Poemas (3, 12)

Adília Lopes (‘Vazio’):

Aos 21 anos, a minha fotografia no bilhete de identidade sofreu uma reacção química, a minha cara desapareceu, ficou uma mancha castanha. Aos 39 anos, comprei um perfume na farmácia. Devia estar lá há muito tempo, não cheirava a nada.

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3

ninguém se atreve hoje a falar

do frio que faz quando se tem

uma bicicleta

que não serve para nada

uma camisola

que não serve a ninguém

.

todas as coisas todos os dias

inventam novos modos de desaparecer

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12

no tempo dos verões em verso

só uma casa manchava o campo

dentro dela jogavam-se as imagens e as essências

do estar-aí ou ali

,

amontoados os arbustos

atrás da vista

mesa posta

dizes

A cor verde mantém-me à beira do choro

,

vi o que disseste subir e juntar-se a todas as falas

alguma vez faladas

(há que explicar a evaporação às crianças muito cedo

para que não se assustem com fenómenos deste género

e para que não desconfiem da selva dos pés de fora

que é o verão

enfim

tem de lhes ser explicado que desde sempre

os homens gritam e matam e mudam

perdidos no calor)

,

estava o verão num verso

dormíamos num amplexo

e o mundo martelava longe

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