“Tá muito chato fazer Publicidade hoje”

“Esse pessoal é muito chato, meu”, “Tudo agora é machismo?”, “Antes a gente podia falar o que quisesse e ninguém reclamava”. Já ouvi muito essas frases de colegas publicitários, é a versão publicitária de “O inferno são os outros”.

Tá, de vez em quando a galera é chata mesmo e reclama da propaganda por…ser propaganda (!?) vide usuários gratuitos de Spotify, Facebook e agora Instagram (não, não existe versão premium nem de Facebook, nem de Instagram). Acho o Spotify o melhor exemplo do porque essas reclamações são absurdas. Não quer propaganda? Existem contas pra pagar e alguém vai ter que pagar, se você não quer um anunciante pagando, pague você. Ninguém no mundo é bonzinho, nenhum desses caras sobrevive sem dinheiro.

Se é de graça, você é o produto.

Tirando essa exceção, todas as outras chorumelas publicitárias não fazem o menor sentido. Antes não era “legal” fazer publicidade, antes era mais “fácil” fazer publicidade, você colocava o anúncio/comercial na rua e se o cliente vendesse mais tava show, qualquer reclamação ficava na mesa do bar. Duro é que hoje a conversa do bar tá potencializada, e quem não ouvia a conversa agora não só ouve como também participa. Isso significa que a mulher ofendida pelo comercial do “vai Verão, vem Verão” não vai só reclamar com a amiga ou com o marido, ela vai reclamar diretamente com o seu cliente, e com todos os amigos dela e com todos os clientes do seu cliente se for possível. O óbvio ululante: agora todo mundo tem voz, inclusive quem nunca teve, exemplo: as feministas (necessárias para uma sociedade mais justa, inclusive).

Mas você já sabe disso. Você só ignora, e continua a pensar que o off vai ficar só no off, que é só meia dúzia reclamando no Twitter, que é só uma galera mala reclamando do seu post no Facebook. E afinal, quem liga pra essa galera falando mal se o gráfico de venda do cara subiu, né? Isso aí, amigão, continua fazendo assim que no médio prazo você vai precisar reformular a marca toda porque as pessoas vão te odiar, e se eu te odeio eu não compro nada seu. Vai na minha, repara que o número de chatos só cresce, e sabe o que é pior? As pessoas ouvem esses chatos e viram novos chatos, e tanto os chatos quanto seu séquito tem dinheiro e tão loucos pra comprar de uma marca que eles possam se identificar, com valores semelhantes aos seus. Não uma marca que ainda pense igual ao seu avô pensava(ele achava o máximo uma mulher de biquíni com uma cerveja gelada e adorava tirar sarro de gays). Se você não consegue ser “cool” (o que tem de “cool” numa fórmula velha?) sem desagradar os chatos, prevejo que em uns 5 anos você não vai ter espaço no mercado.

Ironicamente um comercial cheio de velhinhos tira onda com comerciais de cerveja sexistas, e é fantástico. “Quem gosta de propaganda bebe a deles, quem gosta de cerveja bebe a nossa”.

O caso do machismo talvez seja o de maior destaque hoje. Não é à toa, nossa sociedade é sim machista e o machismo tá tão encrustado na gente, é tão natural e não pensado que a nossa tendência é achar toda reclamação de machismo exagero, afinal senão denigre diretamente uma mulher tudo bem, né? Não! Não tá tudo bem não, e sim, vão existir e existem situações que vão ver machismo onde não tem, mas entenda, até o ponto ideal ser encontrado é melhor não mexer nesse vespeiro, na dúvida se é ou não machista, não coloque no ar, por mais engraçado que o trocadilho possa ser. E não é porque você é mulher que você não é/pode ser machista. Te juro que é sério, quando você começa a reparar no machismo do dia-a-dia fica assustador como todo mundo tem um pouquinho de machismo dentro de si. Mas também te juro que também é solucionável, só se policiar.

Claro, tem os haters que reclamam de tudo e de todos, que vão falar pra você colocar a grana da ação pra organizar uma passeata contra o governo, mas não se faz de bobo, não tô falando disso e você sabe disso.

O problema é a publicidade achar que basta entender os novos formatos, as novas mídias e tá tudo certo, tá tudo lindo, a gente adapta as coisas que a gente já fazia e já era. 5 primeiros segundos do vídeo chamando atenção, call-to-action pra engajar, transmídia, storytelling e foi. Não, não é isso não. Se você parar de tentar entender a rede social mais nova, conhecer a banda hype independente e o filme cult francês do momento e começar a focar nas pessoas, seu hábitos de consumo (não vale os hábitos que você usa pra defender second screen na campanha naquele ppt bonitão), seus valores, você vai conseguir entender tendências antes que elas aconteçam, vai acertar a mensagem e vai acertar o meio. Já pensou que louco? Ninguém, exceto pelos haters, reclamando da sua marca? Ninguém te chamando de machista ou de racista? Mas aí como se comunicar naquele meio novão de tudo que a juventude está adotando em massa e vai ser o próximo Facebook? Provavelmente o veículo já vai te dar umas dicas, afinal seu sucesso é o sucesso dele e ninguém melhor que o pai da criança pra dizer as coisas que a criança curte. Pois é, se parar pra pensar bem isso não é assim tããão importante, mesmo porque morre um novo Facebook todo dia.

Meio óbvio tudo isso, né? Entender pessoas, todo mundo é um mini-veículo nas redes sociais, não ser machista, não ser racista, não ser homofóbico, e por aí vai… Pois é, eu acho bem óbvio também, e não acho tão difícil assim de aplicar. Então vamos aplicar, né? Se alguém reclama, reflete aí se quem tá errado é o reclamante mesmo ou se você que deu de mané. E antes de resmungar o quão chato é fazer publicidade, larga a mão você de ser quadrado e chato.

P.s.: Sempre existe a chance de dar errado e a galera reclamar. Errou? Pede desculpas, e leve a sério esse pedido, não cumpra tabela. Reforce sempre que possível que aquilo não demonstra o que a marca pensa e vai ficar tudo bem.

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