Olga ( III )

Uma nota:

Olga voltou para o seu país, sua ilegalidade aqui neste já completaria 1 ano. Por isso ele arrastou os pés daqui?
 Espero que por lá, quando Olga desembarcar, esteja um clima ameno, que a cidade lhe receba com flores e ela demonstre sua saia Jeans. Deus! Como ele fica linda naquela saia Jeans. Como ela fica linda naqueles olhos turvos-esverdeados. Como ainda ficam lindas suas fotos coladas no teto sobre mim. Sua flor descansa em meu caderno. Como ela não ficou?
 
Faltou esta memória:
Olga amava flores. — Desculpe-me — Olga ama flores. Cacei algumas nos jardins vizinhos, depois de sua partida, algumas dessas que nascem nos canteiros, roubei meia duzia. Cinco não duraram, apodreceram-se, perderam a tez da manhã em suas peles-pétalas, enferrujaram-se. Flores enferrujadas pela solidão. Se respiram, sentem-se sozinhas, não é?
Sobreviveu uma, somente uma. A mais dissonante, por sinal. Não era branca, muito menos enferrujara-se, não era a melhor dentre as seis, mas o sol adorava sua pele-pétala, que por sinal pareciam unhas que cortavam a luz saltitante da janela e eu não soube como não ama-la. Olga. Enrugaram-se, com o tempo, as pétalas e o corpo também logo em sequencia. Infelizmente eu tive que guarda-la. Eu tive que guarda-la, infelizmente.

Espero que Olga largue os cigarros, continue a usar seus óculos, deixe a clavícula à mostra somente para ocasiões especiais e que nunca deixe que descubram as constelações em seus sinais pelo corpo. Pela cidade, nos ônibus e metrô, nas ruas desgastando seus sapatos, queimando olhos alheios com seu cabelo cor de sol eu espero que não reparem em suas pernas, em suas longas pernas pálidas. Eu espero que não a toquem onde eu toquei, eu espero que não apaguem a marca do meu beijo em sua coxa, eu espero que não encostem na sua bunda, que não deslizem os dedos sobre o relevo de sua costa, que não passem a língua pelo seu pescoço. Eu espero que não possam sorver seus pequenos mamilos rosados. Mas, nem a chuva resiste àquela infernal boca rubra. Que a beijem! Foda-se, que a beijem! Que a toquem! Porém, nunca como eu.

Rios e pássaros, árvores e o céu, um estranho, um balanço sozinho. A cidade notará quando Olga por os pés em sua terra, talvez seus pais resolvam juntar-se para busca-la no desembarque e ela os abrace e no caminho para casa ache a saudade escondida que tinha do lugar, da sua piscina infantil, das corridas pelo parque central, do seu pai tocando violão, dos amigos que lhe ignoravam, lhe excluíam, da sua solidão — Não!- . Aquela casa não é mais sua, algumas lembranças ainda doem. O mundo já sente sua falta. Talvez seus vizinhos lhe deem boas vindas e ela não dê a minima. “O mundo é seu e você é tão sua”, ela sabe.

Aquela máquina fotográfica talvez ainda aguente uns anos, talvez dure pouco se fitar, com sua lente, Olga constantemente. Ainda irão eternizar-se no papel-foto muitas estrelas, flores, seu próprio rosto. Se precisar, depois de um tempo, troca-se a lente. Assim ainda irá eternizar-se no papel-foto o mundo outra vez. Seus poemas fotografados.

Sobrancelhas recém tiradas, olheiras rasas, obsceno riso acenando-me em frente ao portão, com uma voz de 1980 e um emaranhado de fios sobre a cabeça. Tudo some entre fumaças e buzinas tão de repente e outra vez, a terceira nessa semana. Onde compra-se novos olhos?

O cinema de sua cidade ainda a espera, como se Olga tivesse ido comprar a pipoca. A tela sorrirá discretamente ao perceber seus pés mastigarem o chão da sessão. Encontros de velhos amigos. Constantemente viam-se, aquela sala escura era a sua viagem, sua nuvem, seu transporte. Olga lembará de quando a tela lhe transmitiu algo incrível: O fim do mundo. Onde dois planetas consumiam-se. O fim do mundo que Olga mais apaixonou-se. “O mundo é mau, ninguém vai sentir falta dele”. O mundo é mau, minha Justine. Às vezes, eu te odeio tanto.

A essa altura o avião deve estar chegando. Por lá é dia ou noite? O sol tocará seus fios de cabelo com toda certeza, nem que para isso ele queime o resto do mundo, Olga rasgará a luz com suas unhas. O céu tão perto das mãos. Algo ilumina sua alma, seu signo de Abril. There is a light that never goes out. Certamente alguém naquela cidade irá sorrir, Olga e sua saia jeans.

Tantas pessoas caíram em seu leito sem lhe dizer. Aquelas intermináveis veias à mostra, infernais olhos bentos. Alguém que já foi tanta coisa, mas agora está sem tempo. Olga. Nem o Oceano foi capaz de não se entregar.

E eu? Eu durmo agora, agora que a luz do dia come a escuridão de pedaço em pedaço. A janela dorme de olhos abertos. Do outro lado da rua alguém com Sobrancelhas recém tiradas, olheiras rasas, obsceno riso acenando-me, com uma voz de 1980 diz “Dorme bem”
 — Dorme bem, honey.

Fim.