone. Fixava seu olhar na figura inconfundível de Berenice e tinha certeza: lá estava sua mãe. Então ela chorava, derramava lágrimas copiosas entremeadas de soluços desesperados pela saudade e brigava com Deus Pai Todo Poderoso, que respeitava e temia, mas que não isentava da culpa de ter levado sua mãezinha tão cedo.

Por que você não volta, mamãe, por que não vem me buscar? Eu queria ficar com você e com papai juntos. Por que tem que ser assim?

Nessas ocasiões, Elias, depois dos últimos afazeres da lavoura, sempre aparecia por perto, tomava-a pela mão e a levava para dentro de casa. Procurava consolar a doce e sofrida criatura com palavras afetuosas e promessas de que, se Deus quis assim, era porque tinha reservado algo melhor tanto para ela quanto para a finada esposa. E que o Profeta haveria de voltar e a levaria com ele para o paraíso, pois estava predestinada a ser especial, a ser Rainha e condutora de almas e de corpos, mesmo que isso ainda demorasse mais alguns anos.

Anos difíceis

E os anos se passavam rapidamente.

Muitas coisas aconteceram na vida de Elias e Maria Rosa. A relativa fartura de que dispunham aos poucos foi se dissipando, na medida em que Elias ficava mais velho e menos disposto para o trabalho pesado. As colheitas já não eram tão compensadoras, pois a terra enfraquecia em sua fertilidade tanto quanto as forças do caboclo que a preparava para o plantio. O velho cavalo do arado já “estabelecia regras” para seu desempenho, puxando o equipamento só quando queria, ou quando Elias, irritado, o açoitava com o chicote dolorido, então, contra a vontade, gingava o corpo e seguia a caminhada cansativa, mas não com a mesma desenvoltura, o que comprometia a produtividade na hora da colheita. Como consequência desse desânimo de homem e animal, o milho ficava escasso e os porcos não engordavam tão bem, as galinhas falhavam na postura e até os cabritos, aparentemente, ficavam mais magros, embora não dependessem dessa ração, pois procuravam seu próprio alimento nas encostas das montanhas.

Durante longos três anos, quando Rosa já chegava aos doze, a solidão de pai e filha foi deixando a vida mais triste, o abandono a que eram submetidos nesse canto esquecido da serra deixou as coisas difíceis e as “ideias malucas” de largar tudo, juntar os trapos e se juntar aos demais caboclos no acampamento mais próximo foi tomando conta de Eliasinho, até porque o monge já o aconselhara a fazer isso. Comungava com o profeta o grito de liberdade e de união de forças contra o mal que significava a recém-criada República, que sufocava os ideais de toda uma geração de sertanejos, que lhes tirava o livre arbítrio de viver como queriam e gostavam, que lhes impunha suas leis injustas e mercantilistas, que lhes usurpava o direito à propriedade, à fé e às suas crenças primitivas.

Adulta Precoce

A menina Maria Rosa crescia sem escola, sem mãe conselheira e amiga, sem jamais ter conhecido outras meninas da mesma idade que lhe pudessem fazer companhia e participar de seus sonhos e de suas ilusões. Tornava-se, gradativamente, muito retraída e responsável, já que apenas o pai e o profeta testemunhavam seu comportamento. Tudo o que uma criança ou pré-adolescente não faz sozinha, mas se encoraja de fazer na companhia de outras molecas, ela não tinha oportunidade de exercitar. Isto tudo a tornava uma adulta precoce, absolutamente responsável e sensata. Seus diálogos, suas conversas informais só aconteciam com o pai e com o monge, além de um ou outro visitante que raramente aparecia, sempre adulto, e Maria Rosa viu a infância passar sem ter sido criança, sem o direito aos folguedos próprios dessa fase da vida, da forma natural das outras pessoas. Seus companheiros de lazer eram os cabritos, os porcos, as galinhas e, principalmente, os pássaros, e com eles exercitava seu espírito de liderança.

Autoridade incontestável

Tinha absoluta autoridade com os animais e com as plantas, mas nem sempre estes a obedeciam. Ficava irritada quando “determinava” a um deles que viesse mais perto, que não comece tal espiga de milho, que não pisasse naquela planta, que não invadisse a horta, que não trepasse em locais perigosos e eles desdenhavam suas ordens. Às vezes tinha até vontade de dar uma surra no leitão rebelde que se afastava da mãe ou de açoitar o cabritinho que teimava em subir numa pedra enorme e lisa do paredão de onde poderia cair e estatelar-se no solo.

