isso pode ser uma lista de conselhos pra mim mesmo sobre fim de relacionamento ou apenas mais um poema

trocar de chip.

mudar os hábitos.

não passar pelo mesmo caminho que ele fazia.

não frequentar os mesmo lugares.

não ver os programas de tv que ele costumava assistir.

ler compulsivamente e escrever tanto quanto.

foder com quantos caras for possível.

se divertir.

matar o tempo.

matar o tempo para que assim a dor não te mate.

matar a dor.

se não matar, pelo menos a anestesie com doses cavalares de vodka ou mesmo umas boas latinhas de cerveja num dia quente com os amigos ou sozinho no escuro do quarto escrevendo.

mate a dor e o tempo.

mate as lembranças.

pirar e correr e pirar e escrever e nada das anteriores e não se esqueça de esquecer ou pelo menos não perder tempo lembrando.

fugir das lembranças.

elas trazem angustia e isso não é bom.

esqueça e viva.

saia.

veja um filme. estude. leia muitos livros.

muitos mesmo.

leia sobre feminismo.

leia sobre ativismo lgbt.

leia sobre questões raciais.

leia sobre as crianças que passam fome e as que não têm acesso a educação.

leia a clara. o fante. o bukowski.

não tenha medo.

saia e viva e as novas memórias logo esconderam as antigas.

e quando você perceber estará bem.

mas não se lembre.

porque lembrar sempre dói. e vai continuar doendo.

então, é melhor deixar pra lá e fazer alguma coisa a respeito.

algum amigo vai ver seu ex num café, numa esquina ou na casa do caralho. e é obvio que eles precisam te contar. faz parte da tortura e também da superação. mesmo sem motivo. mesmo sabendo que você e ele terminaram. mesmo sabendo que não está sendo nada fácil pra você.

e você ri sem graça e não sabe o que dizer. pois diga para não falarem mais dele pra você, que você não quer saber. que você está bem e seguiu sua vida. só não quer mais saber dele. nada dele. nada.

quando você estiver bem, ele vai lembrar de uma cueca ou algo do tipo e virá até a sua casa para buscar o objeto esquecido.

seria melhor se ele tivesse vindo enquanto você estivesse fora com os amigos, ou estudando ou trabalhando, mas ele sabia que domingo você estaria em casa. e ele veio.

ele sentou na cadeira giratória em frente ao computador desligado e ficou lendo as coisas que você escreveu na parede na ausência dele. como se o quarto fosse uma antiga caverna e as escrituras pinturas rupestres.

“não importa o que aconteça, não volte pra ele”.

você é melhor sozinho.

preciso ser feliz sozinho. e você deveria fazer o mesmo.

preciso não depender do amor de alguém para me sentir bem comigo mesmo. não preciso de aprovação pra felicidade. e você também não.

ele ficou na cadeira giratória esperando que eu lhe contasse as novidades e eu não disse nada além de “oi, tudo bem?” e ele me respondeu “tudo”.

e estava tudo bem.

havia esse tipo de abismo seco tipo grand canyon entre nós.

não havia como preencher o vazio.

não havia o que fazer.

só a certeza de que eu não podia voltar pra ele.

nem parar de escrever.

na minha cabeça essas coisas martelavam.

não pare de escrever.

não pare de escrever.

não pare de escrever.

ele leu as coisas que estavam gravadas na parede. e ele sabia que era sério. que dessa vez eu não voltaria pra ele. e ele estava angustiado. depois que saiu ele me mandou mensagem dizendo que eu nem lhe ofereci um café. nunca mais o vi. as mensagens dele são cada vez mais raras e isso é bom. é sinal que agora ele arrumou um jeito de curar suas próprias feridas e vai me deixar em paz.

eu estou curando as minhas.

não quis lhe oferecer um café, fiquei com ele pra mim.

bebi sozinho.

tenho que pensar em mim, primeiro.

e não posso lembrar. ou ficar remoendo.

se não, eu piro.

eu bebo e eu saio com caras nojentos.

e eu me arrependo depois.

mas agora tô bebendo pouco e saindo com caras legais.

e vivendo. isso é o mais importante: tô vivendo.

e gozando.

e não admito limitações.

os caras não são tão legais quanto eu gostaria, mas bons o suficiente.

tô escrevendo e isso me faz sentir vivo.

tenho uma pilha de livros pra ler e isso me excita.

o que me torra a paciência é o meu trabalho.

mas me mantém ocupado e me impede de fazer maiores besteiras.

e me da grana pra comprar as coisas que gosto. é isso que me prende lá. a maldita da grana. logo vou arranjar um outro jeito menos chato de ganhar dinheiro e vou dar o fora de lá.

vou largar o serviço.

só estou esperando o momento certo.

como larguei meu ex-namorado.

um relacionamento nocivo.

é isso que meu trabalho se transformou.

não ficar lembrando e ocupar minha mente com livros e com filmes e músicas soul dos anos sessenta.

e os sonhos que tenho com minha escritora favorita.

e os poemas que não sei escrever.

e a água que evapora e vira chuva.

e a dor que evapora e vira lágrima.

e as letras que evaporam e viram…

bom, as letras, elas se embaralham em minha cabeça na maior parte do tempo e a noite elas me acordam, porque geralmente é quando elas se juntam em frases e fazem algum sentido.

elas me acordam e eu preciso colocá-las pra fora.

no dia seguinte o serviço.

e a rotina.

a prisão.

o medo.

o medo de nunca conseguir ser um bom escritor e morrer na praia.

morrer na praia não é má ideia. dentre os cenários para morte talvez esse seja um dos mais atraentes. antes uma água de coco, protetor solar e um mergulho numa onda gelada.

não vou morrer na praia.

não vou.

e antes disso.

antes de escrever até conseguir que alguém me leia.

eu preciso esquecer ele.

e sugiro que faça o mesmo.

esqueça ele.

ele te fez mal.

ele mentiu. ele não entendia seus gostos estranhos e ele saiu com aquele outro cara, mesmo sabendo que você tava realmente apaixonado.

não volte pra ele.

nem fodendo.

não fraqueje.

em breve as lembranças não serão tão doloridas e aguardo ansioso por esse dia.

estou escrevendo mais do que antes.

estou mais vivo do que antes.

não pare de escrever, não importa o que aconteça.

não se cale.

grite se for preciso.

escape de suas próprias armadilhas e seja feliz.

cresça até não poder mais.

preciso ir além de mim.

uma faculdade. um novo emprego. uma máquina de escrever antiga que ainda funcione. um toca discos. uma viagem, duas ou três.

pegar a estrada e esquecer de tudo.

pegar carona com um cara gato e me decepcionar pelo fato de ele ser hetero. e depois ficar feliz, pois apesar de hetero ele era um cara legal e nos tornamos bons amigos.

focar em outras coisas porque não quero amar novamente.

pelo menos não tão cedo.

sobrevivi.

e antes de amar novamente tenha cuidado.

mesmo sabendo que essas coisas de amor e paixão são bestas selvagens incontroláveis que nos transformam em patifes ridículos e motivo de piada para nossos amigos e parentes.

tenha cuidado muito cuidado, mas não medo.

nunca tenha medo.

não vou mais admitir o medo.

viva sem medo e mate cada um de seus inimigos internos.

um por dia,

talvez até dois ou três.

os otários dos meus parentes sempre me interrompem quando estou no meio de um poema ou lendo um livro bacana,

eles foderam com o final desse aqui.