08 prédios do centro de São Paulo pra prestar atenção enquanto você estiver dentro do ônibus

Já que a vida nessa cidade acontece no congestionamento, você pode muito bem tirar proveito disso.

Eu considero que gasto bastante tempo por dia dentro do ônibus, apesar de estar bastante abaixo da média se você for comparar com gente que realmente gasta bastante tempo no transporte público. Também tenho a vantagem de pegar o ônibus no ponto inicial, então posso ir sentada em uma linha que enche de gente precisamente um ponto depois.

Eu poderia pegar o metrô e estar em casa bem antes, confesso, mas além de ter que passar pelos cinco círculos do inferno também conhecidos como as escadas da estação Pinheiros, eu perderia assim o meu maior passatempo: ver o centro de São Paulo sentadinha ao lado da janela do ônibus.

Linha 4 tô fora, pego meu ônibus e vou embora

E foi assim que, dia após dia, eu comecei a reparar em alguns prédios específicos durante o trajeto, por que o centro de São Paulo tem disso, um monte de prédios iguais e de repente BAM! um deles se destaca por ter alguma coisa diferente. Aquele monte de camadas de ruas e viadutos e praças e avenidas se cruzando num caos decadente que enche de perguntas quem não morou aqui a vida toda.

Como eram essas ruas nos seus dias de glória? Quem já viveu por aqui? Que prédios são esses que parecem ter sido desenhados no auge da modernidade e hoje estão cobertos de grafites, pastilhas quebradas e tinta descascada?

E foi dessas observações diárias que nasceu esse texto. A maior parte dos prédios aqui podem ser vistos da 9 de Julho e da 23 de maio, que são meus trajetos mais frequentes. Mas muitos deles estão em outras ruas e podem ser vistos de outros lugares. E você pode também achar muitos outros por aí, já que São Paulo é assim: quando você acha que viu tudo, ainda tem um mundo pra olhar.

#1 Mirante do Vale (Palácio W. Zarzur)

Do ladinho do viaduto Sta Ifigênia (que por muito tempo essa migrante sem cultura achou que fosse o viaduto do chá rsrs) fica um prédio que tem cara e cor de repartição pública, mas surpreendentemente nunca foi.

Projetado pelos engenheiros Waldomiro Zarzur e Aron Kogan, é até hoje o prédio mais alto de São Paulo apesar de não parecer, por que, como o nome sugere, ele fica… em um vale. Além disso ele não é tão conhecido como outros mirantes mais famosos, como o Edifício Itália e o Altino Arantes (que todo mundo conhece como Banespão ou "Prédio do Banespa" até hoje, sejamos honestos).

Os caras que projetaram o Mirante do Vale também são responsáveis por outros projetos, dentre eles o POLÊMICO Treme-treme. Se você ficou interessado em visitar o terraço pode infelizmente ir tirando o cavalinho da chuva já que ele não é aberto ao público. O máximo que você pode atualmente é ver essa foto:

Esse eu observei a primeira vez da 23 de maio, apesar dele ficar a várias quadras dessa avenida. É que ele é alto e se destaca bastante com um terraço cheio de ondas e um estilo de construção no mínimo… curioso.

Intercalando estilos e cores diferentes na fachada esse é definitivamente um prédio que chama a atenção, pro bem ou pro mal. Foi desenhado por um cara chamado Artacho Jurado e já teve inclusive uma novela da Globo gravada no seu terraço. Mas o que mais me chamou a atenção foi mesmo como ele parece dois prédios lado a lado, mas na verdade é um só:

O cara que projetou esse prédio é responsável por UMA C*RALHADA de outros prédios famosos em São Paulo nas décadas de 40 e 50, incluindo o luxuosérrimo chiquérrimo edifício Saint-Honoré na Paulista.

O negócio louco é: ele não só não era arquiteto como ele nem frequentou escola alguma por que o pai dele era anarquista e proibiu o filho de jurar a bandeira. Mas talento era algo que ele tinha de sobra e malandragem também: ele projetava os prédios e um arquiteto de verdade assinava.

#3 Edifício Matarazzo (Prefeitura de SP)

Foto por Dornicke

Vamos começar esclarecendo uma coisa: eu passei mais vezes do que eu estou disposta a admitir ao lado desse prédio sem saber que se tratava da prefeitura da cidade. Por um breve período de tempo eu cheguei a achar que a prefeitura era no Altino Arantes, e depois eu confundia o Matarazzo com Martinelli. Perdoem a paranaense.

Ele foi projetado em meados da década de 30 pelo escritório Severo, Villares & Cia. Ltda. e revisado/assinado por um sujeito chamado Marcello Piacentini que era conhecido como "O arquiteto de Mussolini". Gente finíssima, como dá pra perceber.

Fotos por SPTuris

Deixando de lado o passado fascista do prédio, o mais legal dele é o terraço que conta com um jardim com mais de 400 espécies de plantas e dá pra ser visitado de graça, é só chegar com tempo na recepção da prefeitura.

