#02 — Nathan


A música toca ao fundo enquanto me arrumo para ir ao trabalho, mais uma vez uma manhã chuvosa, mais uma vez a voz de Brian Johnson me acompanha pela casa. Não tenho pressa. Já sei o que me espera no trabalho. Visto a camisa social azul, pego meu boné e coloco na cabeça. Trabalho na loja de conveniência do Posto Antunes, sou caixa lá.

Desligo o aparelho de som. Logo Débora, minha irmã, estará em casa de volta do trabalho (ela é enfermeira), e ela não gosta do “barulho” que escuto. Ela é mais velha e, por consequência, mandona. Não me meto nas coisas dela, mas ela sempre se mete nas minhas. Nos damos bem normalmente, embora às vezes ela queira saber com quem ando ou o que ando fazendo dos meus finais de semana e eu digo que não há nada e não entendo como isso possa ser da conta dela.

Desço as escadas do prédio e vou em direção à rua da feira, todo sábado meu café da manhã é um pastel, então esse é meu caminho. O que mais gosto na cidade grande é o fato de as pessoas estarem tão ocupadas e vivendo a vida delas que elas não se preocupam com quem está do lado delas, elas não me incomodam. Gosto de ser só, gosto de fazer coisas e não ter que responder perguntas mais tarde. Não preciso de ninguém, eu me basto.

Não tenho amigos desde o colegial. Isso nunca foi um problema, não sinto a necessidade de partilhar nada com ninguém. O único amigo que conservo é o Jorge do pastel, ele sempre conversa comigo e ele me parece muito sincero em todas suas perguntas e preocupações.

Assim que chego na barraca do pastel ele me cumprimenta com um sorriso nos lábios.

“Bom dia, jovem!”

“Bom dia, Sr. Jorge! Como vai?”

“Bem, bem. O que vai querer hoje?”

“Carne, por favor.”

“Em um minuto.”

Ele se vira e começa a preparar o meu pastel.

Olho em volta, essa feira é muito cheia pela manhã. Deveria estar acostumado com esse fato, mas não consigo. Muitas pessoas.

“Aqui está”

“Obrigado, Jorge”

Jorge sorri. Pago e vou embora. Em menos de uma hora eu tenho que começar a trabalhar, então acelero o passo. Olho a minha volta, observo as pessoas e me pergunto se elas preferem ficar só também. Dou a primeira mordida em meu pastel. Delicioso. Vou saboreando enquanto caminho para o trabalho, mas uma coisa me chama a atenção, na verdade, um rapaz me chama a atenção.

Ele está muito sujo e observa a feira com certo desejo, como se algo fosse irresistível lá. Penso que deve estar com fome, me aproximo. Ele me olha nos olhos, assustado eu diria, até culpado e pela expressão em seu rosto eu o havia pego num momento em que não deveria. Sorrio, mostrando que não tenho intenção de julgá-lo ou interromper qualquer que seja seu pensamento ou ato.

Aos poucos vou chegando perto do estranho. Pobre morador de rua, deve estar passando fome. Estendo minha mão e lhe entrego meu pastel, não acho que vá me fazer muita falta. Ele o pega, cauteloso.

“Obrigado.”

Enquanto isso eu me viro e vou para o trabalho, fiz minha boa ação do dia, estou bem. A loja de conveniência é no final da rua e sei que o dia será cheio. Olho para trás, o rapaz ainda está lá, pastel na mão, olhos vidrados em algum lugar na feira. No primeiro momento isso me irrita, mas um segundo depois eu o vejo abaixando a cabeça para a primeira mordida.

Respiro fundo e estou pronto para começar o sábado.