franco
franco
Feb 25, 2017 · 6 min read

BAD TRIP

eu tava viajando de minas gerais pra são paulo de carona com meus tios

eles são pessoas comuns de meia idade, ou seja, são meio preconceituosos e chatos, mas eu não tinha nada de concreto contra eles, além do fato de meu tio julgar as mulheres pelas roupas que elas usam e minha tia ter feito um comentário racista sobre o turbante que o carlinhos brown usa no the voice brasil

ahh, lembrei de mais uma coisa, meu tio é famoso pela sua falta de comprometimento

ele combina algo com você, ai no horário que era para estar acontecendo essa coisa ele te liga e marca pra outro dia. e depois pra outro. e fala que vai pagar seu dinheiro e só paga bem depois da data combinada. isso não parece tão terrível se acontece uma ou duas vezes, da até pra relevar, mas a repetição acaba deixando tudo insuportável

as onze e quinze eu tive uma ereção. estávamos na estrada fazia umas duas horas e eu tinha visto três episódios de uma série da netflix pelo celular e ouvido uma playlist de gosto duvidoso por meia hora. havia caixas do meu lado, uma mala e uma mochila, no porta malas um saco de mandioca e um de milho. alguns produtos agrícolas e um notebook. um travesseiro, que peguei e coloquei sobre o meu colo. toda minha bagagem e umas coisa da minha tia crente e do meu tio, que agora estavam falando alguma coisa que eu não conseguia ouvir direito por causa do vento que entrava pela janela do carro. meus olhos estavam fechados e não sei como fui tomado pela lembrança da minha segunda interação homoerótica. a primeira tinha sido com aquele cara num quartinho mofado no fundo da casa dos pais dele. dessa vez foi com um primo do meu primo. depois de voltarmos de uma festa de quinze anos, que não era minha, mas poderia ter sido, porque era essa a idade que eu tinha no momento. a festa foi um porre. antes de chegar lá a gente se perdeu porque o idiota do primo do meu primo tava olhando o mapa ao contrário. pra piorar eu pisei numa poça de lama que tinha na esquina da festa. a porra do meu pé ficou encharcado. chegando lá eu bebi e dancei, eminem e linkin park e outras coisas que nem lembro mais. acabamos dormindo os três no mesmo quarto. eu chupei o cara enquanto meu primo dormia do lado. e foi estranho. porque foi a primeira vez que tinha visto um pênis depilado na minha vida. e aquilo parecia um peru, avermelhado e caído. e a porta do quarto estava aberta. e eu tinha medo de levantar pra fechar. o cara levantou e fechou a porta. conseguimos terminar o que estávamos fazendo sem interrupções e dormimos logo. no dia seguinte tomamos café em silêncio. depois disso nunca mais o vi. e se o visse acho que nem o reconheceria. parece que ele tá morando em porto seguro agora, então é geograficamente improvável que eu o veja

coloquei novamente a playlist de gosto duvidoso pra tocar

aquela lembrança puxou outras e piores

a vez que transei no ônibus

ou banheiro público

ou debaixo de uma ponte

ou dentro de um carro no meio do dia

ou na praia

ou quando eu comi um cara no chão de madeira do quarto dele, perto da porta, ele de quatro de esticava o pescoço pra ver pelo corredor se seus pais estavam vindo, eles assistiam algo na televisão e eram velhos, e a gente não podia fechar a porta do quarto pra não despertar suspeitas

minha relação com o sexo já foi mais interessante, hoje em dia nem saio de casa, quase nem transo, o que é bem deprimente

não sei se sinto saudades daquela época ou agradeço por ela ter passado

minha tia estava agora com as mãos para o alto impedindo que eu enxergasse o que acontecia na frente do carro. também não era nada de interessante, só um engarrafamento. meu tio falou alguma coisa que não ouvi por causa dos fones, mas percebi que era comigo, porque ele estava me olhando pelo espelho do teto e mexendo a cabeça. tirei o fone e perguntei o que era. ele tava falando sobre uma cidade mineira onde meu avô nasceu. eu fingi interesse e fiz umas duas perguntas. depois recoloquei os fones

