Jornal da Tarde, 9/12/1982, Edição de Esportes, página 4

O clássico, pela tevê

Nosso crítico Edmar Pereira assistiu ao jogo pela tevê e não gostou: emoções congeladas…


Ainda não foi desta vez que o espectador de futebol recebeu atenção especial da televisão. Pelo menos, não o que ontem preferiu ficar em casa, recusando-se a enfrentar o frio e a distância do Morumbi num jogo que não era decisivo. [N. do E.: O jogo era o primeiro da decisão do Campeonato Paulista de 1982, entre Corinthians e São Paulo.] Ele viu as imagens de sempre em quatro canais (5, 7, 13 e o 11, de captação mais difícil em muitas regiões da cidade), geradas com burocrática suficiência pela TV Cultura — que preferiu colocar-se como opção não-esportiva na hora da partida, assim como a TV-S. Nenhuma câmera especial, nenhum acréscimo de emoção.

O jogo, que já era extremamente frio (e de notável inteligência por parte do Corinthians, que aprendeu a jogar até contra suas próprias tradições, contra a respiração de sua ansiosa torcida), ficou praticamente gelado. Com a mesma imagem em todos os canais, as variações ficavam por conta de narradores e comentaristas — exatamente como no rádio. A Bandeirantes (canal 13) ainda ameaçou novidades. Mais de uma hora antes do início do jogo, já estava no ar. Tempo demais para pouco assunto. O repórte Elia Júnior é ágil e moderno o suficiente para não se afogar no pantanal de lugares-comuns da maioria, mas não havia tanto assim para se perguntar. A “câmera exclusiva” dos portões de entrada mostrou torcedores curiosos em relação a mais uma repórter que desejava saber de cada um quanto seria o jogo e quem marcaria os gols. Mas nas arquibancadas não se repetia tanto: entre anúncios da participação do animador Flávio Cavalcanti na transmissão, a câmera descobriu tipos curiosos, como um torcedor fantasiado de juiz. Convenceu muito mais do que o animador como repórter esportivo, dizendo, com razão, que se sentia “um peixe fora d’água”. Os bonecos de Estêvão Sangirardi saíram-se melhor, mas nem tanto: suas vozes sempre engraçadas raramente combinam com as figuras escolhidas para personificá-las, a não ser o neutro Zé Carbono (seu Caetano Veloso esteve perfeito). Além disso, os bonecos ainda têm problemas com movimento e nas entradas durante o jogo.

Após dez minutos de ações lentíssimas dos dois times, o comentarista José Maria de Aquino, da Globo, garante que o jogo está bom, enquanto o narrador Oliveira Andrade procura acompanhar os lances com um tom de elegância supostamente imparcial. Na Record, o humor é sempre a meta, ainda que também quase sempre à custa do preconceito. Mas o narrador Sílvio Luiz acerta quando fala sobre a confusão dos cartões técnicos e disciplinares da mesma cor amarela. Na Bandeirantes, seu bom e minucioso comentarista Pedri Luís explica com clareza como o jogador Renato está sendo sacrificado pelo esquema de jogo. Ele dá sempre a impressão de saber mais do que os outros. Já o narrador Edgar Melo Filho não tem um estilo tão definido. Embora às vezes vá com agilidade e malícia no ritmo do espectador, acontece também de frequentemente atropelar-se e cair no ritmo radiofônico de Osmar Santos, num desconfortável esquecimento da imagem.

No intervalo, mais uma vez, novidades só pelo 13: Flávio Cavalcanti faz propaganda do seu programa, oferecendo prêmios pelo telefone. Na segunda chamada, um cidadão contatado parece acreditar num trote e, aparentemente, não agrada ao animador; depois, os melhores lances de São Paulo e Corinthians, em separado, apresentados e comentados por seus respectivos bonecos-torcedores.

O segundo tempo não muda nada, e as “câmeras exclusivas” do 13, que teriam muito para mostrar, não são acionadas. O gol de Sócrates foi mostrado várias vezes exatamente do mesmo ângulo. Como no rádio, acionava-se o repórter mais próximo, para que descrevesse a cena de outro ângulo. A mesma coisa aconteceu com uma fantástica defesa de Solito, a outra grande ação individual da partida.

Para o torcedor já condicionado a essas mesquinhas limitações e preocupado principalmente com a vitória de seu time, talvez seja suficiente. Mas a televisão pode oferecer muito mais em troca de tanta atenção do que mera emoção congelada.

Texto transcrito por Alexandre Giesbrecht em 5 de agosto de 2017.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.