O caminho para Luxemburgo e uma análise do mercado

30 de Julho de 2017: a data do penúltimo bom jogo do Sport. E falo de desempenho, não apenas do ótimo resultado. De lá para cá, 14/09, sete partidas. Ali, um time esfacelado pelo cruel calendário do ano mas muito bem organizado. O 4-4-1-1 (ou 4-4-2, muda pouco a movimentação em campo) implantado por Eduardo em 2014 dá frutos até hoje, mesmo tendo passado por Falcão, Osvaldo e Daniel Paulista - a exceção é Ney Franco, que tentou mudar e, apesar do sucesso inicial, travou o time. É visando a utilização dessa formação que o Sport contrata e fez as últimas três pré-temporadas.

Em 2015, Elber em uma ponta e Danilo ou Samuel na outra. Em 2016, Lenis e Mark Gonzalez. Em 2017, Rogério e Everton Felipe. Lógico que há saídas e chegadas de jogadores, mas o conceito segue intacto. Há uma estrutura que sustenta e ajuda quem chega a assimilar: Durval, Rithely, Diego Souza (desde 2014), Samuel Xavier e André (desde 2015), dentre outros que saíram recentemente e contribuíram (Matheus Ferraz, Renê e Ronaldo, por exemplo).

É louvável que o Sport consiga ter um padrão definido há um razoável tempo, ainda que nem sempre as contratações de treinadores (que são acima da média) sejam se baseando nesse critério. Isso demonstra, ao menos como ideia de jogo, certo planejamento no que se diz respeito ao mercado. E o Sport foi, sim, bem nas aquisições para este ano. Lembrando que boa contratação e mau rendimento não são coisas excludentes. Contratar um bom jogador não significa que ele dará certo. São muitas variáveis.

Osvaldo, vindo de graça, tendo demonstrado bom futebol até pouco tempo (2015); situação parecida a de Thomás, que teve destaque no Santa Cruz e veio para o Sport sem contrato e com baixíssimo custo mensal. Menção ao esforço do clube para a permanência de Rogério, velocista com característica rara no Brasil: bom finalizador. Além de Marquinhos, aposta, que em 2015 foi titular nas quartas de final da libertadores, pelo Cruzeiro contra o River Plate, mas que no último ano passou a maior parte do tempo lesionado. Apostas, certezas e ocasião: o Sport foi bem na posição que requer mais recursos para a engrenagem (quem atua pelo lado na segunda linha de 4, o popular '’ponta’’). Só lembrar do ano passado, que as opções eram: Everton Felipe no primeiro ano de profissional e com uma normal oscilação; Lenis na primeira experiência no Brasil (o que requer uma adaptação ao ambiente, não só de jogo) e com a pressão de, até então, ser a contratação mais cara da história do clube; e Rodney Wallace, que chegou como uma total aposta e acabou se firmando na lateral. Enfim, acertando nas pontas, restava preencher os outros '’buracos’' que mais incomodaram o time no último ano: posição de centroavante e parceiro de Rithely. Antes do início no brasileiro, o clube foi muito feliz na escolha do primeiro: André. E com o principal campeonato do ano em andamento, também acertou, sem saber: Patrick, contratado para lateral, encaixou muito bem de volante e é hoje (23ª rodada) quem mais roubou bola até aqui. Vale ressaltar a repentina saída de Renê rapidamente bem substituída por Mena, jogador de boa técnica, experiência e vasta inteligência tática graças ao longo tempo que trabalhou com Sampaoli. Rodrigo veio como aposta e, apesar de decepcionar no início, correspondeu bem em alguns jogos na elite. Leandro Pereira chegou em um momento que André era incerteza e respaldado pelo bom brasileiro de 2014 na Chape e ótimo turno no brasileiro de 2015 pelo Palmeiras (onde chamou a atenção do Brugge-BEL e foi vendido). Más contratações, mesmo, só as de Wesley e Neris. Daquelas que sabe-se que não irão vingar. O primeiro porque nos últimos seis anos jogou metade em Palmeiras e São Paulo de forma nula, sem acrescentar absolutamente nada em campo, enquanto o último pelos recorrentes e já esperados problemas físicos. Ah, Igor Ribeiro, os atletas do Nacional-SP e Paulo Henrique entram na cota '’Henrique Mattos’’, de jogadores que todo mundo sabe a inexistência de assiduidade no time e não custam tanto.

