#01 — Alexander

O vento balança meu cabelo, o cimento gelado me deixa desconfortável à medida que eu mudo de posição, minhas pernas estão formigando. Acabo de acordar, contudo não abro meus olhos imediatamente, nunca o faço, primeiramente tomo consciência do mundo ao meu redor.

Todos os dias durmo em um lugar diferente, o que mais me parecer convidativo na cidade em que estou; às vezes na praça, nas escadas da igreja, na areia da praia ou até mesmo nas calçadas imundas de um bairro qualquer. Esse noite não usei nada, nem bebi, então tecnicamente estou limpo há um dia. Eu poderia até ir a um abrigo, mas odeio aquele lugar, eles sempre tentam me converter. Sempre digo que não preciso de conversão, talvez de uma injeção ou, o que acontece normalmente, um lugar para passar a noite.

Abro os olhos, a claridade incomoda, mas logo me adapto à ela. Pelo barulho posso dizer que hoje é dia de feira, há muitas pessoas passando com carrinhos e escuto gritos ao fundo. Sento na calçada, pensando que se hoje é dia de feira, então verei a moça de cabelos encaracolados.

Instantaneamente me empolgo, levanto em um pulo, saio em passos largos — e mancando — pela rua deixando meus pertences para trás, não me importo com eles, nunca foram meus de fato. Estou descendo a rua em direção ao barulho da feira quando lembro tristemente que estou sujo, há dias não tomo banho, o cheiro é forte. Isso não me impede de ir até a feira e procurar a moça.

Ela está sob a bancada pesando uma sacola de tomates para uma cliente, tão linda. Meu coração dispara, não posso falar com ela, tenho vergonha. Semana passada ela me deu algumas frutas, provavelmente por compaixão, fiquei feliz. Não sei seu nome, não preciso disso, a moça dos cabelos cacheados me comove a ponto de não precisar saber o nome dela para ficar impressionado.

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