O Menino dos Olhos Vazios

"Era pra ser comum... era pra ser natural... era..."

Todos já estavam dormindo quando eu ouvi um canto,
um canto entoado pela voz de uma criança que emanava o espanto.
Um canto que era mais como um choro,
era notável sua voz perdida no desconforto do apavoro.
Levantei de minha poltrona e segui aquela voz,
ela cantava algo tão pessoal, não era só dela... era sobre nós.
Suas palavras saíam com esforço,
trêmulas o bastante para serem corrompidas em um simples esboço...
Esboço de um desejo que não foi tão desejado,
esboço de um sorriso lindo e abandonado.
Entrei no corredor e o som se tornava mais forte, e quanto mais eu avançava, mais vazio eu me sentia;
cheguei na porta do banheiro com minha dúvida e curiosidade doentia...
Lá estava ele, virado para a parede, respirando lentamente,
o cântico foi substituído pelo silêncio, havia apenas o vazio entre a gente.
Suas mãos cerradas começaram a se abrir,
lentamente, com seus ombros que decidiram seguí-las.
Eu não conseguia dizer nada, só assistir à toda aquela angústia encarnada que um dia me pertencera,
decidi não fazer nada, até que eu visse sua face por inteira.
Ele começou a virar lentamente, eu percebi que suas roupas estavam rasgadas, 
estavam sujas e, com uma faca na mão direita, percebi que ele também tinha decisões abandonadas - ou adiadas.
Largou a faca e ela se lançou ao chão,
como um suspiro de alívio por não penetrar em mais um coração.
Então ele se virou por completo e seus olhos focaram nos meus com tal intensidade que não há palavra capaz de descrever;
inclinou sua cabeça para a lateral, relaxando os lábios e deixando uma lágrima escorrer.
Eu me aproximei, me agachando tirei a faca de perto,
sorri com meus olhos mostrando que ele fez o certo.
Então, as mãos pequenas dele tocaram meu rosto,
e o vazio que senti no momento que entrei no banheiro, se comparado, era tão pouco.
Agora, de fato sentia o nada, o sabor do nada, o olhar do nada, o toque do nada, eu era o próprio nada absoluto;
ao fechar meus olhos, ele me disse em soluços:
"Meus pais... meus pais brilham nos céus... 
meus pais eram meus, agora são dos céus e, nós… somos réus...
réus do abismo que eu...nós somos;
réus na angústia que eu...nós temos.
Quando crescemos... é normal sentirmos... nada?
Bem-vindo é o olhar que sorri; bem-vinda é a voz que me afaga."

Abri meus olhos como pedras que tapavam a passagem de um rio,
as lágrimas desenhavam nossos rostos, desenhavam o vazio.
"Meus pais... estrelas... por quê o céu é tão distante?"
Deu-me um abraço com traços de cuidado,
senti sua presença não só em minha frente, mais em minh’alma e por todos os lados.

"O olhar puro e intenso de uma criança,
abre portas que vão além de uma simples mudança."

Eu retribui a esperança, com um abraço vivo,
a simbologia foi além de um incentivo.
Não tenho noção de quanto tempo fiquei...ficamos ali, sendo o nada e pensando em tudo,
foi como se saíssemos da órbita terrestre, como se não estivéssemos mais nesse mundo.
Até que ele se afastou lentamente e, cantando,
seu canto lúgubre ia ecoando... em minha mente.
"Acoordas tu dormes tanto..."
Cantando mais e mais fraco:
"Acordas... tu dormes tanto..."
A voz ia se perdendo no espaço:
"que eu não posso... dormir..."
Ele ia voltando para a foto:
"Ac-odas... tu dormes... tan-to..."
Meu rosto lavado, minha boca colada, meus olhos cerrados, não havia o que fazer...
ele voltou para o pequeno retrato antes que eu pudesse dizer...
De joelhos no banheiro, com um retrato del...meu,
a faca já não tinha o mesmo papel, eu me sentia enfim... eu.
Com os mesmos olhos vazios, eu procurei...procuro entender;
com a mesma mente confusa, eu procuro compreender.
Ele voltou para sua casa, sua confusão;
uma canção, uma foto, memórias... lembranças podem trazer algo além da emoção momentânea, dando para nossas almas a renovação.


A criança que você foi, se orgulharia do adulto que você é?


Escrito na minha conturbada noite de 07/02/2017, pela chuva de memórias que um álbum fotográfico me trouxe.

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