Dito tudo isto, com as lacunas do último ano completamente preenchidas apenas durante o brasileiro, o Sport só precisava que não houvesse grandes '’invenções’' (como as que Ney Franco fez e minaram qualquer chance de título na Copa do Nordeste) na formação do time em campo. E obteve isto justamente com Luxemburgo, já que este assim que chegou se viu inserido na insana maratona de jogos que o Sport teve neste ano, como já foi dito. Mas o treinador não percebeu de imediato esse contexto (ao contrário do que branda em programas esportivos, não está muito antenado com o futebol atual) porque quando perdeu Diego Souza para jogos da seleção, tentou uma variação de 4-1-4-1 (ou 4-3-3), fixando um volante (Anselmo) e liberando Rithely e Patrick. Não vingou. Após a vergonhosa derrota para o Vitória em casa, já com Diego Souza e ainda sem usar o 4-4-1-1 (ou 4-4-2), Luxemburgo retornou ao habitual. De cara e sem tempo para treinar (momento que só chegou após a 19ª rodada - ele chegou na 4ª!), viu que, se queria obter sucesso, não tinha como fugir disso. Resultado: sequência de dois jogos fora de casa contra Atlético-MG e Santos, e 04 pontos ganhos. Mais importantes que estes, repito, o excelente desempenho em contextos tão desfavoráveis (adversários tão bons ou melhores, fora de casa, confiança baixa e pressão do Z4). Os dois melhores jogos na competição. Na sequência até a última rodada do turno, passando pelo já mencionado jogo contra o Bahia, 10 jogos, sendo 05 vitórias, 02 empates e 03 derrotas. Repito: sem treinamentos. Apenas folgas, regenerativos e viagens.

Esse momento, sem interferências táticas do treinador e mesmo assim de bons desempenhos, reitera o quão boas foram as contratações e quão bom é, consequentemente, o time do Sport. Rithely, André e Diego Souza estão no primeiro nível do futebol nacional; Patrick é uma grata surpresa e já demonstra muita regularidade tal qual Mena. Importante lembrar também os bons e sequenciais jogos de Everton Felipe, mais maduro que em 2016 e em um contexto melhor.

Outra lembrança para, talvez, um dos (dois) grandes trunfos de Luxemburgo na temporada: revezamento de zagueiros, que serviu para encontrar a melhor dupla e, consequentemente, resgatar Henriquez do limbo e ter um Durval mais preservado para quando acionado. O outro é a mudança de mentalidade (mais ousadia) e, por conseguinte, postura fora de casa, que rendeu boas vitórias mas também mostrou certa ’’inocência’’: um Sport muito "atirado" contra Botafogo e Corinthians, em suas casas, dois times que se sentem muito bem quando atacado e não têm a bola. Faltou leitura para não cair na armadilha e, diria, mais, inverter os papéis.

O jogo do Corinthians, inclusive, fecha o turno, onde, dali para o seguinte, Luxemburgo teria, pela primeira vez, uma semana livre. Nesta, não deveria haver mudanças, apenas a criação de novas alternativas para quando o valioso aspecto individual do time não tivesse em um bom dia e porque o Sport seria mais visado pelo momendo ascendente que vivia, além de, claro, recuperar a parte física. Mas não foi bem assim. No returno, contra a Ponte, Luxemburgo voltou a acionar no decorrer da partida o imaturo Thallyson e o apenas limitado Anselmo, ainda que útil, seguindo sua inexplicável fixação na utilização de ambos. Pior: precisando do resultado. O jogo acabou 0x0. A partida seguinte, novamente com uma semana livre para treinos, parecia uma extensão do jogo contra o time campineiro. Com a diferença que o Cruzeiro é mais forte e, por jogar nos seus domínios, agrediu mais. O Sport foi presa fácil em um dia de aspecto individual pouco inspirado. Diego Souza, Rithely, Samuel Xavier, Everton Felipe em um mau domingo. Normal, analisando todo o contexto. Sob a ótica de Luxa, mais uma vez suas opções de banco são Anselmo e Thallyson e, como sempre, em nada agregaram. Nenhum jogo mudou o fluxo por causa deles. Quem acompanha minimamente futebol saberia que o ótimo momento vivido pelo Sport na metade final do primeiro turno atrairia atenções para o time e os adversários ficariam mais precavidos. O que remete ao período de trinamento que Luxemburgo teve para, justamente, criar novas alternativas e surpreender. Mas ele não o fez. Ou não conseguiu fazer. Tão ou mais grave quanto. Quatro jogos sem vencer, a pior sequência do time, mas a cereja do bolo negativa ainda estava por vir: Luxemburgo teria 14 (catorze!) dias livres para preparar o time e tentar encontrar novas possibilidades. Lado bom: ele tentou. Lado ruim: foi péssimo. Promovendo Wesley, mudou todo o desenho do time: centralizou o estreante, deslocou Rithely para cobrir o lado e deixou Diego Souza mais enfiado entre os zagueiros adversários. Pior do que isso, tirou do time o atleta que mais rouba bolas na competição para escalar Anselmo. Sim, Anselmo. De novo. Titular. Inexplicável. O resultado não poderia ser diferente: passeio do Grêmio, 5x0, sem Geromel, Pedro Rocha, Luan e Barrios.

