Um segundo silêncio
A vida está tão feita adiante de nós como atrás de nós — Raul Brandão
Às duas da manhã, noite da noite, o silêncio em torno da minha casa torna-se subitamente monstruoso. Por essa altura estou a dormir, mas tenho a certeza de que algo se altera lá fora. Imagino que até aí o silêncio nocturno seja aprazível, voluntário e insuspeito, como convém à gente de bem que aterra na cama estafada depois de um longo dia a carregar em botões e fingir-se ocupada. Mas eis que de repente, duas horas depois da meia-noite, o sossego, sabe-se lá porquê, desassossega. É como se passasse a haver naquele silêncio qualquer coisa de definitiva. Quem atravessa a minha rua a essas horas escuras, interditas, deve sentir que tudo à sua volta está prestes a colapsar, ou que já caminha entre ruínas. Uma vizinha minha, ex-prostituta, que mora ali há mais vinte anos que eu, corrobora esta minha tese com uma experiência sua, ainda que não o saiba. Ela, que me fala detalhada e abertamente sobre o seu passado
— Nunca passei fome nem nunca pedi dinheiro emprestado
contou-me que uma vez, deviam ser umas duas ou três da manhã, um cliente seu, um mais-que-regular, o preferido
— Tu até deves saber quem ele é, esteve para ser ministro, mas por respeito não vou dizer
teve a amabilidade de lhe dar boleia de regresso a casa (à casa dela, entenda-se). A minha vizinha indicou-lhe a rua, mas não quis dizer exactamente em qual dos prédios feios morava. Não sei se essa reserva se deveu a uma questão de confiança (provavelmente não; na sua conversa comigo ela referiu-se a ele sempre com ternos termos), ou se se havia montado ali um jogo de sucessivas exposições e ocultações que a excitava de algum modo (ao início ele só lhe falava da mulher, até ao dia em que lhe mostrou fotografias dos filhos; agora ela só lhe indicava a rua, porventura um dia também diria o número). O senhor, decente, respeitou a óbvia vagueza das indicações da minha vizinha e deixou-a a uns bons metros de casa, longe demais (portanto, se jogo houvesse, ele dava a impressão de estar uma jogada à frente).
— Deixou-me ao pé da farmácia, ainda tive de andar um bom bocado
E entre as duas e as três da manhã, durante esse percurso a pé, da farmácia até ao nosso prédio, praticamente de uma ponta da rua à outra, o inesperado aconteceu. Ia ela descansada pela noite adentro, quando de repente viu surgir, lá do fundo do silêncio da rua, uma massa escura, rebarbativa, que se lançava na sua direcção. O que quer que fosse, a coisa vinha viva, agressiva, refém de uma velocidade impiedosa. A minha vizinha, surpreendida por essa visão dos infernos, ainda tentou agachar-se atrás de um carro estacionado
— Mas aquilo vinha tão depressa que nem deu tempo! Felizmente era só um cão. Um cão! Ó Tiago, eu nunca vi um cão assim! Corria de uma maneira estranha, parecia que estava possuído… Acho que lhe vi sangue no focinho, mas não me lembro bem… Estive anos sem me lembrar disto. Só agora, porque falávamos do meu lindo
O preferido
— E nem percebi por que razão é que ele ia assim desalmado. Fez-me cá uma impressão. Achei que o bicho me vinha fazer mal, mas não: passou disparado ao meu lado, como um foguete!
— A senhora deve ter apanhado um susto!… Depois até se riu, já a estou a ver!
— Não, Tiago. Mais valia que ele me tivesse vindo atacar, não tenho medo, eu sabia defender-me!
— Então?
— O problema foi que depois eu fiquei cheia de medo
Para qualquer pessoa consciente do imponderável mecanismo do mundo, o alívio é um sonho adiado. Em tudo, por todo o lado, espreita a possibilidade do medo. Só alguns dias depois, meditando sozinho no meu quarto, é que eu percebi a extensão deste problema da minha vizinha, a sua terrível universalidade. É um problema sobre o qual se edificaram cidades, civilizações, razões.
