tem coisas que achamos que precisamos fazer para sermos nós mesmos. tipo comprar o ultimo álbum da adele ou do kendrick lamar. comprar aquela calça bacana que combina com aquele sapato de camurça. assistir aquele filme muito bem criticado no cinema. comprar um carro e depois de passar um ano trocar por um do mesmo modelo mas um ano mais novo que o anterior. uma casa. uma grande casa com jardim e piscina e varanda e gatos. ouvir a lista de 50 melhores álbuns do ano. assistir o novo do star wars. comprar 17 livros numa liquidação de livraria on line ou fazer uma viagem de cento e tantos quilômetros para ver a clara averbuck.

sim, é ai que essa coisa toda começou.

recebi um email da clara sobre o dia e o local (sábado no museu da imagem e do som) onde ela estaria entregando pessoalmente as recompensas pra quem ajudou no financiamento coletivo de seu mais recente livro, o toureando o diabo.

sabe quando você tenta entrar naquela calça skinny que comprou em 2013 e sua bunda fica dividida e suas bolas esmagadas. ansiedade é ter que conviver com essa calça apertada todo dia.

comecei a roer as unhas.

as cutículas.

a semana demorou cerca de três seculos pra passar.

mas sábado eu tava lá vendo a clara e me esquecendo de falar certas coisas que era pra eu ter falado como por exemplo o fato de os livros dela me darem bons ponta pés no traseiro e socos no estomago e acho que bons livros são assim. quando a gente se identifica com um livro e continua lendo é quase masoquismo porque é como olhar por tempo demais pro espelho e começar a ver todas as nossas falhas refletidas nele. e todas as merdas que fizemos. e todas as dúvidas que tivemos. e todas as vezes que fomos otários. eu queria ter dito “clara, obrigado por todas as palavras” ou qualquer coisa assim. mas minha timidez me passou uma rasteira novamente. eu e ela vivemos nessa luta, meio que jogando capoeira, mas infelizmente eu não manjo dos paranauês.

esse textos foi escrito ao som de ella fitzgerald*

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