Acordei e coloquei Bitch Better Have My Money pra tocar em alto volume, para dar aquela indireta musical básica no meu vizinho que emprestou cinquenta contos e disse que me pagaria no vale. Já se foram três meses e nada. Passei o café e peguei o bus. São quarenta minutos de Piedade à Sorocaba. Depois mais umas meia-hora de circular até chegar ao shopping. Tinha um cara de rabo de cavalo conversando com alguém no telefone no banco da frente, falando que hoje tava com preguiça “você não viu a preguiça que te mandei?”. Só no que eu conseguia pensar era que deveria ter levado meu fone de ouvido. “Sim, a foto de uma preguiça. Não? Ahh, então depois você vê”. Como se fosse algo totalmente inusitado e criativo. No outro assento tinha um cara de uns dezesseis dizendo que não casaria nunca e esses papos, também estava no celular. As pessoas estavam sentadas uma do lado da outra e eram incapazes de dialogar entre si. Não posso falar merda nenhuma a respeito disso, porque evito ao máximo falar com as pessoas devido a minha disfemia. Ela é uma sacana, porque ela me pega sempre desprevenido, quando estou no meio de uma explicação me enrosco numa maldita palavra e não consigo dizê-la de maneira nenhuma. Tenho que improvisar e dizer algum sinônimo o mais rápido possível. Ás vezes o sinônimo demora pra vir ai tenho que explicar de outra maneira. No lugar de falar “homofobia” digo: “Obviamente é um sinal claro de ódio aos gays”. Esse tipo de coisa me faz parecer mais burro do que realmente sou. Concluo falando do Bolsonaro, que tenta convencer geral que existe o contrário, saca? Ódio a pessoas hétero. Ninguém é morto por ser hétero. Nem é expulso de casa. Não são vitima de preconceito na rua e não precisam sair do armário, porque é o que o senso comum heteronormativo dita como certo. Via de regra. Provavelmente também não conseguiria dizer “heteronormativo” numa conversa. Acho que me saboto pra não soar mais inteligente do que sou. Enrosco em determinadas palavras entoando de forma engraçada um “éééé…” prolongado antes de dizer ou simplesmente não consigo dizer a palavra. É um saco. Agora que já descrevi detalhadamente essa particularidade do meu ser posso prosseguir com a narrativa. Que tá bem chata, por sinal. Porque na verdade não aconteceu nada demais. Ainda estava com um pouco de sono, as quatro xícaras de café não foram o suficiente para me despertar completamente. Tinha dormido ás três e acordado as sete. Preciso culpar Twin Peaks por isso. Tinha todas aquelas pessoas indo trabalhar. Varrendo a frente de padarias e atrás de balcões de farmácia. Vendedores de loja de tênis e idosos em bancas de revista. O playboy com o carro importado e iphone na mão enquanto dirige e planeja a próxima viagem pra fora do Brasil. Tem o cara que da duro todo dia pra ter um carro e tá atravessando a rua a pé. Por pouco não é atingido. Ele também quer uma casa para sair do aluguel. E ajudar seus pais. Eu era mais ou menos assim até poucos dias, trampava de operador de caixa num supermercado. Não me sinto melhor do que ninguém, nem pior. Sou só mais um cara com um sonho. Mas prefiro chamar o meu de objetivo. Porque assim parece mais provável que um dia chegue a realiza-lo. Ninguém é melhor que ninguém. Exceto em atividades especificas. Por exemplo, o Pelé é melhor do que a maioria das pessoas em futebol. Ou pelo menos já foi um dia. Provavelmente eu seja o melhor em procrastinar. Não conheço muitas pessoas que façam isso, pelo menos não falam sobre isso comigo. Acontece que na idade que estou e com a quantidade de textos que já escrevi durante toda minha vida, já era pra eu ter uns cinco livros lançados. Nada de best-sellers, algo meio underground ou apenas ruim mesmo. Que pessoas com péssimo gosto literário comprariam aos baldes como a nova literatura ou como a nova voz dessa geração ou da próxima. Pelo menos nas linhas tenho