o segredo de descalvado mountain

pedro mora com sua mãe e tem trinta e poucos anos, isso poderia ser constrangedor se estivéssemos em outros tempos ou talvez em outro pais, por aqui é meio que normal morar com os pais até os trinta e poucos. ficamos com eles o maior tempo possível porque isso nos deixa livres de uma série de responsabilidades de adultos ao mesmo tempo que nos priva de muitas coisas bacanas de morar sozinho e ser completamente independente. o fato é que sair de casa se torna um pouco mais complicado quando você é filho de uma mãe que é viúva. seu pai morreu e nos anos que se seguiram você criou uma relação com ela que vai além do convívio normal entre mãe e filho. vocês não são tipo norman e norma bates, obviamente, nem nada do tipo, mas vocês se tornaram bem próximos e fica complicado desatar esse laço.

pedro tem trinta e poucos e mora com sua mãe. é gay e ela não sabe. ela é católica e cheia de convicções de uns três séculos atrás. ela vai a igreja com frequência e costura pra fora. uma vez ela ajeitou uma camisa que comprei num brechó. uma bem bonita estampada. ela cobrou baratinho. ela sabe que sou gay. ela não se importa com isso. pelo menos não que eu saiba. mesmo assim pedro ainda não teve coragem de sair do armário. quanto mais você demora para sair do armário mais difícil vai ficando. no entanto, é importante não se apressar. é preciso estar bem seguro antes de fazer isso. bom, o problema é seu, faça o que quiser. na verdade o problema era do pedro. parece que ele não sabia muito bem lidar com sua homossexualidade dentro de uma família católica e cheia de irmãos. a família toda dele mora por perto. seria bem difícil. eu nunca disse que seria fácil. pra mim não foi tão complicado, minha mãe sempre foi budista e eu preparei o terreno antes de contar a ela. falei de diversos seriados com temática lgbt. falei sobre amigos. falei sobre crimes de ódio. ai um dia cheguei e contei. sim, foi no meio de uma discussão. e logo depois de contar me tranquei no quarto. o que não foi tarefa fácil porque meu quarto não tinha porta. então batê-la como efeito dramático estava fora de cogitação. minha mãe ficou numa janela encarando o vazio do universo e duvidando de tudo que acreditava. depois me abraçou e disse que tava tudo bem, que me aceitava e que me amava incondicionalmente. foi bem bonito, não vou negar. mas ai ela perguntou porque eu namorei por onze meses uma garota e eu não soube o que dizer. porque na real nem eu sabia a resposta. eu sei que ela era minha melhor amiga e eu tinha essa curiosidade. e esse namoro foi eu matando minha curiosidade sobre o que é ter um relacionamento heterossexual. mas isso não muda o fato de que sou gay. sou super gay. um homossexual convicto. depois disso nunca mais fiquei com mulheres, nunca mais me atrai por elas. eu as amo de todas as formas possíveis menos sexuais. e ao contrário de muitos gays misóginos por ai não tenho nojo de vaginas.

não sei como repentinamente isso aqui virou sobre eu e não mais sobre o pedro. que é aquele artista que mora com a mãe e tem trinta e poucos. ele tem um amor platônico por um cara que tem vinte e é descendente de índios. ele tinha o cabelo comprido e agora cortou. ele costuma dizer que rock é melhor que outros estilos musicais. costuma ler. ultimamente anda indo muito a academia e tem valorizado mais o físico do que o interior. talvez isso venha de traumas de infância. soube que quando ele era pequeno o pessoal zoava ele por ser feio. pedro gosta dele mesmo ele sendo heterossexual. mesmo depois de ter falado para ele sobre esse sentimento e ele ter ignorado. de alguma forma ele gosta da atenção que o pedro da a ele. ele gosta de ter alguém que gosta dele. isso alimenta seu ego. talvez por isso ele não tenha afastado o pedro e continuado com a amizade.

pedro e seu amor platônico já foram acampar várias e várias vezes. num local aqui perto de piedade chamado descalvado. é um lugar nas montanhas onde tem uma vista linda. em seu equipamento eles levavam barracas, comida, muita água e uma libido reprimida. acho que o máximo que eles chegaram de ter algo sexual foi um aperto de mão. isso porque eles estavam bem longe da civilização. pra rolar o primeiro selinho entre eles teriam que ir até a lua e mesmo assim ficariam preocupados com o telescópio hubble.

uma coisa que precisam saber sobre o pedro é que ele viu um cão deitado e chorando na rua e o levou pra sua casa. ele é esse tipo de pessoa. do tipo que ajuda um cão quando ele está em apuros. mesmo que isso lhe cause dor de cabeça depois. mesmo que ele não tenha lugar pra colocar o cachorro. mesmo que não tenha grana pra ração nem nada assim. teve uma vez também que ele encontrou um cara com roupas sujas e uma mochila nas costas. ele conversou uns cinco minutos com o cara, deu umas risadas, chamou ele pra ir numa lanchonete e lhe pagou um salgado e uma coca. é esse o tipo de pessoa que ele é.

parece que o romance entre pedro e o cara hétero não vai rolar. uma vez num desses acampamentos até tomaram banho juntos numa cachoeira. totalmente pelados, porque é assim que as pessoas geralmente tomam banho. até brinquei com ele que deveríamos escrever um romance chamado “o segredo de descalvado mountain”. ele riu. mas dava pra ver que ele tava mal. ele dizia que já tinha superado. que não tinha esperanças. mas dava pra ver nos movimentos corporais dele que ele tava péssimo. ele tava falando menos que o normal e tinha sempre uma lágrima prestes a cair, o problema é que ela nunca caia. pelo menos nunca enquanto ele estava comigo. ele costumava me confessar tudo. eu já não podia com aqueles segredos todos. estava sofrendo com ele como se fossem personagens de um drama cinematográfico que só eu assistia. eu comecei a evita-lo.

a primeira vez que o pedro me falou sobre isso foi num sábado a noite. ele me ligou e eu estava no meio de um texto. ele queria vir na minha casa. eu disse que não, preferia sair. foi isso que fizemos. ele disse que o cara morava na zona rural e nunca tinha verbalizado nenhuma vontade de ficar com ele. só que ele dava sinais. ele mandava mensagens demais. puxava assuntos íntimos e pelo que entendi ele deve ter lhe dado o ultimo biscoito de trakinas do pacote. o que todos sabemos é o estágio eminente de que a amizade está evoluindo para um namoro. eles estavam passando tempo demais juntos. eles estavam vivendo aquele tipo idiota de bromance que a gente tanto ouve falar, mas ignora a existência porque isso é melhor pra nossa sanidade. o cara desde o começo sabia que o pedro era gay. o pedro não escondeu isso dele. apesar de dizer que só queria amizade, pedro manteve a esperança. teve um hora nesse passeio pelo centro da cidade enquanto falávamos sobre esse possível romance que nunca acontece, pedro disse “faz parte da vida”. está pra nascer comentário mais aleatório do que “faz parte da vida”. afinal de contas tudo faz parte da vida. só perde talvez para “faz parte”, porque essa versão mais curta é ainda mais abrangente e ridícula. faz parte das coisas que as pessoas falam quando não tem nada pra dizer ou coisa assim. continuamos andando e depois fomos embora.

pedro ainda luta para esquecer o cara e seguir com a vida.

eles continuam amigos.

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