#4 Edifício Brasilar

Esse aqui entra no nicho "prédios velhos que estão praticamente caindo os pedaços mas que me despertam aquela curiosidade quase doída sobre a sua história". Ele fica bem no comecinho da Avenida 9 de Julho, numa esquina da Praça da Bandeira que sempre cheira xixi quando o ônibus para, e é fácil passar sem dar meia olhada pra ele.

Mas quando você presta atenção percebe que por trás do prédio velho pichado tem um luxo antigo, e aí se você for igual eu, corre pro Google pra descobrir o que puder sobre o prédio. A verdade é que não achei tanta coisa. O prédio foi construído em 1943 e por muito tempo foi um hotel de luxo. Em 81 pegou fogo. Agora tem apartamentos de um quarto (inclusive o aluguel é bem barato, a quem interessar rsrs).

Uma história é curiosa: até meados dos anos 2000 (!) o coitado desse prédio sofreu com inundações que chegavam a quase 1,5m de altura. Nisso a parte de baixo de um mural enorme pintado numa parede do hall acabou desbotando, levando com a água o nome do pintor. Pelo estilo cubista e a qualidade do que sobrou, há quem ache que o autor pode ter sido alguém famoso. Jamais saberemos.

Foto por Luísa Brito/G1

#5 Prédio Alexandre Mackenzie (Shopping Light)

Se você for uma pessoa que está passando pelo vale do Anhangabaú assim de forma desavisada e olhar pra esse prédio, é bem improvável que de primeira você chute que ele na verdade abriga um shopping, mas esse foi sim o destino dele ao longo dos (muitos) anos.

Construído em 1929 pelo escritório Severo, Villares & Cia. Ltda. (sim o mesmo do Matarazzo), ele foi sede da "São Paulo Tramway, Light and Power Company", mais conhecida como "Light", por que São Paulo sempre foi essa cidade jacu (❤) com coisas com nome em inglês (e porque a empresa era canadense).

Por ter sido tombado, tanto o exterior quanto o interior do shopping preservam muito da história do prédio. Então junto com escadas rolantes existem elevadores da década de 20, por exemplo. Ele vale não só a observação de dentro do ônibus, mas também uma visita.

#6 Edifício Viadutos

Fotos por Maíra Acayaba

Saindo um pouco da região do Vale do Anhangabaú (mas não muito) está o Edifício Viadutos, mais um empreendimento do talentosíssimo porém não-arquiteto Artacho Jurado. Esse prédio é um antigo sonho meu de moradia, porém infelizmente ainda não possuo o capital necessário para essa ostentação de luxo decadente.

Ele traz referências a vários estilos arquitetônicos e inclusive de filmes da época de ouro de Hollywood, principalmente no seu interior e no terraço, com pilotis azuis. A planta traz apartamentos de oito tamanhos diferentes, já que o objetivo era agradar vários tipos de famílias emergentes nos anos 50.

Ele tem um número absurdo de DOZE elevadores, então você possivelmente nunca vai precisar encontrar um vizinho no corredor. Mas se quiser subir até a cobertura, só dois deles vão até lá.

#7 Edifício Louvre

Eu passei de carro esses dias atrás por essa rua, o que descaracterizaria um pouco o título do meu texto de prédios pra se observar de dentro do ônibus porém passa uma enxurrada de ônibus na avenida São Luiz, então se esse for o caso do seu transporte público preste atenção no Edifício Louvre, é lindo.

Ele também foi projetado pelo Artacho Jurado e talvez tenha dado pra perceber que eu tenho uma queda pela obra dele. O que me chamou a atenção foi a marquise grandiosa e os portões cheios de adornos, aí eu olhei pro alto e as cores do prédio deram o toque final.

Ele tem piscina e pista de caminhada no terraço e apesar de parecer um só, são quatro blocos, todos com nomes de pintores (“Da Vinci”, “Rembrandt”, “Renoir” e “Velásquez”, se você estiver se perguntando), que abrigam apartamentos de vários tamanhos, lojas e garagens.

#8 Palacete Riachuelo (Mesquita Bilal Al-Ghabash)

Eu volto pra casa de ônibus e volte e meia passo por essa mesquita em horário de culto. Um letreiro luminoso de LED indica os horários das cerimônias e as janelas sempre abertas deixam à mostra os fiéis ajoelhados no chão durante as orações.

O prédio mesmo foi construído no início da década de 20 e foi um dos primeiros edifícios residenciais da América Latina. Ele era de uma família que também era dona do Edifício Sampaio Moreira (esse vale o google, sério mesmo) e fica numa esquina de ladeiras bem íngremes no começo do Vale do Anhangabaú. Apesar de relativamente pequeno, definitivamente chama a atenção.

Uma curiosidade que sempre me causa um risinho: no primeiro andar funciona a mesquita e no térreo, na lateral do prédio, desde a década de 70 funciona uma loja chamada Woodstock Rock Store totalmente dedicada ao Rock. Eu sempre considerei isso um suquinho desse nosso brasilzão.