eu tava puto com ele por conta daquela falta de comprometimento que já falei por aqui. eu tava esperando a carona dele pra viajar pra são paulo tinha uns quinze dias e toda vez ele adiava. e sempre em cima da hora. fazendo eu deixar todas minhas malas arrumadas e fodendo com a minha ansiedade

tudo bem, dizem que a gente precisa ser grato pelas coisas e ver o lado positivo, e eu via o lado positivo e era muito grato por isso, mas mesmo assim tinha espaço pra um bom tanto de indignação também

as pessoas precisam saber que não é só porque elas estão lhe fazendo um favor que elas podem te tratar como lixo hospitalar. elas te fazem algo e acham que automaticamente você está em débito com elas. e não é assim que funciona

acho que me falta ódio

do tipo que te faz se mover na direção contrária das coisas que você odeia

e faz você ter uma força maior do que você jamais imaginou

usar a raiva como um combustível ou algo assim

talvez fosse melhor eu me acomodar com as coisas como elas são

meu problema é que sou muito insatisfeito

comigo mesmo

com a sociedade

com a vida

e não faço nada em relação a isso

nada pra mudar a situação

agora eu tava olhando pra um amontoado de nuvens bonitas no céu

e logo que notei que minha tia também estava olhando a mesma coisa, imaginei que ela estava pensando em como deus era tão maravilhoso em sua gloria para fazer coisas tão lindas e meio que brochei

ai pensei na possibilidade do universo não ser infinito

ele pode ter fim só não foi encontrado ainda

e se no universo existisse um efeito espelhado e na verdade ele fosse bem menor do que a gente pensa e tudo que vemos é a repetição das mesmas galáxias infinitamente

ai pensei na possibilidade de sermos como animais de estimação de ets

e de algum lugar eles nos observam sem a gente perceber

ai pensei nesses novos planetas que descobriram que há possibilidade de vida, mas que estão longes demais para termos certeza

e pensei que um desses planetas poderia ser a própria terra em uma outra época ou ter outras versões de nós mesmos

eu realmente estava viajando

e não era pouco

se não me engano foram uns 600km

e o tempo todo procurava sinais, lições

o motivo pelo qual eu estava ali

naquele exato momento

isso é um saco, mas eu precisava estar alerta e melhorar, para que no futuro eu fosse mais feliz com o que me tornei do que sou agora

fui pra minas gerais pra procurar um emprego

e realmente fiz isso, durante dois dias consecutivos, que até o momento é meu recorde pessoal

e depois fiquei assistindo seriados e sentindo pena de mim mesmo

eu tenho pensado muito na vida e esse não é o modo correto de se viver, você só vai e vive, e faz as coisas, pensar demais fode tudo

como já esperava, ninguém me ligou falando sobre uma vaga de emprego

eu era oficialmente um inútil, não apenas em são paulo, mas em minas gerais também

e creio que em todo território terrestre

contei pra um amigo que estava voltando de minas e ele me disse que tinha certeza que eu não iria demorar

de qualquer forma eu estava feliz por voltar

mesmo sabendo que depois de uma semana as coisas pesariam nas minhas costas e eu não conseguiria mais me mover e nem sair do quarto, porque é isso que sempre acontece

as contas atrasadas, cinco meses de aluguel, o telefone cortado, o nome sujo, os animais que tínhamos e deram cria e agora temos o dobro de animais e não temos como cuidar de todos

e fora isso tem meus sonhos que de tão distantes me tiram o sono

mesmo assim eu tava feliz

a gente precisa se iludir às vezes

e quando cheguei tava agitado e falante e contando sobre as erupções cutâneas que tive nas nádegas porque fiquei usando duas vezes a mesma cueca, fiz isso durante uma semana, essa coisa de repetir a roupa íntima por preguiça de lavar, o que de maneira alguma foi uma boa ideia, essas erupções são causadas por fungos, e foi isso que rolou, ainda mais com a quantidade de suor que minha bunda é capaz de acumular. não é fácil viver num país tropical. o bom é que agora elas já tinham ido embora e pelo menos uma lição eu aprendi nessa viagem: higiene é fundamental.

bom, na real, isso eu já sabia, mas a gente tá sempre testando os limites, não é verdade?

até chegar num ponto sem retorno

enquanto isso a gente vai tentando

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eu escrevo textos e gravo vídeos (meu canal: https://goo.gl/8xv77i)

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