Quando sua referência se torna um babaca.
Como lidar quando você descobre que o seu ídolo é um babaca?
Nunca tive muitos problemas em separar a obra do autor, convivemos com ótimos exemplos que muitas vezes as obras são maiores que seus autores, e quase sempre nunca vi problemas nesta separação. Einstein era um gênio da física, mas possuía seríssimos problemas de relacionamento (bastante abusivos) com sua… prima! Woody Allen tem suspeitas de abuso sexual contra sua própria filha, Nico Mcbrain (baterista do Iron Maiden) atropelou o cara da guarita seis vezes com seu jaguar pois o cara pediu crachá de identificação. Enfim, a lista de babacas é enorme mas nunca me fizeram parar de ouvir Iron Maiden, de ver filmes no cinema, ou de ficar intrigada com os documentários de física quântica, Lembro até de debochar de um colega que disse que não via mais filmes do Bruce Willis pois ele se declarou a favor da guerra do Iraque.
Mas depois deste final de semana que passou consegui ver que talvez essa capacidade de separar a obra do autor se desse pela distancia de nossas realidades cotidianas. Afinal não sou amiga pessoa desses caras, não encontro com eles em eventos, não estão no mesmo grupo do Facebook que eu e preciso vê-los postar hipocrisias sabendo a realidade velada de suas ações
Para quem não sabe, antes de começar a fotografar eu costumava produzir e dirigir os ensaios. durante 3 anos eu criava todo o conceito, arrumava patrocínio, descolava locações e chamava um fotógrafo para fazer as fotos para mim, e foi assim que conheci grandes nomes da fotografia sensual.
Um desses nomes acabou entrando em contato comigo, foi um sonho, formamos parceria, fizemos reuniões de briefing, até fotografamos juntos uma vez! Mas de uma hora para outra ele sumiu, alegava estar sem tempo, mas eu como sou muito critica logo pensei que a culpa minha, que eu devia ser ruim demais para trabalhar com ele. Mas acabei descobrindo que ele fazia isso com várias pessoas, mas até ai podia suportar. O cara tem moral para ser “estrela”.
Mas nesse final de semana, meu mundo veio abaixo. Estava conversando com algumas modelos que estavam contando suas histórias de abusos de fotógrafos e tal. O que esta se tornando assustadoramente comum, com o levante feminista a todo momento venho ouvindo relatos e mais relatos de intitulados fotógrafos cometendo abusos, mas é sempre “nego se diz fotografo para fazer essas coisas e atrapalha a class”, mas desta vez foi diferente, eu ouvi um relato de abuso de um fotografo, de alguém que realmente sabe fotografar, que já esta no mercado há muitos anos, que se dizia enojado com todas essas historias, meu ídolo, minha referencia, e meu colega, sendo relatado como abusador.
Entendem a diferença? não era um cara de hollywood que eu nem conheço, não era um charlatão se aproveitando, era um conhecido, era um profissional! e eu ainda meio sem acreditar, relutante tentando achar que a guria podia estar interpretando errado ou seilá. Mas as provas vieram, ela me mostrou um vídeo do cidadão se masturbando. Sei que muitos de vocês ainda podem dizer: “ah ela pode ter pedido e ele mandou, não configura abuso”. Mas não amigos, o cara é um profissional, ele não deveria ter mandado um vídeo desse para uma modelo nem que ela tivesse supostamente pedido. Você pede vídeo do seu advogado se masturbando? Acho que não né?
Entrei em grupo de facebook de denuncia de abuso de fotografo, achei a iniciativa muito legal, apesar de triste em pensar que isso seja necessário, e advinha quem estava lá como membro? e ovacionando pelas gurias, quase um santo…. Quase.
É complicado não é? sabe que seu ídolo é um babaca, que seu amigo é um babaca, que seu colega de trabalho é um babaca. Eles são tão proximos que você fica se punindo “Como eu nunca reparei? Como ninguém nunca reparou? Será que aconteceu outras vezes?”. Isso tem me incomodado muito, saber que alguém tão próximo é parte de algo tão baixo, faz você questionar todo mundo, todas as pessoas que você conhece. E sente raiva, pensando que por um tempo eu ainda pensei que ele pudesse não querer trabalhar comigo por que eu era “ruim demais”.