Eu fiz hambúrgueres quando você teve pneumonia*

  1. A vida mediana do protagonista

O mais comum é que seja um quadro de autopiedade e consequente compaixão do espectador ou leitor. Ele é menos reconhecido do que deveria, e esse é o segredo que o protagonista compartilha conosco. De certa forma, ele sabe disso, ele não é um estranho ao seu próprio talento, pelo menos não durante toda a narrativa (ele pode esquecer disso em alguns momentos ou até percorrer uma trajetória de descoberta do seu próprio valor). Deve haver um sentimento de protagonista contra o mundo, leves injustiças. Geralmente, ele é escritor ou acadêmico, mas pode ser artista plástico, arquiteto, quadrinista, quem sabe até policial.

Pode ocorrer de o protagonista ser reconhecido em vida, premiado, admirado. Se este é o caso, então ele nunca é deslumbrado. Isso é coisa de idiotas. Ou ele é estoico, ou blasé, ou simplesmente está tão acima de tudo e de todos que sequer percebe seus privilégios. Ele é tão especial que passamos desapercebidos por seus ternos finos, seu apartamento maravilhoso, as pessoas que o servem.

O Cidadão Ilustre

2. A companheira é vilanizada de alguma forma

a) Ela pode ser pouco atraente. Ser pouco atraente já é ser vilã, afinal ela está fazendo mal ao protagonista pelo simples fato de não se importar com a aparência, ter envelhecido. Aqui ocorre o arremedo narrativo de o protagonista do nada decidir que não quer uma mulher feia (como se fosse possível esse homem ter ficado com essa mulher por obrigação), ou ter cansado da mulher velha e chata, como se ele não fosse velho e chato. A diferença, é claro, é que uma mulher envelhecer prejudica esse homem.

b) Ela pode ser medíocre e envergonhar o protagonista. ele acadêmico, ela dona de casa, e inúmeras versões desses papeis. O importante é que ele é uma preciosidade admirada e a existência dela estraga a sua persona. As narrativas poderiam explorar o que levou essa mulher a ser do jeito que é, e será que ela não tem nenhum interesse, nenhum valor? Mas não, geralmente os roteiros são construídos a nos levarem a compartilharmos da vergonha alheia por ela e do constrangimento do protagonista.

c) Ela pode ter cansado do protagonista. Essa parte é interessante porque dificilmente ela vem sem adultério (ou um romance engatado logo em seguida). Nessa corrente, bem comum atualmente, parece ser a tentativa do homem branco indie de se inserir em narrativas com personagens femininas fortes, mas qual não é a surpresa de perceber que o caminho escolhido não é muito diferente de seus antecessores, porque a vilanização continua, por assim dizer, permanece a ideia de que homens têm motivos nobres para a estupidez que for, mulheres são caprichosas e manipuladoras. É curioso que as histórias de homens adúlteros são infinitas também, mas dentro dessa linha existe um grande número de homens fieis que vão para a “farra” depois de traídos ou uma defesa de “família a qualquer custo”, que seria algo como o protagonista dizer que suas traições nunca levaram à ruína do núcleo familiar, logo ele estaria certo e a mulher, errada. o homem, mesmo quando adúltero, é um nobre defensor do quadro marido, mulher e filhos.

d) Ela pode competir com o protagonista. essa linha argumentativa costuma vir junto com o cansaço do item c. Pode ser que o protagonista tenha incentivado sua mulher, e agora é amargurado porque ela o superou, ou então ela conseguiu os méritos sozinha e ele está amuado porque passa por um inverno pessoal. de qualquer jeito, somos levados a defender que as mágoas do protagonista são justificáveis. É natural ele ter inveja da sua parceira, às vezes puxar seu tapete, seja com sabotagens práticas ou o mero jogo emocional de que ela está sendo negligente com filhos, compromissos familiares, ou ainda ser egoísta diante do iminente sucesso da mulher e seus próprios fracassos. somos levados a não nos perguntarmos porque não seria natural o apoio mútuo e felicidade pelas conquistas do outro em vez disso, isso ocorre porque, novamente, os desvios do homem branco hétero sempre são relevados e justificados porque ele é o rei do mundo, o protagonista último sem a menor possibilidade de se imaginar em um lugar que não seja o centro.

A Lula e a Baleia

3. Os filhos são conveniência

Existem as narrativas em que os filhos são meros apêndices da mulher, logo se ele a abandona para curtir a vida, descobrir o mundo e a si mesmo porque somente ele tem direito a tal experiência, a mulher jamais, então não surgirá nenhuma cobrança em relação às crias.

Em alguns casos, a figura paterna aparece nos aniversários, Natal, uma apresentação escolar. E será prontamente idolatrada pelos filhos. Vamos percebendo que a vontade do homem branco protagonista (narrando a si mesmo, estaríamos todos simplesmente sujeitos a essas projeções torpes de autores medíocres?) de ser idolatrado em todas as esferas de sua vida, e seu desparafusamento quando isso não ocorre. Não haverá cobrança de uma postura paterna.

