Estrada
Sigo esse caminho há pouco mais de cinco anos. Conheço ele como a palma de minha mão. Diferentemente das pessoas que me acompanham. Eventualmente tenho a companhia de meu pai, quem eu talvez conheça menos que os desconhecidos que ocupam as poltronas adjacentes. Como de costume não interajo com outros seres humanos a não ser que por extrema necessidade.
Pode parecer estranho até para mim mesmo, mas já gozei de companheira certa para essa viajem, o que não desfruto a cerca de um ano, porém antes que esse texto se transforme em uma série de lamentações sobre minha vida amorosa e psicológica, devo seguir em frente. Tal como a viagem.
Tortuoso e estreito é o caminho que me leva para a “cidade grande”, por lá me cerco de pessoas e me sinto sozinho, porém é melhor ser um item avulso do que um defeituoso dentro de uma família.
A medida que a noite fria adentra encurta-se a viagem, o cenário bucólico povoado por cavalos e bois vai dando espaço a rios fétidos, pessoas podres e monóxido de carbono.
Sinto falta dos meus fones de ouvido para ouvir minhas músicas ruins, sem ele só me resta escrever essas linhas ruins. E mesmo que possuísse um aqui, de nada adiantaria, pois meu telefone após tantas quedas e após ser violado por tantos fones diferentes não os reconhece mais, e só permite que eu ouça música compartilhando-a com os que me cercam.
Não darei a eles esse prazer. Muito menos a esses estrangeiros de terras tão próximas à minha, as quais só conheço de passagem. Tenho o prazer de nunca ter tido o desprazer de conhecer essas cidades.
Estações de trem transmutadas em rodoviárias, seus trilhos, há muito dormentes e soterrados sob o asfalto e paralelepípedos, vêm a tona em seus arredores em busca do reconhecimento de outrora. Porém são mais desprezados que sinalização em passagens de nível.
Já é noite e só me é revelado aquilo que a luz dos faróis tocam. Apesar de conhecer a paisagem do entorno é possível fechar os olhos e se imaginar em uma capsula cruzando lentamente a galáxia, atravessando cinturões de asteroides e sobre a influência de turbulentas forças gravitacionais.
As paradas do são vistas de passagem, e acredito que somente por mim. Devido ao contraste criado pelas luzes de emergência é possível perceber que não sou o único a utilizar o celular. Talvez o único usado como ferramenta para um trabalho intelectual? Não sei. Mas na minha cabeça faz bem pensar que sou melhor que os outros. Na realidade faz mal, e também eu não sou. Eu sou a pior das pessoas.
De volta ao tema e a cidade de destino, Suas luzes já se apresentam no horizonte,
como uma nebulosa a milhões de anos luz.
Quantos quilômetros e pessoas já percorremos sem nada ser dito? Quantos ainda restam?
A viajem tem um prolongamento dentro da cidade. O caminho até o bairro é o antagonista de nossa história. Curto e claro não toma 5% da distância, porém abocanha 1/3 do tempo.
Profusão de luzes, sons, pessoas e freadas.
Deixo aos físicos teóricos as especulações do que acontece após a minha saída deste turbulento transporte.
π
Ponto final.
Para mim.
Pra os demais
…