A derrota não acabaria após o apito final, iria durar mais 11 dias: na coletiva, Luxemburgo adota um discurso completamente descabido. Transfere a culpa para os jogadores, traz os mais fanáticos para o seu lado e ainda dá um ultimato para a diretoria. Muito conveniente porque já percebeu o ambiente interno (diretoria passiva e que não entende o suficiente para o cargo) e externo (torcida de memória curta e que adora a narrativa de ''raça/ entrega/ vontade'') do clube. Conseguiu tudo o que queria: a isenção das críticas e a extensão do seu contrato. Pena que o time não entra nessa sua balança.

Na ilha, neste último domingo, o pior clima possível: torcida pressionando como nunca no ano, jogadores pilhados, gols perdidos de forma inacreditável, torcida vaiando e jogando contra na parte final. Chances perdidas, aliás, não querem dizer que o Sport criou e evoluiu. Dizem muito mais sobre o frágil Avaí, que conseguiu ser sufocado por uma equipe que a cada jogo piora. Na parte tática, a manutenção de Wesley no time, dessa vez atuando pela ponta. Ficaria mais assustador ainda quando Luxemburgo o desloca para a lateral. O jogador pode ser qualquer coisa, menos um velocista. E atuando pelos lados só deixaria exposta sua principal fragilidade. E mesmo com o seu mau futebol, não foi sacado. Saíram Rithely e Samuel Xavier, e o meia acabou o jogo tendo atuado em três (!) posições. Mal em todas, aliás, para surpresa de poucos. Os torcedores ainda teriam que aturar Bruno Xavier (quem?) como alternativa para mudar o jogo. Enfim, só agora me aproximo de onde quero chegar. Sim, após essas várias linhas, ainda não o fiz.

A ida da sula. Sport 3x1 Ponte Preta.

Após quatro semanas livres, o Sport voltou a jogar no "meio". Não viajou, mas o treinamento também pouco significou. Regenerativo, movimentação leve, concentração. Para a partida, grande limitação de jogadores disponíveis: Wesley, Osvaldo, Everton Felipe e Henriquez, por diferentes motivos, foram desfalques. Luxemburgo com poucas opções e tempo para experimento (o que tem se mostrado boa notícia), voltou, finalmente, ao básico. Ao 4-4-2 da melhor fase do Sport no ano, com Sander e Mena no corredor esquerdo para proteger Durval, que, descansado, teve boa atuação. Cada um na sua: Patrick sólido de onde não deveria ter saído; Lenis e Mena, com o grande vigor físico que têm, recompondo muito bem na linha do meio e com força para chegar ao fundo; Diego Souza dialogando com os volantes e sendo participativo. Sem fazer grande pressão, o Sport chegou cedo ao gol, o que provavelmente foi o mais importante, para dar tranquilidade e não ter de se expor, trazendo confiança aos jogadores e calma aos torcedores. Com isso, por jogar em casa e ser melhor time, saíram naturalmente os outros dois gols. Que poderiam ter sido quatro ou cinco, inclusive. Triangulações; melhor rendimento de Rithely no ano; Raul Prata, mesmo menos jogador que Samuel Xavier, dando conta na defesa, sua principal característica, e ainda contribuiundo com assistência. O lateral foi a cartada de Luxemburgo na partida. E, ao menos nesta quarta, deu muito certo. Problema é que temos motivos de sobras para crer que essa atuação foi exceção.

44 dias depois, o Sport voltou a jogar bem. Voltou a vencer. De semelhanças, partidas contra a Ponte e Bahia têm o fato do alto número de desfalques (em Salvador não jogaram André, Diego Souza, Rithely, Osvaldo, Rogério e Samuel Xavier) e curto intervalo de tempo entre os jogos; e a equipe atuando, sim, irei repetir, no 4-4-2. O "beabá" das duas linhas de quatro, com Rithely por dentro, dando equilíbrio, marcando, qualificando a saída de bola; com Diego Souza centralizado, flutuando ou buscando jogo; com os pontas (são muitas opções) dando profundidade. Como em 2014. Como em 2015. Como em 2016. Como os jogadores sabem e rendem mais.

O modelo é suficiente para vencer metade dos times da série A. É suficiente para fazer mais um campeonato brasileiro tranquilo. É suficiente para vencer mata-matas. Suficiente para, quem sabe, vencer copas.

O time poderia jogar mais? É claro. Mas, até agora, Luxemburgo não nos deu mostras de levar o Sport a outro patamar dentro da série A. Nem deverá dar: seu último grande trabalho foi em 2011. Bom para ele que fazer o simples nunca foi tão fácil.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.