voz. Nenhuma palavra me escapa. Consigo dizer tudo que quero. Mesmo sem ter nada muito importante a dizer. Talvez até tenha, mas fica perdido nas entrelinhas. Achei meio Lispector. Cara, isso me fez lembrar que meu irmão confunde a escritora foda da terceira fase modernista com a cantora Regina Spektor. Ele realmente sabe das coisas. Fui a Riachuelo e na Saraiva. Queria o livro da Tina Fey, o da Chimamanda sobre feminismo e a terceira temporada de Girls. Ainda tinha uma grana boa guardada e não precisava me preocupar em arranjar outro emprego tão cedo. A Saraiva se mostrou uma grande bosta e não tinha nenhuma das coisas que eu procurava. Logo que cheguei na Riachuelo bati o olho numas camisetas com a Frida Kahlo estampada. Sim, era isso mesmo. Uma coleção inspirada na Frida. E não só isso, tinha outra inspirada no Basquiat. Peguei algumas e corri para o provador. Serviu! Passei no Mc Donalds, vinte reais por um lanche, batata frita e um copo de refrigerante. Acho que se fosse comprar os ingredientes e fazer não sairia por dez contos, no máximo uns sete. Os filhos da puta ganham mais que o dobro nessa jogada. Talvez o triplo. Estava lendo uma matéria num site outro dia dizendo que eles não respeitam os trabalhadores e geralmente contratam novatos, pois são inexperientes e aceitam fazer a maioria das coisas que mandam, mesmo que não seja sua função, por não terem noção de como as coisas funcionam ou desconhecerem as leis trabalhistas. São pressionados a trabalhar rápido, o que ocasionalmente provoca queimaduras. Nessa mesma matéria tinha a data de uma paralisação mundial. Eles iriam protestar. E eu ali comendo o produto do trabalho deles. Sentia-me meio culpado por tudo aquilo. Mas o picles estalava na minha boca e seu suco azedinho se espalhava num mix perfeito com o pão com gergelim e aqueles dois hambúrgueres. Mesmo que fosse de minhoca. Lembrei daquela cena de Pulp Fiction que fala algo sobre as pequenas diferenças de um sanduíche do Mc na frança e nos EUA. Ir ao McDonalds quando tu tá em outro país deve trazer uma sensação de casa. Eles tem lanchonetes no mundo todo. E sempre o mesmo sabor. A mesma coisa no mundo todo. A mesma lógica usada no diálogo de Meninas Malvadas quando a Cady diz que sua disciplina escolar favorita é matemática, porque é igual em qualquer lugar do mundo. Assim como a exploração da força de trabalho. A menor fatia do bolo fica com os empregados. É assim que donos de empresa obtém lucro, pagando o mínimo possível. Quando cheguei a Sorocaba tinha uma pichação num muro escrito algo sobre o capitalismo ser um sistema que faz a gente sentir prazer em comprar. Estou bem na boa com essa de consumismo, compro roupa umas duas vezes por ano. Fora isso gasto em comida, internet, livros e dvds. Pedi a conta na porra do meu trabalho e passo o dia desperdiçando horas no tumblr e ouvindo radiohead, enquanto na verdade, deveria estar editando minhas histórias e correndo atrás de publicá-las. Não sou bom em ser eu. Sou péssimo nisso. Sempre fui mal sucedido nessa coisa de ser eu. As únicas pessoas que sabem realmente o que estão fazendo da vida são os suicidas porque eles planejam e conseguem e pronto, está feito. Isso quando conseguem. Tô falando dos suicidas bem sucedidos não os fracassados que tentam e tentam e nunca conseguem, esses são como todos os outros. São gente como a gente. Eles também não sabem o que estão fazendo. A gente tem a ilusão de que pode controlar a vida quando compra um apartamento ou sei lá, constrói uma casa com piscina, mas não, a vida é essa coisa incontrolável que acontece o tempo todo e a gente fica se debatendo tentando acompanhar. Eu tento acompanhar deitado tirando leves cochilos e vendo seriados. E se as únicas pessoas que sabem o que estão fazendo da vida são suicidas, fico grato por não ser uma delas.

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