joão e o mal, I

Não foi ontem que começou essa coisa, nem antes de ontem. Fazia tempo. Um mês talvez. Há tempos que alguma coisa assolava os pensamentos de João (seus amigos de antigamente chamavam de uma pronúncia estranha de seu nome de verdade, Johannes, herança da mãe estrangeira; e todo o resto ia por João, mesmo. Ele mesmo já era convencido que era João.)

Ele refletia sobre o assunto enquanto tomava um vinho barato muito do azedo, olhando a vista ordinária de sua janelinha. A vista ordinária: umas janelas que eram as costas de outro prédio, o cantinho de uma das numerosas rochas que cravejavam o Rio e nacos de outros prédios, e tinha um pouco de céu e umas árvores, ali era perto de algum lugar de floresta, mas ele não sabia qual. João não sabia coisa nenhuma da sua cidade porque tinha chegado ali faz alguns meses.

Ia muito certo desde então que alguém tinha jogado uma bomba em sua vida. Não tem jeito das coisas todas explodirem assim do nada! Era injusto o quanto as coisas eram cíclicas na vida. Uma hora muito bem e outra hora, miserável. Cada coisa para um lado depois de algum espírito bagunceiro fazer a festa em sua vida. Ele deve ter se divertido muito jogando a garota que ele amava pra algum lugar distante e jogando ele numa cidade tão estranha como aquela. Cheia de gente feliz e esportiva, de prédios exatamente iguais e aquelas rochas no meio. As rochas e o mar eram bonitos mesmo que nem na televisão, mas ele não tinha ninguém pra passear por eles ainda, então era meio inútil.

João não se conformava em perder sua rua, suas raízes, seu ônibus diário, a feirinha, o ateliê e Luna. Nome de coisa da natureza que ela tinha, e ele gostava muito, soava bonito. Tudo nela soava e assentava bem, menos o coração dela, que parecia que falava grego. Ele era um homem bobo e ela uma mulher esperta.

Lembrado da vista ordinária da janela, João viu uma mulher atravessar o próprio apartamento lá na frente, pela janela. Muito à vontade que estava aquela mulher: sem roupa nenhuma. Ele esperou naquele pensamento por vários minutos. Uma mulher de meia idade, mas que cuidava muito da própria aparência. Ela já tinha rebatido entre quarto e banheiro umas cinco vezes no seu habitual de beleza noturno. Fazia efeito. João se via quase enfeitiçado. De repente seus pensamentos beirando a depressão viraram uma fixação naquela mulher vaidosa lá na frente, ela parecia saber exatamente o quanto que era bonita. Por isso que devia ficar andando sem nada.

Meu Deus, João tinha vinte e poucos anos! Ele não costumava ficar observando pessoas mais velhas na sua intimidade. Arrastou a cortina para fechar a sua janela indiscreta e enfiou os dedos por debaixo das lentes grossas, pelos cabelos oleosos, e infelizmente a mão cheirava a cigarro. Ele não gostava nem de fumar para começo de conversa, mas um ser humano faz coisas estranhas quando mora sozinho com fantasmas.

Claro, tão estranhas como sentir presenças. Como sentir a cabeça sendo acariciada por uma mão de unhas longas. Ele não devia ter bebido tanto assim, não (consultou o nível da garrafa e teve sérias dúvidas).

“Vai dar tudo certo, não é sua culpa! É tudo arte de outra pessoa. Johannes. É tudo uma brincadeira cruel. A vida é assim mesmo,” ele ouviu genuinamente alguém soprando, bem perto dele, mas acima.

Havia algum fantasma de verdade invadido sua casa? Fantasma era bobagem. Ele não acreditava em Deus e nem em fantasmas. Era o artista mais cético de seu círculo.

Mas quando João se viu indiscutivelmente acompanhado no apartamento, ele só conseguiu balbuciar um “Meu Deus”, acompanhando a teatral queda de seu copo americano vazio no chão de madeira. Era de verdade, não era um fantasma transparente de novela falando em eco, era uma pessoa. Carne e osso, olhos, tronco, mãos…

A coisa mais próxima ao sobrenatural que tinha naquela aparição tapando a janela eram as mãos. Unhas pretas longas e pontudas; pele pintada de cicatrizes novas e velhas. Roxos, arranhões, picadas. Ela (sim, ela) segurava um ramo de rosas vermelhas, com espinho e tudo, mas não parecia importar muito.

Dava pra identificar um cabelo curto liso e um corpo constituído de mulher. Roupas pretas e um olhar meio vazio olhando pra ele como se o conhecesse. Como se já tivesse invadido mil apartamentos de noite e feito mil pessoas acharem que beberam demais em noites de domingo.

- Desculpa. Eu não resisti. Eu queria muito que você soubesse. É contra as minhas regras… — ela lamentou, antes de catar o copo do chão (estava inteiro) e colocar suas flores dentro. A aparição olhava pra ele como se realmente tivesse feito alguma coisa bem errada.

- Como que… — murmurou, esquecendo mais ou menos como era esse negócio de falar.

Não é nada complicado não — ela arquitetou — você vai entender rapidinho.

E continuou ajeitando suas flores no copo americano, um pouco tensa, mas segura no seu trabalho de aparição sobrenatural.

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