Beyoncé e Lemonade: De jornada pessoal à mundial

Todos nós representamos muito mais do que podemos ver.

Beyoncé recentemente lançou seu último álbum, Lemonade. E nele, ela faz do seu microcosmo, o macrocosmo. Explico: de todas suas relações conturbadas com seu marido Jay-Z, à todos os paralelos traçados entre pais e filhos constatados em ambos álbum e vídeos, Bey usa sua força pessoal como motriz para criar uma obra significativa não só para reforçar a importância das relações humanas, mas também para ressaltar a importância da própria individualidade, da raíz, e do valor à essência.

Similar ao que Björk fez em seu último álbum, a cantora narra seus altos e baixos do relacionamento ao longo do disco, porém, ao contrário da islandesa, com muitas colaborações, como Diplo, Jack White, James Blake, Kendrick Lamar, Father John Misty, entre muitos outros. Mas fica bem claro que a força central aqui é ela, tanto na voz, nos temas, e nas personalidades das músicas.

O disco abre com a ótima ‘Pray You Catch Me’, que com certeza dá o tom inicial (porém não final) do trabalho. Há ecos de James Blake por toda a faixa, com sintetizadores e cordas melancólicos. O trabalho vocal é perfeitamente escrito. No fim da música, como que num suspiro doloroso a cantora balbucia: “What are you doing my love?”

E o disco segue assim, doloroso, agressivo, vemos o ponto de vista dela de várias formas. Em Hold Up, o refrão puxa forte de ‘Maps’ do Yeah Yeah Yeahs, mas aqui, ao contrário da canção original, a cantora, apesar de amar o parceiro, se indaga o tempo inteiro se estão tomando as decisões certas.

Já em ‘Don’t Hurt Yourself’ a postura é muito mais agressiva. Com ajuda de Jack White (e um ótimo sample de Led Zeppelin) Beyoncé começa a achar a postura de luta e não aceitação.

“Who the fuck do you think I is?
 You ain’t married to no average bitch boy
 You can watch my fat ass twist boy
 As I bounce to the next dick boy”

Em ‘Sorry’, ela amplia o pensamento e deixa bem claro que não perdoa ele e, nenhum outro homem que a faça sofrer. Os últimos versos são incríveis:

“Looking at my watch, he shoulda been home
 Today I regret the night I put that ring on”

“Let’s have a toast to the good life
 Suicide before you see this tear fall down my eyes
 Me and my baby, we gon’ be alright
 We gon’ live a good life

O disco continua com o trap ‘6 Inch’ com the Weeknd (e um bom sample de Isaac Hayes) e em ‘Daddy Lessons’ a cantora volta para Texas, buscar suas origens, como também mostra os vídeos. Aqui começa a principal mudança do álbum, a da própria cantora em seu relacionamento. Em ‘Love Drought’, ela se pega tentando entender ele de alguma forma, e tudo que eles passaram:

“Ten times out of nine, I know you’re lying
 But nine times outta ten, I know you’re trying
 So I’m trying to be fair”

Sandcastles é voz e piano. É também de certa forma a “redenção” de seu marido (não julgando o que houve e não houve na relação deles, mas é complicado analisar álbum e impacto quando são assim tão pessoais e intrísecos) como mostra letra e vídeo.

A transição de Sandcastles pra ‘Forward’ é perfeita. Simbolizando a união de forças com seu parceiro, e com um dueto lindo com James Blake, seguem em frente (Avante, como um mantra, repetem) para a liberdade, como o refrão da próxima faixa, Freedom, indica:

“Freedom! Freedom! I can’t move
 Freedom, cut me loose!
 Freedom! Freedom! Where are you?
 Cause I need freedom too!
 I break chains all by myself
 Won’t let my freedom rot in hell
 Hey! I’ma keep running
 Cause a winner don’t quit on themselves”

Detalhe como o refrão enaltece o individual na última linha, como já frisei antes. É a partir daqui que fica claro: “Eu sou preto porra! Eu preciso de liberdade.” Eu fico, honestamente, emocionado quando penso isso, e quando penso quando outras milhares de pessoas podem estar refletindo isso nesse exato momento. O empoderamento negro e feminino é urgente em nossa época, e é em canções como essa e Formation que vemos isso.

‘All Night’ é simplesmente linda. Cordas lindas, o baixo leva a faixa, voz linda e…que sample perfeito de Outkast. Ótima produção de Diplo. no final, fechando o arco pessoal e amoroso do disco, ela suspira: — de maneira semelhante ao final da primeira música- “how I missed you my love”

E é ‘Formation’ que a cantora conclui seu álbum, e o meu pensamento se fecha: O single cai como uma luva como encerramento. Formation é o posicionamento político de Beyoncé, e o álbum todo se converge para ela. Aqui a cantora se mostra decidida; Chama as mulheres, se sustenta, fala o que quer, faz o que quer, inclusive com o homem dela. E ela pode, porque ela tem moral. E não é só ela que tem que ter moral, VOCÊ também tem.

Lemonade pode não ter os grandes singles que seus trabalhos anteriores tiveram, mas a força concisa que o disco cria não necessita disso certamente, de forma que nem um country meio que deslocado atrapalha isso. O flow do disco é uma das melhores coisas dele, e quase como uma história, conta como de frágil e confusa, ela consegue entender não só o seu relacionamento com o marido, mas com sua filha, com seus pais, sua posição como negra, sua posição como mulher e sua posição como artista na indústria.

Beyoncé é importante e sabe disso. Ela representa o que não podemos ver.

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