Tinha vários interlocutores, a maioria submissos e bem comportados, mas sempre havia um rebelde, um amiguinho que não concordava com suas ideias. Os passarinhos e os outros animais “tinham” que seguir suas ordens e ela não admitia desobediência. Tentava criar algumas proibições como castigo, mas nem isso dava certo. Eles não a respeitavam como ela gostaria e isso a deixava triste e frustrada. Entretanto, como tinha uma índole muito generosa e compreensiva com os outros seres que habitavam o seu mundo encantado, logo esquecia as mágoas e, na manhã seguinte, lá estava ela, sorridente e acessível aos carinhos e agrados dos seus subordinados. E, assim, passavam-se os dias, as semanas, os meses e os anos e Maria Rosa crescia cada vez mais adaptada às circunstâncias que a cercavam. Aos 13 anos, pensava e agia como uma pessoa adulta, como se já tivesse 25. Aos 13, estava pronta para o mundo exterior, que viria a conhecer dentro em breve.

Adeus ao paraíso

E foi num mês de junho que Maria Rosa deixou seu paraíso particular para se aventurar no Reduto do Taquaruçú, acompanhando a decisão do pai Eliasinho e do profeta conselheiro José Maria, o Monge Guerreiro do Contestado, que ressuscitara do Taió.

Custou muito para ela entender porque o monge havia mudado tanto de aparência. As visitas de João Maria de Jesus eram raras, talvez uma ou duas vezes por ano, mas ela guardava na memória a figura carismática e alquebrada do velho profeta. Nos últimos tempos, entretanto, ele não dava o ar de sua graça. Estava doente, dizia o pai, refugiara-se no morro do Taió para, de lá, subir aos céus na carruagem de São Sebastião. Passara-se um inverno rigoroso com as geadas branqueando os paredões, viera a floração das roseiras silvestres, os butiazeiros amadureceram e o seu pé de araçá voltou a atrair as visitas dos seus simpáticos amiguinhos, os sabiás, as rolinhas e as juritis, e nada do profeta aparecer. Sentiu saudades, gostava do velhinho que a tratava com muito afeto, que a pegava no colo e lhe falava de Deus. Certa vez, deu-lhe de presente um rosário com o qual rezava o terço todos os dias, por recomendação do monge, para que sua mãe tivesse uma vida feliz na eternidade, junto ao Criador.

Um Profeta diferente

João Maria de Jesus marcou sua vida para sempre e não lhe foi fácil aceitar o seu substituto, um profeta mais jovem, cheio de energia e de ideias revolucionárias que convencera tanto a ela quanto ao pai que era o mesmo santo de anos antes. Rosa era uma menina esperta e assimilara as lições oferecidas por Eliasinho e pelo velho andarilho. Adquirira uma forte religiosidade e aprendera que as pessoas não morrem definitivamente, que apenas seus corpos viajam para o infinito e o espírito retorna tempos depois, nem sempre com a mesma aparência anterior. Se é assim, questionava, por que minha mãe não vem me ver? Aceitara que Berenice um dia voltaria, em algum lugar, e que ela poderia reencontrá-la, cedo ou tarde, talvez em outra figura, que ela teria que reconhecer. Relutava em deixar o seu mundo encantado da Serra porque, pela sua lógica inteligente, seria mais fácil a mãe retornar para a sua casa, para o seu mundo, onde passara os últimos anos de sua vida terrestre.

Mas, diante das muitas dificuldades que enfrentavam, com a miséria batendo à sua porta, com as ameaças de serem expulsos a qualquer momento do seu chão pelos “homens da estrada de ferro”, pelos colonizadores do odioso governo republicano, pelos soldados armados do Exército Nacional ou, até mesmo, pelos próprios sertanejos que se uniam em redutos e procuravam, por bem ou por mal, por convite ou pelos “três taio no palanque”, levar os moradores esparsos para um acampamento onde, unidos, teriam mais força para lutar contra os invasores, Maria Rosa da Serra acabou cedendo aos argumentos do pai e obedecendo suas ordens sem questionar, até porque de nada adiantaria se rebelar. Era moça independente e determinada, mas não ousaria se indispor contra seus superiores. Concordou em seguir para o reduto, mas demorou muito para aceitar que José Maria era o mesmo João Maria de Jesus.

Reencarnado, para comandar com mãos de ferro a resistência sertaneja.

A esquerda: Monge João Maria interpretado por Nautilio Portela na Minissérie Guerra do Contestado. A direita: A pintura retrata o encontro de Maria Rosa com o Capitão Matos Costa.

Tempos de mudanças nos Sertões do Contestado

O Brasil vivia uma nova fase política e administrativa que marcaria a sua história para sempre.

