Café em uma loja de perfumes

Hoje eu gostaria de começar o dia com uma xícara de café bem forte. Mas café bom, daqueles que te faz engolir duas vezes pra sentir melhor o gosto. Café com gosto marcante. Café com a sensualidade de pele quente.

Quantas comparações entre café e pessoas são passíveis de serem feitas? Acho que só nos quesitos força, aroma, gosto e natureza afrodisíaca encontramos algumas minas de metáforas prontas para serem exploradas. Se você nunca enxergou alguém como café, ou foi enxergado como tal, sinto muito. É um erotismo à flor da pele, ao alcance das narinas, um sabor na boca.

Infelizmente, dessa mesma mina vem uma possibilidade que senti na pele esses dias. Uma outra característica do café, que ressoou na minha cabeça. Uma não tão agradável quanto as eróticas acima.

A natureza forte e marcante do café parece ser ideal quando a consideramos isoladamente. Quando alguém gosta realmente de café. Ele demanda atenção pra si, conquista seu admirador em uma arrebatada rápida de aroma e sabor. Um café bom servido na hora certa te deixa em êxtase, em absoluto Eden. É uma refeição completa em si mesmo, por mais que venha logo após a maior parte delas. Não precisa de acompanhamentos. Ele fala por si mesmo, deixa claro a que veio. Apenas café e ponto.

Da mesma forma podemos ver algumas pessoas.

Agora… quando foi a última vez que vocês compraram perfumes? Faz muito tempo? Lembram-se de quando a dúvida entre duas fragrâncias bate? Você as sente em turnos, revezando entre as suas favoritas na loja e confundindo os cheiros que vêm das tiras de papel em suas mãos. No momento em que sua narina já não diferencia cheiro nenhum, a dica é sempre a mesma: cheire um pouco de café. A presença marcante do café aparece apenas para traçar uma linha entre as fragrâncias que te conquistaram na loja. Um raio separando o cheiro doce e o floral que te fazem ficar em dúvida. E, por fim, você pode até não levar nenhum dos dois, mas não vai pedir para a atendente um pouco do café. Não importa que nenhum dos perfumes tenha te arrebatado a ponto de te convencer a levá-lo - você simplesmente não compra café numa loja de perfumes.

Triste uso para algo de presença tão grandiosa, não?

Penso que algumas pessoas - alguns de nós - somos assim. Outras pessoas muitas vezes estão presas, empacadas em uma “loja de perfumes”, tentando escolher o que mais gostaram, ou de quem mais gostam. Revezam entre aqueles por quem se atraíram, sem necessariamente levar nenhum. E, por mais que tentemos trazer algo diferente para o jogo e ser aquela pessoa que contribui com algo a mais, que tenta ser realmente importante na vida do outro, por vezes somos apenas café. Com gente assim em jogo, as fragrâncias entram em perspectiva. É o café que torna possível que o outro se decida, por mais que por vezes decida por nenhum.

E na vida às vezes acabamos por ser assim. Café em uma loja de perfumes.

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