Um cara que tinha os pré-requisitos atuais do padrão de beleza masculino (musculoso, barba, tatuagem, alargador e provavelmente um piercing em algum lugar que na foto dele vestido não dava pra ver) estava falando comigo no grindr. Passamos pro whatsapp e fiz algumas piadas sobre como estava lidando bem com o envelhecimento, a queda de cabelo e as dores que sentia nas costas, o que deveria ser o resultado de horas na mesma posição em frente ao computador. Ele disse que tinha trinta e poucos e síndrome de Peter Pan autodiagnosticada. Ele não ia a psicólogos nem nada assim e não tinha um diploma desse tipo, então, acho que ele não tinha como saber. Falei que também deveria sofrer desse mal, já que me via como adolescente a maior parte do tempo e ainda morava com a minha mãe. Ele certamente tinha estudado a cartilha do que um homem interessante deve fazer, em dado momento onde num erro grotesco eu usei a palavra “hobbie” ele respondeu dizendo que “curtia coisas culturais”. Quem não gosta? A maioria das pessoas que eu conheço sim, ele deveria ter sido mais especifico. Aí ele foi: parques, shows de rock, cinema. O único revés dele é que ele não curtia ler. Não curte livros. Não costuma ler. O que é uma falha de caráter grave. Aí ele falou que era professor. O que eu achei bem estranho sendo que ele não gostava de ler. Ele me disse que dava aula de educação física. Então, estava explicado.

“temos que marcar algo para ficarmos constrangidos um na presença do outro e desviarmos o olhar em silêncio enquanto suamos em baldes” essa era descrição perfeita do que um encontro significava pra mim, falei isso na intenção de ser engraçado, mas teve o efeito completamente inverso, creio que ele suspeitou que fosse a verdade.

“eu não fico assim”

“eu fico ansioso, neurótico, pensando de mais e remoendo as coisas, então, tudo isso é autodiagnosticado não da pra dar credibilidade, mesmo assim tenho que lidar com todas essas coisas”

Ele estava no sofá da casa dele. Quando eu perguntei:

“tem algum fetiche? sim, chegamos nessa parte da conversa”

“não”

“bom, isso facilita bastante as coisas”

“tipo?”

“na hora do sexo é mais fácil, já que você curte as coisas normais do repertório do sexo gay. ta afim de sair algum dia?”

“claro, podemos marcar”

Essa coisa de falar “podemos marcar” é sempre um truque para adiar as coisas que provavelmente nunca acontecerão. O mesmo rola quando encontro velhos amigos que meio que perdi o contato com o tempo, eles perguntam como estou e contam as novidades meio por cima, depois falam “temos que combinar alguma coisa um dia desses” e o resultado é que nunca marcamos nada. Vamos marcar algum dia pra marcar de marcarmos um rolê? Algo sem sentido assim.

“vamos marcar então ué, que dia você pode?”

“final de semana”

“que bom que hoje é domingo e faz parte do final de semana, não é mesmo? te vejo em quinze minutos”

Ele riu.

Descobri que ele já tinha namorado três vezes e eu só uma. Estava em desvantagem. Pedi o facebook dele e ele não quis dar, alegando que só adicionava conhecidos. Ele tinha acabado de entrar para a incrível lista sem fim das pessoas que não estavam afim de mim, eu tinha que viver com isso. De qualquer forma, ele era um professor que não curtia ler e eu um escritor fracassado, nunca ia rolar.