Eu nunca vou aceitar as derrotas da vida
“O mundo nem sempre é feito de alegrias ou vitórias, muitas vezes vamos nos deparar com a dor da derrota e da incapacidade diante dos problemas que nos cercam.”
Minha infância sempre foi humilde, meus pais não podiam me dar presentes caros e nem mesmo as coisas que eu sempre desejava ter, mas não tinha coragem de pedir: Livros.
A leitura era minha felicidade, eu adorava os livros didáticos e passava horas lendo as matérias que eu iria estudar na escola, a ponto de aprender todas elas antes dos meus professores as ensinarem. Esse comportamento de adiantamento sempre me rendeu boas notas e até mesmo me levou a ser um “pequeno prodígio”.
Na adolescência eu agia como um babaca arrogante, ignorando os outros e exibindo uma pose de “gênio superior”, os professores e colegas me detestavam e eu tratava a todos de forma sarcástica e invasiva, ferindo meus pais e colegas.
Os anos de escola se passaram, eu terminei o ensino médio, consegui uma vaga na universidade e comecei a cursar Análise de Sistemas, algo que eu não havia pensado antes, mas que se adequava muito bem às minhas aptidões. Nessa época eu tinha 16 anos e não era sociável, meus amigos eram pessoas sarcásticas e arrogantes, vivendo a vida como se fossem melhores que todos ao seu redor.
No momento em que entrei na faculdade meus pais deixaram claro: “Não vamos poder te manter, você terá que trabalhar desde o primeiro dia de faculdade!”. Eu aceitei o desafio, meu primeiro trabalho, desesperado, despreparado, sem conhecer o mercado de trabalho, adentrei esse mundo complicado e predatório… Não foi tão bom quanto imaginei.
Meu estágio era na área de tecnologia da informação, eu passava 6 horas em um laboratório de informática, com uma chefe, que para dizer o mínimo, era uma pessoa difícil de se lidar.
Na faculdade tudo ia bem, eu adorava o curso, aprendia coisas novas todos os dias e me sentia feliz com minha escolha, era bolsista, isso me deixava um pouco envergonhado, afinal eu era um jovem egoísta e arrogante… totalmente ignorante.
Meus “amigos” não tiveram a mesma “sorte” que tive ao conseguir uma bolsa, eles cursavam uma faculdade pública e com uma estrutura bem ruim, costumavam me apresentar aos seus conhecidos como “O bolsista”. Foi uma época que me mostrou como verificar, rapidamente, quem é amigo e quem é colega de temporada…
Os dias, os meses, os anos se passaram… Eu consegui um trabalho estável, um concurso público de baixo nível de escolaridade com um salário abaixo de dois salários mínimos, mas que me permitia ficar bem financeiramente… Apenas financeiramente.
O trabalho ficava muito longe de casa, eu começava a falhar na faculdade, meus amigos eram intoleráveis a ponto de eu me afastar completamente deles e no fim, cansado de todos os problemas eu cometi o primeiro erro imperdoável da vida… Eu desisti do meu curso!
Meus pais não se importaram, ninguém disse nada, todos apenas me olhavam com um olhar de incapacidade, um julgamento implícito ou um comentário crítico “construtivo”. No ano seguinte tentei o vestibular para o curso de Matemática, passei, cursei dois meses, desisti novamente… Dois anos depois tentei Matemática novamente, acreditava que dessa vez estava pronto, foi nesse ano que eu conheci minha atual melhor amiga e a pessoa que eu mais confio no universo…
Mas não foi tudo tão bem, a amizade ficou, o curso? Ambos desistimos, nos demos bem por nos enxergarmos claramente, nos sentíamos perdidos e abandonados e mais uma vez desistíamos por não conseguir lidar com as pressões, com as tensões, com a sociedade…
No ano seguinte eu tentei Economia, era aquilo, eu iria me dar bem, era um curso amplo, interessante… Faltavam professores, a estrutura da universidade ia e mau a pior, enfim, desisti…
Passei a ser conhecido como “O Desistente”, todos se referiam a mim assim, sem exceção eu ouvia diariamente as pessoas comentarem meus fracassos, muitas vezes em minha presença, sem nem se importarem se aquilo me afetava.