Lá, nos corredores dos gabinetes no Rio de Janeiro, decidia-se o futuro dos cidadãos como se estes não tivessem direito de escolher por eles mesmos seus destinos. Deodoro da Fonseca e seus parceiros, anos antes, instituíra uma nova forma de governo, baseada na força dos seus exércitos e no autoritarismo do “presidente” que, na visão saudosista da maioria dos brasileiros, usurpara o poder do Imperador. Revoluções e levantes aconteceram, o descontentamento da população ganhou proporções gigantescas, mas a famigerada República, benéfica para meia dúzia de militares, persistia forte e indissolúvel. Mudanças administrativas que, na estratégia desenvolvimentista do novo governo, só trariam benefícios para o país e eram bem aceitas pelos empresários capitalistas e líderes políticos, eram vistas com ressalva pelo proletariado e pelas classes mais pobres, principalmente das regiões mais distantes que não tinham acesso às informações da imprensa, censurada e manipulada pelo poder dominante. Qualquer movimento popular que pudesse colocar em perigo as instituições, ainda vulneráveis, eram rechaçados pelas armas sempre prontas a defender e proteger a “Constituição Republicana Democrática”.

Canudos foi um exemplo de rebelião contra as instituições, sufocada a ferro e fogo pelo Poder Militar. A conotação religiosa de Canudos foi, também, uma demonstração do descontentamento do povo inculto e fanático que não aceitava as coisas da forma como lhes eram impostas.

No sul do país, diferentemente do nordeste de Canudos, o colonialismo nacionalista colocou “mais lenha na fogueira” dos fanáticos caboclos da região do Contestado, já “batizados” pela insurreição dos farroupilhas rio grandenses contra a abusiva cobrança de impostos e os prejuízos causados pela facilidade oferecida à importação. Os gaúchos dos Pampas chegaram a instituir sua própria “República” para defenderem seus direitos ao livre arbítrio, mas sucumbiram ante a maior força do Poder Central. E a Nação Cabocla do Contestado, ao contrário dos gaúchos, queria criar um “Império” apenas seu para defender os direitos às terras contra a colonização imposta pela República dos Marechais. Veio a estrada de ferro, veio a exploração da madeira pela Lumber, vieram os colonos estrangeiros, e os caboclos foram sendo empurrados para terras distantes e inférteis, o que sobrava da invasão colonialista. E a revolução só não aconteceu antes porque não havia meios de comunicação entre as famílias, não se conseguia aglomerar forças contra o mal que se implantava no Contestado Catarinense. Então, apareceram os profetas, que vieram e se foram, e veio o Monge Guerreiro José Maria, e a Estrada de Ferro abandonou seus milhares de empregados que povoaram o sertão de miséria e revolta.

Que se juntaram aos milhares de caboclos fanáticos, incultos e desesperados.

Que se uniram aos bandidos, aos fugitivos das leis republicanas, aos jagunços excluídos dos farroupilhas, aos dissidentes do próprio Exército Nacional.

Que se armaram, que se instruíram militarmente, que criaram motivos religiosos e que instituíram, eles mesmos, a proteção divina para seus pleitos.

E o sangue começou a correr nos sertões do Contestado.

E a adesão ao movimento era espontânea, ou era nos treis taio no palanque.

Terra sem dono e sem Lei

O planalto norte, o oeste de Santa Catarina e o sul do Paraná se tornavam, cada vez mais, terras sem dono e sem lei na visão dos forasteiros que aqui chegavam, vindos de todos os cantos do Brasil, mas, para os caboclos que se fixaram décadas, até séculos antes no território contestado pelos dois Estados, cada chão é um Lar, uma Pátria inexpugnável, e está sendo invadido pelos estrangeiros com a omissão e, principalmente, a colaboração do governo central da República que quer entregar as terras aos imigrantes mais cultos e capazes de desenvolver o progresso na região.

Devidamente documentados por títulos de propriedade concedidos pelo governo dos Marechais.

Nem foi preciso o “treis taio no palanque”…

Eliasinho e a filha Maria Rosa não precisaram aderir ao movimento jagunço ameaçados pelos treis taio no palanque, treis dia pra acompanhá.

A miséria já batia à porta do seu “mundo encantado da Serra”. Não só a miséria, mas a solidão e a falta de perspectiva de futuro, além da iminente invasão de novos colonos mandados pela República, ostentando títulos de propriedade das terras que eram suas de direito, mas que, nas leis do mais forte, pertenciam a quem trouxesse documento assinado por algum manda chuva da capital, Florianópolis.

Assim, colocaram os poucos trapos que podiam carregar na velha carroça, formaram tropa dos cavalos, a vaca, os porcos e os cabritos que “aceitaram” se juntar à caravana, deixaram para trás a saudade, as lágrimas e as tristes lembranças de um mundo outrora promissor e se puseram na estrada rumo à Taquaruçú…

A esquerda: Guerra de Canudos: Antonio Conselheiro morto. A direita: Guerra de Canudos: Mulheres e crianças, seguidoras de Antônio Conselheiro, presas durante os últimos dias da guerra.
A esquerda: Guerra do Contestado: Suposto túmulo do Monge João Maria. A direita: Guerra do Contestado: Cemitério do Contestado e Irani SC

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