O Tolo

Ninguém se interessa pelo tolo e suas tolices. Ninguém se importa em não fazer do tolo ainda mais tolo. O tolo é como um cão que abana seu rabo a espera de carinho de quem o alimenta e as vezes só ganha isso, ou apanha, ou ganha um pequeno afago, ou nada. Mas o tolo-cão sempre espera com alegria que da próxima vez venha carinho e amor. Espera o tempo todo, sempre perseverante, sempre alegre, sempre tolo. Não dá pra ser meio dono de um cão, não dá pra manter um tolo satisfeito, pois é a carência de todas as carências reencarnadas, não-supridas, doentias, acumuladas. Ninguém quer manter o tolo, mas ele sempre está lá do lado, esperando sua parcela de atenção diária. Porém faz tudo errado, implora, faz cara de cão sem dono na porta da padaria, exige e nada tem. Ninguém se interessa pelo tolo, até descobri-lo assim pode até parecer muito bom, mas uma vez o percebendo como é, logo tudo no mundo parece melhor, mais instigante. Há muitos tolos por aí e eles nunca se encontram, só farejam os espertos, pois despertam seus sentidos. Começa então a segui-lo como se cheirassem a carne fresca, coisa boa, sempre há de nutrir. Mas não é bem assim, todos se cansam do tolo e tem pena de abandoná-lo, então só o deixam num canto, abanando seu rabo como se fosse invisível. O espertos temem ser consumidos por seus tolos, pois querem ser amados por eles, mas sem ter que amar de volta. Querem que sejam leais, mas que não precisem sê-lo de volta. Querem que nosso interesse nunca acabe, mas ele se cansam facilmente e vão caçar outras coisas, talvez outros tolos pra manter. Um tolo novo pra distrair é sempre empolgante de se conseguir. Mas os espertos também farejam outros espertos e assim podem descobrir um meio de gerir-se ainda mantendo seus tolos fieis. Como tolo eu estive feliz, cegamente em minha empreitada, cada dia mais dedicada e sem querer descobri o esquema… E agora não sei mais quão tolo estive sendo.