sobre Sócrates

Sejamos claros, independentemente do epílogo, seja ele qual for — mesmo uma putativa condenação— a detenção de José Sócrates, per se, não passa de uma mera anomalia, puro ruído de fundo.

Há, claro, agora e outra vez, quem já cante desde hossanas a aleluias mas sejamos francos, intelectualmente honestos, e observemos o padrão até agora: BPN, só (!) um único "culpado" — José Oliveira e Costa. "Furacão" e "Sobreiros" ?—na prática népias. BES — A culpa, a ter "existido" culpa, dizem que foi toda dos excessos de, e da, confiança, do eixo Ricardo Espírito Santo e Carlos Costa. …


aqui, uma visualização interactiva das relações de membros de Governos de Portugal com empresas e grupos. O ecossistema político-empresarial em Portugal, 1975-2013. Não há, infelizmente, disto no Pordata


Salvo uma ou outra excepção (vide, à esquerda, este anormalmente sóbrio texto da Fernanda Câncio no DN, ou à direita, aqui e aqui), no geral o conjunto de reacções, à esquerda e à direita, à decisão de ontem do TC, por unanimidade, de chumbar a proposta de corte das pensões do sector público apresentada pelo Governo, não augura nada de bom.

Nada de bom, porque o debate, se é que se pode falar de debate, foi substituído por um extremismo maniqueísta, a preto e branco, a fazer raiar a clubite aguda da pior espécie de maluquinhos da bola, e esta é uma qualificação benevolente. …


O absoluto circo que se está a passar hoje com a suposta prova de avaliação a (alguns) professores [enunciado da mesma aqui] é só mais uma trapalhada das muitas que tem ocorrido, nos últimos anos, na política educativa em Portugal.

Não surpreende mas causa tristeza, porque ninguém, rigorosamente ninguém, nem Governo, nem sindicatos/professores, tem razão ou está minimamente preocupado com as questões que deveriam ser centrais.

Para começar, deveria ser pacífica, absolutamente consensual, no ensino, como em qualquer outra área, a existência de avaliações regulares e periódicas para separar o trigo do joio, porque sempre houve, e vai continuar a haver erva daninha por aí. …


Braga de Macedo, um ex Ministro das Finanças da era Cavaco, em tempos famoso por descobrir em Portugal um oásis, voltou à ribalta, e numa conferência no estrangeiro, no Texas, muito presumivelmente a expensas do contribuinte português — nem mais, resolveu colocar em causa a sanidade mental de todos os (treze) juízes do tribunal Constitucional. A rábula do iluminado, pode ser lida aqui no Diário de Notícias.

Vamos por partes, há muitas razões para não gostar da Constituição, como há muitas razões para não gostar de muitas leis, e muitas outras coisas. Há, certamente, muito espaço para evoluir e aperfeiçoar, ponto. …


Peter Higgs, the British physicist who gave his name to the Higgs boson, believes no university would employ him in today's academic system because he would not be considered "productive" enough.

The emeritus professor at Edinburgh University, who says he has never sent an email, browsed the internet or even made a mobile phone call, published fewer than 10 papers after his groundbreaking work, which identified the mechanism by which subatomic material acquires mass, was published in 1964.

He doubts a similar breakthrough could be achieved in today's academic culture, because of the expectations on academics to collaborate and keep churning out papers. He said: "It's difficult to imagine how I would ever have enough peace and quiet in the present sort of climate to do what I did in 1964." …


A capa, e a reportagem, da última edição da época, revista brasileira de grande informação é potente qb. Infelizmente as, muitas, semelhanças com o que por cá se passa também. A diferença é que pelo menos do lado de lá escreve-se e investiga-se a sério sobre o problema, já por cá…

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N.A. O percurso criativo que gerou esta capa pode ser lido aqui.


A propósito desta sublime prosa do Robert Fisk, no Independent, recordo que entre 14 e 18 do século passado a intervenção portuguesa na Primeira Grande Guerra envolveu cerca de 200.000 soldados portugueses, contabilizou cerca de 10.000 vitimas mortais e várias dezenas de milhar de feridos. A ressaca, bem a ressaca, redundou no Estado Novo, que este não surgiu exactamente do vácuo…

O ano de 2014 podia ser uma boa ocasião para se iniciar, tarde e a más horas, uma retrospectiva, um balanço e uma reflexão, como só o desfasamento no tempo o permite. Talvez se aprendesse alguma coisa, e se descobrissem até paralelismos e lições para os dias de hoje.


Um dos efeitos práticos, ao nível político, da crise, em curso, foi o do regresso do primado do 'político', do 'ideológico', ao debate público. E isso que até podia ser bom, excelente, está a ser, à boa maneira portuguesa, terrivelmente péssimo para a já de si debilitada saúde e qualidade da 'democracia' indígena.

Péssimo, porque para todos os lados, a realidade, tal como ela é, se tornou um irritante empecilho, pelo que convenientemente se ignora, quando convém, de forma a não estragar, de modo algum, uma qualquer narrativa pré-formatada. …


Numa altura em que o Papa Francisco está na moda, para desgosto dos César 'fariseu' das Neves deste mundo vale a pena ler, e reler, esta magnifica entrevista de Hans Küng ao Der Spiegel. Porque as coisas, mesmo os autênticos milagres, não acontecem no vácuo.

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António Meireles

Porto, Portugal

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