Quid pro quo, Olga. Quid pro quo. (I)

Olga apareceu após um ano, voltou na carona em um velho Palio cor de prata. Seu cheiro ainda era o mesmo, as estrelas, junto com a cor e o quase longo cabelo cor de sol.
 Quando vi Olga, não vi, fingi, contei os dedos dos pés. Assustou-me aquelas unhas ainda grandes, a boca em naturais medidas cercadas por um vermelho batom, o espaço dos seus pômulos que ainda guardavam o seio do seu riso, os olhos verdes que devorariam um planeta inteiro em menos de 10 minutos — devoraram-me por míseros e eternos 7 ou 8 segundos-. Eu não parava de fita-la.
 
 Quando Olga decidiu ir embora eu não esperneei, não perguntei por que, não suspirei pelo seu ultimo beijo, aceitei apenas. Chorei 3 dias após.

Era o ano de 2012 sobre a lua de uma sexta-feira, eu nunca tinha tragado um cigarro de maconha antes — engasguei-me e desisti na terceira chance-. Da rua sopravam-se fumaça, meus olhos avistaram miragens coloridas, senti como se o céu tornara-se tangível, como se eu voltasse o tempo e por instantes senti-me feliz de novo.
 
 Meus pais deram-me estrelas, estrelas que brilhavam na ausência da luz. Eu tinha sete anos e jurava que elas tinham vida, pois me livravam da solidão do quarto escuro, apenas faltavam-lhe nomes. Como se soubessem dos meus medos, as estrelas brilhavam até eu fechar os olhos e após isso me diziam docemente — dorme, meu menino.

Eu disse aos meus amigos que queria realmente ficar bêbado e dançar, sem mesmo nunca antes ter dançado, então escolhemos uma casa de festa qualquer. Aproximei-me de inúmeras mulheres que colavam o corpo no meu e depois se afastavam. Eu não sabia o que dizê-las e muito menos como beija-las. Voltei ao bar, tomei uma dose de vodca misturada com não sei o que, fui ao banheiro e saí da festa. Por ter que esperar os amigos que me acompanhavam aproximei-me do bar mais perto, onde tocava uns Rocks ingleses, sentei no balcão e pedi uma long neck qualquer. A música que tocava enquanto ela batia os dedos no copo e chorava, eu não entendi, como nunca entendi a cor do céu e as estrelas. Era Olga. Seu rosto misturado com suor e lágrimas, sua boca em vermelho batom. Se eu soubesse sobre ela eu teria sofrido de amor antes, eu teria ido à rua antes, tentando fumar um cigarro de maconha e dançar, eu a teria encontrado a mais tempo. No principio não perguntei seu nome, nem o numero telefônico, apenas reposicionei seu óculos enquanto ela bebia seu Uísque caubói.
 
Olga, seu rosto eu nunca mais confundiria pelas ruas entre os tantos outros.

“Ah! Minha honey baby”. Era da musica que ela escutava e cantava depois dos nossos corpo exaustos do sexo. Não fumava ainda, mas nunca entendi porque perdia tanto tempo olhando para aquela parede vazia. Sem quadros, sem fotografias, sem tevê, sem os nossos nomes.

A sua meia calça gasta eu conheci 1 semana após o primeiro encontro. Ela chamou-me para dançar. “to die by your side is such a heavenly way to die” eu não pensei em nada além de nós dois e meus dedos desenhando agora sobre o seu corpo. Descobri que Olga cheira a flores, mas não doce. Descobri o All Star que não combinava com o vestido. Descobri que sua clavícula à mostra é o caminho dos lábios, beijei-a. Amei o gosto da sua vida. Ela não estava apaixonada, mas não saberia sumir do meu campo de visão. Não entendeu, sentiu raiva inócua, abraçou-me.

A culpa era dela, o amor era meu. Quis lhe escrever alguns livros com nossas historia em detalhes, nossos alguns meses de “sei la o que sinto”, alguns meses de “me abraça e não vai embora, não agora, deixa pra amanhã, pra depois do meio dia”. Eu descreveria seu temperamento, os pés, as pernas esguias, o corpo que brincava nos meus braços, o rosto em riso, os cabelos cor de Domingo, teus pelos, teu rosto, tudo. Cazuza e aquela musica que eu te cantava. Agora sempre saia para fumar e se isolava naquela varanda curta durante horas.

No trabalho agora eram só cansativas torres de papeis, onde o dia só melhorava ao ver Olga dormir sobre a cama, a cada 3 em 3 dias que ela pedia para ficar — em um quarto metódico de uma casa bagunçada -, com um compasso de respiração que não decorei. Assim como não pude encontrar explicações para a linha tão perfeita de sua franja às 3:45 da manhã. Ela cortava sozinha, frente ao espelho do banheiro, a pia lhe denunciava. Eu não reclamei. Ela deixou a luz do sol entrar pelas persianas, feito o seu cabelo entrelaçado em mim.

Olga não disse-me Eu te amo, lia seu horóscopo por diversão enquanto a água do chá fervia. Nós jantávamos juntos com certa frequência — que eu particularmente amava -, eu cozinhava para nós dois. Lavava as louças e a perguntava sobre seu dia, às vezes eu não entendi sua gíria. Olga falava fugitiva durante os 3 primeiros meses. Depois acostumei-me com sua voz ressoando pela sala. Eu lhe dizia que a sua mania de bater os pés no chão produzia um som capaz de me entreter, como quando ela cantava “tua viagem sou eu”. Ouvi suas crises de choro e me fiz de forte. Carreguei Olga de festas. Ela dizia-me — Quid pro quo, honey. Quid pro quo. Ela amou o meu amor pelos seus defeitos. Olga era o nome que faltava às estrelas do meu quarto, que sabiam dos meus medos, que me deixavam dormir em paz.

Os fins não explicam nada. Não houve explicação com a qual me fizessem calar, ou entender, ou consentir. A sala foi embora, foi embora a casa inteira. A pia na qual eu lavava a louça dos nossos jantares ora quente, ora morno, ora falante, ora quieto, ora morto. Eu já desconfiava daquele silêncio há mais de uma semana, já desconfiava daqueles olhos há mais de um mês, tínhamos nos perdido no caminho de volta da praia? Minha roupa amarrotada, meus olhos mais escuros que o normal me denunciaram logo nos 3 primeiros dias. Não dormi, pensei nela, o meu medo do escuro voltou, de ficar só. Quem brilharia no breu?

Olga é do mundo, como ela disse no bilhete deixado sobre o aparador da sala. Doeu.

Honey,

Sou do mundo, tu bem sabes. Obrigado pelas momerias memórias. Eu parto sem itinerário, não tente me seguir. Você foi incrível, honey.
Mando lembranças se puder. Eu volto qualquer dia para tomar meu chá que você iria oferecer-me esta manhã, volto para ser questionada sobre o meu dia. Você realmente cozinha bem. Eu amo o jeito que você amou os meus erros.

J.