Utilizando o Scrivener para trabalhos acadêmicos: um manual (e um bônus)

thais k. lancman
Jul 20, 2017 · 6 min read

Quando entrei no mestrado, em idos de 2014, demorei mais de um semestre para encontrar uma metodologia de organização e catalogação eficiente e que me permitisse ler e escrever sem a agonia de estar perdendo algo. Aqui deixo dicas e instruções para quem se interessar, utilizando o software Scrivener, disponível gratuitamente para testar (eu tenho a versão paga e recomendo pela frequência que uso). Desejo a você um trabalho acadêmico organizado e eficiente.

A situação prévia que me levou ao Scrivener

Meu mestrado foi em literatura, logo a carga de leituras foi imensa. Além disso, a pesquisa foi focada em um romance, logo eu com o tempo o tinha quase de cor na cabeça. Eu fiz, acho, quatro ou cinco leituras do romance inteiro durante o mestrado.

Recomendo, muito, que você leia com papel e caneta à mão para ir anotando de maneira simples passagens que te interessam e a página em que se situam. Isso, é claro, salva sua vida se for o caso de você utilizar número de página nas citações ao longo do trabalho (não há consenso na ABNT quanto a isso). Eu tinha muitos fichamentos à mão para passar para o Scrivener, e não acho que isso seja ruim. Você pode ler no ônibus, na praia, onde estiver tranquilamente se criar esse hábito de passar tudo para o Scrivener depois.

Na verdade, anote tudo, e não confie jamais na sua memória. Anote a informação, onde leu e onde conseguiu o material (se foi a biblioteca da sua universidade, no arquivo de sei lá quem, num link que twittou).

Fora isso, eu já conhecia o Scrivener porque o utilizo para outros projetos pessoais, logo você deve fuçar o software para encontrar as ferramentas que te interessam. Aqui estão as que eu mais uso.

Prós do Scrivener:

– liberdade para organizar capítulos, trechos;

– visualização de dois textos simultaneamente;

– armazenamento conjunto de fichamentos, rascunhos, trechos desprezados;

– ícones diferentes para organizar etapas de escrita, revisão, etc.

Contras:

– caro (mas você só paga uma vez);

– ferramentas de design de página, fonte, espaçamento ruins;

– não conversa com softwares de citações, como o Zotero (falarei disso no bônus).

Apresentação do Scrivener e da organização geral do meu sistema.

O Scrivener tem essa cara:

Na coluna da direita, em Fichário, você vê os três organizadores principais:

– Dissertação, com uma pasta para cada capítulo;

– Pesquisa, para cada artigo ou livro lido e fichado;

– Lixeira.

Abrindo cada pasta, é possível ver os sub itens dela, que, no caso, correspondem às subdivisões do capítulo

Clicando em um desses trechos (identificado pelo ícone de folha), você abre o texto a ser editado.

Como no Windows Explorer, você pode alterar a ordem de trechos e capítulos, arrastando os ícones em Fichário. Você também pode fundir pastas ou textos, criar ou excluir seções.

“Pesquisa” e citações

Como já explicado, tudo aquilo que se encontra em “Pesquisa” não entra no texto final, logo não será incluído no arquivo quando você compilar a versão final.

Em Pesquisa, em abri uma página nova para cada material lido:

Ao abrir cada um dos itens em Pesquisa, você pode ver que escrevi “próprio”, para me referir a um livro meu, e uma citação copiada com o número da página. Recomendo fazer assim, ainda que seja um trabalhão. Se for muito trabalho copiar tudo que você nem sabe se vai usar, anote palavras-chave. Isso será fundamental, como você vai ver mais adiante. Aqui um exemplo de anotação com palavras-chave (parece caótico visto de fora, precisa ser do jeito que funcione para você ainda que seja ininteligível para outros):

Nesse caso, eu sei que “gostos europeus”, “sopa hostil”, “pessoas dispostas a aceitar qualquer bobagem” são expressões que irão ficar marcadas e não serão repetidas ao longo do texto base ou da dissertação.

Tela dupla

Outra vantagem do Scrivener é você visualizar ao mesmo tempo dois textos. Isso é bem útil para não sair do que você está escrevendo para buscar uma citação, por exemplo.

Você pode usar isso também para comparar versões de um capítulo.

Busca: evitando repetições

No alto, à direita, você pode ver que existe uma ferramenta de busca. Ela funciona para tudo que está no seu projeto, não apenas o texto produzido. Logo, ela é muito valiosa.

Muitas vezes, ao produzir um trabalho de fôlego, a cabeça fica “viciada” em alguma ideia ou frase. Com a busca, você pode ver facilmente se está se repetindo dentro deu um capítulo ou com várias vezes na dissertação (acontece).

Outro bom uso da busca é no caso de você ter lido algo em algum lugar mas não lembrar ao certo onde foi. Você navega facilmente pelos itens da pesquisa e encontra rapidamente o artigo (daí a importância da palavra chave ou citação integral).

busca pelo termo “sobreviventes”: como resultados, o trecho da dissertação em que foi usada e a ficha do livro Herzog, de onde a citação foi retirada (note que a citação não está com o trecho ipsis literis).

É importante ressaltar que, em materiais cujo acesso não é tão fácil, você deve priorizar a cópia integral da citação.

Falando agora dos “contras” do Scrivener, para mim foi obrigatório passar o material para o Word, para mudar fonte, espaçamento e margens conforme a ABNT e também porque, apesar da chatice, pude utilizar o Zotero para organizar as citações.

Zotero: o bônus

Zotero é um software gratuito de citações. Com ele você cria um banco de dados das suas referências bibliográficas. Ele tem extensões para Chrome e Firefox, para você salvar páginas da web como referência, e um suplemento de Word para citar segundo ABNT, Toronto, ou a norma que desejar. Existem outros programas semelhantes, e eu uso o Zotero porque foi o primeiro que conheci. Não sei dizer se ele é melhor ou pior que outros.

Aqui está o grande pulo. Com a sua pasta Pesquisa do Scrivener, você está organizado o bastante para adicionar os itens no Zotero, e depois cita-los e criar a Bibliografia sem esquecer nada. Por isso, organização é chave. Futuramente, farei um artigo sobre o Zotero, explicando como ele funciona.

Provavelmente, sua tese ou dissertação fará o trajeto Scrivener — Word — Scrivener algumas vezes. Quantomenos, melhor, mas não se preocupe se tiver que copiar e colar pra lá e pra cá durante o processo. O importante é que você não acabe pulando citações ou large a adição de referências no meio do caminho. De qualquer forma, se algo do tipo acontecer, você consegue fazer o percurso contrário com as notas já adicionadas no Scrivener.

O processo pode parecer complexo, mas ao longo da pesquisa ele se torna bastante natural. E logo você começa a usar o Scrivener para tudo.

Espero ter ajudado!

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