Se houver alguma cobrança, ela poderá ser incluída na narrativa como aporrinhamento despropositado da companheira ou ex. Porque o genial protagonista em seu metier não deve ser perturbado, sob a pena de o mundo desconhecer sua obra essencial.

Ou ainda, no caso do homem abandonado, teremos a eventual situação em que ele agora cuida dos filhos, provavelmente em guarda compartilhada ou em alguma situação limítrofe, tipo a mãe partir para um retiro de meditação da Índia. Melhor se for algo que deixe bem claro a negligência materna. E veremos o pai tentando o seu melhor para lidar com os filhos, e seu progressivo avanço. Mais do que isso, nos casos de marido abandonado você verá os filhos endossando o coro da culpabilização da mulher (e então ela implora perdão não para uma pessoa, mas para duas, ou três).

É engraçado que isso ocorra de maneira simultânea à vilanização da mulher que decidiu ter uma vida própria (em diferentes níveis). Porque jamais há o questionamento revisionista de que talvez as responsabilidades sobre os filhos devessem ter sido compartilhadas desde o nascimento, e uma eventual culpabilização do protagonista com a atual partida da companheira. Mas sentir-se culpado por erros passados é uma coisa demasiado feminina e altruísta para que esse tipo de protagonista o faça.

Então, ou o protagonista é um pai ausente e mesmo assim amado, ou é esforçado e somos levados a achar o máximo dos máximos sua empreitada na paternidade, como algo excepcional. Nesse caso, seus esforços são um calvário adorável imposto pela vilã.

People, Places, Things

4. Existe uma presa ideal

Na linha de projeções que o autor faz de seus desejos e frustrações na obra, existe a presença de uma moça jovem e bonita que quer transar com ele. E vai, mesmo que de primeira ele mostre alguma inclinação moral para recusar as empreitadas dela. Isso é importante, ela que vai atrás, não queremos ver esse protagonista tão vítima do mundo e das circunstâncias como alguém que persegue algo moralmente questionável. Em alguns casos, ele será até encurralado para efeito cômico e ao mesmo tempo de justificativa para o feito. A mulher mais velha, ou algum amigo, terá inveja da menina jovem, jamais achará ridícula a sua postura.

É importante que a jovem seja um caminho para as autodescobertas do protagonista. Ele precisa aprender com a experiência de tê-la. Se ela é, além de uma presa, uma admiradora, é uma tiete no sentido mais raso, não terá apontamentos interessantes, uma apreciação crítica real e transformadora para o protagonista. Pode ser um contraponto à ex, que não admirava mais o companheiro de forma cega (e isso é errado, não admirar o homem branco medíocre é errado). Se fizer comentários, serão estúpidos ao nível do pastiche, ou então tidos como cricris pernósticos. De qualquer forma, o protagonista não irá sequer levar isso em consideração. É tido como justificável e correto que ele queira apenas sexo. Ela é uma ferramenta para o trabalho mental (magnânimo, intocável) do protagonista.

Pode acontecer que a jovem tenha o protagonista como uma espécie de pai, ou mentor, e então a figura dele cresce ainda mais. Não se achará bizarra essa mistura de papeis. O importante é que o surgimento de mais uma personagem feminina não acarrete em ameaça ao reinado do protagonista. Ninguém pode desafiá-lo, em especial, no que ele tem de mais precioso: seu intelecto, sua sensibilidade artística e sua vitimização diante do mundo.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

5. Ou existe uma segunda opção

Uma moda antiga que ainda permanece era que a jovem tiete fosse uma prostituta, alguém que mediasse a experiência do protagonista com o “mundo real”. É claro que existe a justificativa já citada para a traição no relacionamento monogâmico do protagonista não ser condenável, além disso sempre é tido como uma linha tênue o envolvimento com prostitutas.

Há também a dicotomia santa x puta. A separação, para as mulheres, do prazer sexual e da vida doméstica. Isso pode ter muitas origens e desdobramentos: o relacionamento claramente maternal que alguns protagonistas desenvolvem com suas companheiras, as infindáveis expectativas que se colocam sobre o comportamento feminino. O desejo masculino de posse da sua mulher.

Assim como a moça jovem, a prostituta é uma ferramenta para o desenvolvimento individual do protagonista, com a diferença que ela, pela diferença social, jamais pode entrar no mundo da intelectualidade de forma plena. Ela ainda pode também ser instruída pelo cliente dessa forma. É importante frisar que ela não será qualquer prostituta, como ele não será qualquer cliente. Ela irá ser mais uma a se encantar por ele, e ele será alguém que tratará a prostituta com um quê de especial. Não é raro que o protagonista salve a prostituta de algo ligado a seu universo (de um cliente violento, da própria prostituição). É preciso continuar diferenciando o protagonista de homens comuns, mantendo-o como um ser de sensibilidade especial e justificando qualquer conduta.

