aventuras de um adolescente gay não assumido

parei de me masturbar mais que duas vezes por dia, essa foi uma das resoluções que fiz no final do ano e a única que consegui cumprir. não me lembro bem das outras, talvez fazer um novo amigo, arrumar um emprego do qual eu goste pelo menos minimamente e não odeie como todos os outros que tive desde que o capitalismo fez eu ter que começar a trabalhar, que se me lembro bem foi por volta dos quinze anos.

trabalhava durante o dia e estudava a noite. foi nessa época que matar aula pra foder com caras mais velhos se tornou um hobbie. ganhei dois dvds da britney spears de um advogado que tinha uma caminhonete e que chorou quando eu disse que ia embora. foi nessa época também que eu tive a primeira traição da minha vida. passei na frente de uma obra, um cara loiro, fortão e sem camisa acenou pra mim. eu passava diariamente em frente a obra porque era caminho e porque eu queria vê-lo. até que um dia ele desceu de um andaime e veio falar comigo. combinamos as 19 horas, naquele dia eu tinha prova, mas eu tava pouco me fodendo pra isso. ele me levou de moto até um bosque. me borrei de medo, porque o filho da puta corria demais e a porcaria da moto era barulhenta. cheguei em casa fedendo gasolina. minha mãe perguntou o que tinha acontecido, eu disse que tinha encostado num caminhão em frente a escola. ela pareceu acreditar no que contei. sobre os dvds eu disse a ela que tinha ganhado de uma namoradinha. ela sempre parecia acreditar nas mentiras, ou pelo menos, não queria ir muito a fundo, talvez com medo do que pudesse descobrir. bom, o cara loiro da construção marcou um segundo encontro, eu tinha ficado bastante mexido com ele, não que ele tivesse bom papo, fosse carinhoso ou beijasse bem, fiquei mexido simplesmente pelo fato de ele ser loiro e de olhos claros. que é o que o senso comum diz que é bonito, o padrão de beleza universal e essa coisa toda. eu tinha conseguido meu primeiro troféu e estava pronto pra exibi-lo. estava ansioso pelo segundo encontro e quando cheguei na esquina do lugar marcado, eu o vi encostado em sua moto aos beijos com uma menina. sim, isso mesmo, uma menina. eu não sabia ao certo se ele era bissexual ou se ele fazia aquilo para que as pessoas o vissem beijando uma garota e assim não restasse na cabeça delas duvida sobre sua sexualidade. não importava. um nó me veio a garganta e eu não conseguia engolir a saliva, passei por eles olhando pro asfalto e pras rachaduras que tinha nele e sentia algumas rachaduras sendo feitas no meu pobre coraçãozinho adolescente, enquanto she will be loved do maroon 5 tocava ao fundo. nunca mais o vi. ainda bem. o advogado que chorou por mim ainda fala comigo de vez em quando. não que uma coisa necessariamente tem a ver com a outra mas talvez isso mostre o quanto somos idiotas e sempre gostamos daqueles que tratam o nosso coração como carne moída de hambúrguer. pois é, meu coração não foi feito para ser servido em pequenas porções com fritas e coca-cola, apesar disso soar bastante apetitoso.

nessa época eu levava muito a sério essa coisa de esconder a sexualidade e ficar no armário, eu achava que não havia como sair dali, pensava que ninguém tinha nada a ver com o que eu fazia da minha vida e de fato ninguém tem nada a ver com o que a gente faz com a nossa vida, mas essa era apenas uma desculpa que eu dizia a mim mesmo por não ter coragem de me assumir. (depois que sai do armário vi como isso é importante. é aquele velho ditado: a mágica acontece fora da nossa zona de conforto. inclusive, preciso lembrar disso com mais frequência).

gostava de ter esses segredos, me sentia misterioso. eu saia com caras tatuados, drogados, professores, caminhoneiros, universitários e me sentia como a margot tenenbaum, que é famosa por sua discrição. ninguém sabia de nada do que eu fazia e eu não sabia que era assim que a sociedade queria que eu fosse: invisível. sim, eu li as vantagens de ser invisível e vou te contar não há tantas vantagens assim.

desde que assumi que sou gay, não tenho mais conseguido viver aventuras do mesmo modo. porque agora eu não tenho mais nada a esconder. e de algum modo eu acho que por ser gay eu deveria agir de uma maneira mais polida, digna, respeitosa, ser um exemplo de cidadão, para que as pessoas vejam que gays são gente boa e merecem ser respeitados. o negócio é que todo mundo merece ser respeitado independente do tipo de vida que leva e apesar de saber disso eu me sinto culpado. é complicado ser de uma minoria por conta disso, sempre o peso de todo um grupo de pessoas caem no ombro de um único indivíduo. se eu fizer qualquer coisa que as pessoas julguem errado elas certamente vão dizer “só podia ser viado mesmo” ou qualquer coisa do tipo. e eu vou fazer coisas erradas sim, inclusive, devo ter feito alguma coisa errada na ultima meia-hora, não por ser viado, mas porque sou humano. é eu sei, pareço um monstro mas quando tiram minha mascara sou apenas um humano. em scooby doo essa é uma lição importante: todos monstros são humanos. e eu sou só mais um deles.