O choro

O General quis que eu abrisse bem os olhos e que os mantivesse assim arregalados até que me fosse dada a permissão para pestanejar. Nada de novo: os militares do Regime não consentem que o povo descanse a vista, nem pelo puro capricho de a reinventar. Eles próprios cumprem inexoravelmente essa regra que nos impõem — lê-se-lhes no olhar o cansaço de dez, vinte, trinta anos de insónias. Nestas condições as pessoas pestanejam pouquíssimas vezes e somente por razões estratégicas, é o nosso último recurso quando nos encontramos à beira de uma cegueira ardente. Aqui na Metrópole chegam-nos, inclusive, histórias de soldados que aterram de pára-quedas nas frentes de combate já irremediavelmente cegos, isto porque se esquecem de ir pestanejando em segredo enquanto aguardam pelo anónimo empurrão que os lançará para fora do avião e em direção ao silêncio. Temos conhecimento destes casos de guerra, destas crónicas de ninguém vindas de nenhures, e, todavia, deste lado do País também pouco ou nada se faz para conservar uma vista cada vez mais precária e intermitente.

Penso nisto tudo ainda de olhos abertos diante do General. Este homem, pela tirânica materialidade da sua presença, deveria invadir os lugares mais imediatos do meu pensamento, como qualquer coisa que impiedosamente se colocasse à minha frente, mas começo a sentir-me incapaz de pensar no que vejo. É essa a transformação que está aqui em curso e que Eles tanto desejam ver cumprida em toda a santíssima cabeça nascida nesta nação. O que vejo agora afigura-se-me fácil e obsceno; deixo-me enredar no invisível, que é sempre difícil e incomunicável, e acho-me perdido num mundo intocado pela vista, o mundo a haver. O General chama-lhe Mundo-Verão (e, por isso, presumo que se trate da designação oficial, atendendo ao facto de o General viver num casebre oficial, vestir trapos oficiais e só se dar com gente oficial). É um mundo fascista —portanto, uma mentira que se diz ser um passado que se diz ser um futuro — mas já não vejo outra coisa.

Não sou fascista, ou até este dia nunca o fui: nunca senti que deveria especificar o meu ódio. Bem pelo contrário, virtuoso — parece-me — é aquele que detesta tudo e todos por igual, inflexivelmente e sem fazer disso sistema. Um ódio universal que, para muitos, não será senão uma pose adolescente, um sentimento que dificilmente se vive de uma forma genuína, essencial. Não os contrario porque eu próprio não detesto inteiramente ninguém. Não consigo sequer odiar este homem que me quer ver cego, e já me doem os olhos como se todas as cores cortassem, como se tudo estivesse demasiado próximo de mim, como se tudo emanasse uma fluorescência insuportável. Coço o nariz e os braços com a intenção de distrair o cérebro, quero dispersar as sensações de modo a que os olhos não ardam tanto, mas de pouco me serve, a minha vista queima-se. O General varre o tampo da mesa com as suas mãos secas e disformes, e depois pergunta, com uma calma que me parece ser da cor azul:

-Quer que eu chore por si?

Ao que eu respondo:

-Sim, por favor.

E ele desfaz-se num choro magnífico que eu gostaria de poder ter visto.

Like what you read? Give Diogo a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.