Foi em um dia sem esperança, um dia de trabalho estressante como qualquer outro, um tempo onde eu só pensava em desistir, mas dessa vez desistiria de tudo… Tudo… Uma professora me olhou e disse: “Você é tão inteligente, tem uma visão incrível de mundo, é jovem e esperto, por que não cursa engenharia, por que não segue um caminho de realizações e deixa esse lugar que está te fazendo tão mal?”.
Eu não respondi ela, sorri vergonhosamente e sai, ali estava mais uma vez o destino me colocando em uma encruzilhada, um jogo de verdades vergonhosas que me faziam enjoar… Eu seria capaz de deixar tudo, aceitar uma vida de dependência, vivendo sem o mínimo de condições pra comprar nem mesmo o meu almoço no outro dia? Eu seria capaz disso pra investir meu tempo em mais um curso que talvez, ou muito provavelmente, eu desistiria e abandonaria, dessa vez sem outros meios pra continuar a viver?
Meus pais resistiram a ideia até o último minuto, era inconcebível um homem de 24 anos desistir de seu trabalho, estável, pra perseguir uma ilusão! Eu me inscrevi no ENEM, fiz a prova, e passei a falar convictamente a todos do trabalho:
“Este é meu último ano aqui, eu farei Engenharia Eletrônica, ano que vem não seremos mais colegas de trabalho!”
No mês de novembro, época de grande atividade no trabalho, minha chefe, que já me desrespeitava diariamente, fez anotações em meu registro de ponto, perseguindo-me, obviamente por não aceitar bem minhas declarações de que eu não continuaria por lá no próximo ano. Tive uma conversa séria com ela, deixei claro minha desaprovação pela atitude antiética dela, abandonei meu trabalho e pedi minhas férias.
Tentaram me manter no cargo público por mais alguns meses e eu aceitei, cada vez pior, mais deprimido, desgostoso com a vida… Um dia antes do resultado do SISU, larguei tudo, não disse adeus, apenas me exonerei!
No dia seguinte veio a notícia… Eu fui aprovado, eu era oficialmente acadêmico no Curso de Engenharia Eletrônica, eu realmente poderia fazer engenharia? Eu era capaz? Eu sempre acreditei que aquele era um curso pra pessoas destinadas a ter grandes carreiras… Mas eu não sou uma pessoa destinada!
Tive dificuldades, pouco dinheiro, tendo que mendigar os fundos da passagem e da alimentação, minha mãe aceitou, a contragosto, me apoiar, até hoje ela ainda resiste a ideia…
Descobri que os 6 anos que passei pulando entre cursos e sem reforçar os meus conhecimentos me deixaram longe do conhecimento necessário pra um acadêmico de Engenharia, os outros alunos são recém formados, alunos de cursinhos por anos, muitos ainda demonstram a arrogância adolescente, aquela fase pela qual passei e que me faz detestar pessoas assim.
Lidar com o curso, com os colegas, com os professores, muitas vezes é difícil pra mim, eu penso em desistir todos os dias, dessa vez desistir de tudo… da vida… Mas eu ainda quero tentar, se eu reprovar, se eu me desanimar eu aceito ficar retido um semestre, eu espero, passei a acreditar que, apesar das adversidades, eu posso continuar tentando, incessantemente, até conseguir!
Eu vou cair, vou ter que suportar as “crianças” fazendo piadas sobre minha idade, minha baixa instrução diante deles, meus modos de se vestir ou rindo da minha roupa velha e rasgada. Tudo isso tenta me puxar de volta para aquela sensação, aquele momento, o ponto onde eu digo chega e desisto… Mas eu tenho esse compromisso comigo, o acordo de continuar incansavelmente, cair e levantar mais forte, não deixar o destino me controlar novamente.
Essa história está começando, apesar de todo esse prelúdio eu acredito que a vida vai ser muito mais divertida quando eu enfim entender meu potencial, ser capaz de aceitar minhas limitações e finalmente olhar, com os ombros retos, com a cabeça erguida, com olhos firmes e voz confiante e dizer:
“Ninguém vai me parar, agora é minha vez de vencer! Eu nunca vou aceitar as derrotas da vida!
Eu não sou um derrotado!!!”