sobre um peru de natal ou qualquer outro título que faça sentido

Trabalhar quase doze horas com apenas uma hora de almoço como intervalo não é uma das experiências mais agradáveis que já tive na vida, muito pelo contrário, se pareceu mais com um pesadelo nonsense que nunca tinha fim. Meu corpo foi perdendo a habilidade, minha mente foi perdendo o foco e tudo era visto de dentro duma nuvem densa de neblina e bocejos. Os fregueses horrorosos se acumulavam na fila para comprar coisas pro Natal e eu tava tão de saco cheio que tirava sarro deles na cara deles sem que eles percebessem.

Quando cheguei em casa estava moído. Teve ceia de natal, que na minha família, por ser budista, não passa de uma celebração a vida ou uma desculpa pra comer melhor ou coisa que o valha (aprendi esse tipo de termo em o apanhador no campo de centeio, leave me alone).

Eu comi.

Fiquei na internet vendo coisas sem importância e assistindo uma discussão entre dois amigos sobre o real significado do natal. Sobre como ele era um ritual pagão que foi roubado pela igreja católica e coisas assim. Eu não sabia de nada disso e isso me fez cair na real que não tenho conhecimento profundo sobre nenhum assunto interessante. Ai entrei no grindr e conheci um cara. Tinha trinta e poucos. Ficou me enrolando até as três e quando nos encontramos me levou de carro pra sua casa que ficava nos fundos de um salão de cabeleireiro e de um estúdio fotográfico. Tínhamos que passar por dentro do salão pra chegar lá. Depois me contou que dividia o aluguel com seu cunhado e que ninguém desconfiava que ele era gay e que ele não tinha necessidade de contar. Mas eu acho que o peso de viver uma mentira tinha feito estragos físicos nele, só isso explicaria o fato de ele andar inclinado pra frente como se tivesse um orangotango perdurado no cangote.

Ele falou coisas do tipo que tem gays que são exagerados, que não precisam ser tão afeminados, que não precisam ser tão escandalosos, que não podem ser eles mesmos e eu falei que isso vem do preconceito, do que é ensinado pra gente desde pequeno sobre o que é ser homem. E que precisamos respeitar o jeito de ser de cada um. O foda é que o cara tinha trejeitos que poderiam denunciar sua preferencia por anus masculino. Ele gostava de falar que era ativo. Repetiu isso diversas vezes. Enquanto tirava o moletom. Enquanto apagava a luz. Deitava e ficava só de cueca. Antes disso falou que viado pro povão é só quem da a bunda e ele não era assim e talvez por isso não se assumisse porque não queria que pensassem que ele dava a bunda, como se isso fosse a pior falha de caráter que um ser humano pudesse ter. O discurso dele era chato e batido. O discurso dele era brochante. Mas fazia quase dois meses que eu não fodia e tava ali pra isso. Não sei nem porque ficamos perdendo tanto tempo conversando sobre como sua vida sexual tinha se iniciado com um primo o masturbando enquanto viam uma playboy dos anos noventa.

Ele metia como quem não costuma ter relações sexuais com muita frequência ou uma furadeira. É isso que eu ganho por foder com uma pessoa que tem cara de nerd e mentalidade de um tio-avô. Sua boca tremia. Ele mudava de posição toda hora como que para mostrar que tinha experiência e sabia exatamente o que fazia. Eu também sabia o que ele tava fazendo: merda. Eu gozei rápido pra acabar logo com aquilo e porque não tinha batido punheta nesse dia e tinha porra acumulada. E depois o masturbei pra ele gozar, porque seria sacanagem deixa-lo sem gozar, mas era exatamente o que eu queria fazer e fico meio desanimado por não ter feito aquilo que queria. Depois fomos pra uma ducha rápida e ele me contou do dia que fugiu da casa com um outro primo pra ir pra balada. E de como agora ele nem curte balada e estuda e como a família era conservadora e isso explica muito de seus pontos de vista retrógrados.

Voltei pra casa, ninguém notou que eu tinha saído, era quase cinco da manha e fui dormir.