O Cavaleiro de Copas

6. Quando a mulher é só um ovo

Uma figura comum nessas narrativas é a do novo namorado, ou companheiro da ex-mulher. Pode ser aquele com quem ela teve um affair durante ou casamento ou uma figura nova. O importante é que ele seja inferior ao protagonista no sentido intelectual, e às vezes até físico. Se ambos forem do mesmo ramo, dois acadêmicos, por exemplo, o novo terá algo de reprovável que mantenha o protagonista como aquele para quem devemos torcer.

Muitas vezes, o embate verdadeiro é entre ex e atual da mulher. Ou seja, mesmo em uma narrativa disparada pela separação do casal, a personagem feminina não deixa de ser um objeto negociável do ponto de vista do protagonista masculino. Então ele se vê atacado pelo amante, e o ataca. São comuns até as cenas de embate físico como explosões de um sentimento que cresce durante a narrativa, passando pelo desgosto em ter outro homem com a sua mulher, criando seus filhos, enfim, substituindo-o. Às vezes é difícil de crer na intensidade desses sentimentos, afinal de contas o senso lógico leva a crer que o problema é entre as antigas partes do casal, mas roteiristas e escritores querem forçar a ideia de que a questão é com este protagonista homem que exige a outro o retorno de sua posse.

Por vezes, então, a questão com a mulher é apenas preparatória para o embate real entre homens, seres completos e vistos como iguais. A mulher é a casca aparente que, uma vez rompida, volta a seu papel alegórico. De dentro dela, enquanto personagem, se revela o verdadeiro oponente.

No cúmulo das projeções, a mulher vilanizada pode querer voltar para o marido abandonado. Como ele já se mostrou irresistível a todas as outras (fãs, prostitutas, outros affairs), faltava ela. O protagonista, então deixa claro que a superou. O importante é que isso consagra a vitória sobre o tal oponente.

O Desprezo

7. Fins

O fato de existirem tantas narrativas, na literatura, no cinema, nos quadrinhos, nas séries, que se encaixam em diferentes níveis nos padrões aqui delimitados, muitas delas inseridas no seu respectivo cânone, me leva a perguntar o quanto ainda este protagonista homem, branco, heterossexual, intelectualizado não se tornou, a partir da identificação comum com quem normalmente o escreve ou financia, um lugar comum preguiçoso.

Com as leves sutilezas composicionais, essas narrativas perpetuam um traço: a auto-piedade que se estende ao receptor, e um amor exacerbado dos protagonistas com suas produções, seus corpos, seus pênis, que se mostra querendo ser blindado a qualquer condenação. De maneira infantil, estes protagonistas revelam uma mentalidade mimada, que não entende como o mundo pode operar sem que eles sejam o centro, ou em uma lógica alheia à sua vontade.

Autores, ou ainda editores, produtores, enfim, cenas culturais como blocos, endossam e sustentam essas narrativas de uma maneira que é difícil afastar do desejo de consertar questões vividas: se o escritor decadente é esquecido em todas as esferas, alijado da vida familiar e pública, na ficção surge pelo menos uma garota de vinte e poucos anos para afagar ser ego de artista e de macho. A maturidade da indústria cultural, logo, é a mesma de um menino de dezesseis anos jogando videogame.

A preguiça se estende para a crítica, que só agora começa a dar sinais de cansaço do que pode ser chamado de um trope perpetuado por diferentes formas de representação. Entretanto, nos comentários cotidianos não é incomum que narrativas apoiadas nestes clichês ainda sejam aprovadas pelo público em geral, inclusive uma parcela que se diz versada nas artes e apreciadora de um conteúdo “diferenciado”. Isso, talvez, porque essa figura que alia o intelectual ao tolo adorável busque alcançar simultaneamente identificação, compaixão e admiração.

É bem sabido que as cultural possuem um estoque de narrativas, assunto bastante explorado por Bruner, então não se trata de desejar que nunca mais exista um protagonista branco hétero e intelectual enfrentando um divórcio, porém reconhecer que mesmo com aparentes mudanças, como a leve textura que fingiram dar às ex-esposas, pouco mudou e, no entanto, seus autores continuam sendo largamente elogiados. É claro que isso gerou um comodismo geral, e também óbvio que, entre obras que merecem todas as honrarias, outras só despertam irritação quando recebem elogios. É um sub-gênero equivalente aos filmes da Marvel para uma camada que se diz muito crítica. Claro, facilita se você é homem, branco, hétero, quem sabe um escritor ou um aspirante a intelectual.

The Humbling

*Frase dita por Bernard Berkman à ex-mulher em A Lula e a Baleia

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