— O problema foi que depois eu fiquei cheia de medo porque pensei que se não era comigo que ele vinha ter, e como não estava mais ninguém na rua àquelas horas, então o bicho vinha a fugir de qualquer coisa, e fiz o caminho todo a tremer, sim agora lembro-me, nem conseguia andar como deve ser, fiquei cheia de medo do que podia encontrar no escuro, porque de alguma coisa ele vinha a fugir de certeza!
— E o que é que encontrou?
— Nada, graças a Deus. Assim que entrei em casa fui logo esconder-me debaixo dos lençóis. Isto tudo a altas horas da noite!
Eis, pois, a prova empírica que poderia sustentar a minha teoria do silêncio nocturno.
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Tocaram à campainha às duas da manhã. Acordei convencido de que não tinha acordado. Talvez estivesse apenas afundado num novo sonho, porque ninguém no seu perfeito juízo poderia querer visitar-me àquelas horas da noite. Fiquei ansioso. Levantei-me. As minhas mãos tremiam como se tivessem vento no lugar do sangue. Enquanto vesti umas calças de ganga à pressa, olhei-me ao espelho e apercebi-me do quão irreconhecível eu ficara. Um homem que deseje verdadeiramente agredir outro, magoá-lo, deformá-lo, não o deve insultar ou esmurrar; deve assustá-lo.
Só podia ser um louco. Se fosse uma emergência telefonavam; não teriam acordado o prédio inteiro com o zumbido horrível da campainha?
Imerso no quente torpor do medo, saí de chinelos para o corredor. A ténue luz da lua fazia as portas das habitações parecerem ainda mais frias do que já eram. Curiosamente, os meus vizinhos estavam todos num sono profundo, ou pelo menos não davam sinais de vigília. Sorte a minha, pensei: não vou ter de explicar aquela visita indesejada. Agora cabia-me ir ver quem era. Não podia correr o risco de que tornassem a tocar à campainha.
Desci as escadas tentando fazer o menor ruído possível. À medida que me aproximava da entrada crescia em mim um terror inebriante, e novamente tornei a questionar se não estaria, de facto, a sonhar. Os degraus nasciam uns dos outros, reproduziam-se incessantemente como se as escadas descessem até ao infinito. Mas por fim, e para grande alívio meu, lá acabei por chegar ao rés-do-chão. A entrada envidraçada dava a ver manchas impressionistas azuis e amarelas, cores sujas que a rua respirava lá fora. Aproximei-me da porta e abri-a imediatamente, ciente de que poderia estar a cometer um erro terrível. Ia ser assaltado, espancado, etc. — mas eu encontrava-me de tal modo aterrorizado que não conseguia articular as acções com os pensamentos; agia independentemente das piores profecias do meu monólogo interior.
Saí e senti o frio da noite embrulhar-me a cara. Cá fora, ninguém me esperava. Nada. A rua estava deserta, e o silêncio soava definitivo. Olhei em volta, aliviado. É então que vejo atravessar a estrada na minha direcção, muito calmo e seguro de si, um cão. Ele sobe o passeio, aproxima-se de mim, e pára mesmo à minha frente. Senta-se, olha-me nos olhos e começa a varrer o chão com a cauda que abana. Eu, sem qualquer argumento a meu favor para além da humana e por isso falível memória da minha vizinha,
— Um cão assim grande e com um pêlo muito escuro
fico subitamente convencido de que estou perante o mesmo animal que passou por ela nessa noite mágica e tenebrosa. Quando o reconheço (ou julgo reconhecer), assalta-me a mole vontade de lhe fazer uma festa na cabeça. Estendo a mão direita, falo numa voz meiguinha
— Pregaste um valente susto a uma amiga minha, seu doido
mas assim que toco naquele crânio perfeito, impossivelmente macio, o bicho morde. Crava os dentes na palma da minha mão, e o sangue não tarda a surgir. Fico com a carne furada como uma folha num caderno de argolas. Grito. Esta deve ter sido a primeira dor do primeiro homem do mundo.
Depois da traição, o cão desata a correr. E eu volto para a cama com a mão a sangrar para dentro do bolso das calças. São duas da manhã.
