O que aprendi com “Sentidos do Amor” (Perfect Sense)

Cena de “Sentidos do Amor” (Perfect Sense).

Por mais apocalíptico que se pareça a perda de todos os sentidos (tato, olfato, paladar, audição e visão), “Sentidos do amor” (Perfect Sense, em inglês) dá ao tema um tom poético e questionador. Basicamente, o filme conta a história de um casal, Susan e Michael, que se apaixona em meio a uma doença que toma conta de todo o mundo, fazendo com que a humanidade comece a perder progressivamente os seus cinco sentidos.

Ao assistir o filme, é interessante observar que cada perda está associada a um sentimento humano. Assim que a doença se instala, as pessoas sentem uma tristeza muito forte e, a partir do momento que a sensação passa, eles não sentem mais os cheiros. A perda do paladar está associada a uma fome terrível em que todos passam a devorar o que virem pela frente: batom, flores, litros de maionese, peixes crus. A audição, porém, está associada a raiva extrema: pessoas espancando as outras no meio da rua sem motivo, se agredindo fisicamente e verbalmente. O último sentido a ser perdido no filme é a visão, no qual se dá a entender que está associada ao amor, uma vez que os protagonistas se abraçam no momento em que estão ficando cegos. O tato, entretanto, não é retratado no longa.

Acredito que o que tenha mais me chamado a atenção em relação a isso seria justamente essa associação entre sentimentos e sentidos. O filme evidencia que, quando as pessoas passam a não sentir mais cheiros, elas deixam de reter algumas memórias como retinham antes. Como, por exemplo, quando Susan narra que o cheiro de canela pode te lembrar do avental de sua avó e que, sem esse sentido, memórias como essa acabam desaparecendo, o que explica a tristeza profunda que toma as pessoas antes de perderem o olfato.

A associação das pessoas passarem a devorar tudo que vêem pela frente com a perda do paladar pode ser relacionada ao fato de que, se não existe mais paladar, a comida não é mais saboreada verdadeiramente. Alimentar-se deixa de trazer prazer e se torna uma simples necessidade, uma busca pela sobrevivência. Assim, todos se alimentam como animais selvagens.

Para mim, a relação mais interessante feita no filme foi a da perda da audição com a raiva. Isso porque o filme traz com muita força o quanto somos ignorantes e estúpidos uns com os outros quando não ouvimos. A partir do momento que eu não escuto mais o que aqueles que estão a minha volta me dizem, eu me torno um ser violento e agressivo. Isso fica claro no filme quando Michael agride Susan antes de perder a audição através de comentários misóginos como “você não passa de uma vagina”.

Por último, a perda da visão também traz uma nuance intrigante: a partir do momento que não enxergo mais o que se passa em minha volta, não consigo mais me apaixonar pela beleza das diferenças, pelos vários tons de cores que existem e, nem ao menos amar o outro. Se eu não enxergo o outro, eu não o amo.

De forma completamente simbólica e instigante, o filme faz com que questionemos coisas simples em nosso dia a dia. Como, por exemplo, se não apreciarmos os diversos cheiros que há no mundo, deixaremos de nos lembrar de momentos importantes pelos quais passamos, do perfume daquela pessoa amada ou daquela comida de avó que tanto gostamos. Se não degustarmos com calma aquilo que comemos, ela deixa de ser interessante como é e se torna apenas uma necessidade. Se não prestarmos atenção, se não ouvirmos verdadeiramente as pessoas, nos tornamos seres violentos que se agridem de todas as formas possíveis. Se não temos a capacidade de apreciar verdadeiramente a beleza do azul do céu, do verde das folhas, das luzes à noite, do brilho no olhar de uma criança, perdemos o amor pela vida.

Sendo assim, a lição que “Sentidos do Amor” trouxe para mim foi: aproveite cada sentido com a maior intensidade possível. Não podemos deixar com que a correria do trabalho, da modernidade, da internet nos faça esquecer o quão lindo e incrível é poder aproveitar cada cheiro, cada olhar, cada som, cada gosto. Os sentidos são preciosos demais para nos deixarmos de lado.

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