Depois do Fim do Mundo

“O vírus está se alastrando rapidamente”. Corte. “Estamos pesquisando uma cura”. Corte. “Há relatos de várias lojas saqueadas pela cidade”. Corte. “Todos devem permanecer em suas casas”. Corte. “É a pior epidemia da história da humanidade”. Corte. Imagens de pessoas correndo, tiros, mortes, tudo com cortes cada vez mais rápidos.”Milhões de pessoas já morreram”. Corte. “O presidente está deixando a Casa Branca.” Corte. “Que Deus nos projeta”. Fim. Ouvimos nosso herói que finaliza a explicação sobre o apocalipse. Se não entender, sem problemas, durante o filme alguém nos explicará tudo que aconteceu.

Durante o real apocalipse haviam relatos de explosões solares, queda de meteoros, drones assassinos, cavaleiros do apocalipse, equipamentos queimados, computadores reiniciando, arrebatamentos, terroristas, alienígenas, vírus mutantes. Só que a grande questão era: qual é o caminho mais seguro para sair da cidade? Nos preocupávamos em encontrar comida ou não sermos assassinados enquanto dormíamos.

No grupo de sobreviventes, meu amigo João quer que eu acredite na sua interpretação do apocalipse. Ele conta que Google, Facebook, Microsoft e Apple foram os 4 cavaleiros do apocalipse. Juntos criaram a inteligência artificial, que destruiu nossa sociedade nos privando da tecnologia. Se um dia nos mostrarmos dignos, as máquinas nos guiarão para uma nova era. Os profissionais de TI serão lideres da sociedade. João voltaria a ser gerente de TI. Eu um programador. Ou seja, nessa versão esdrúxula, sairíamos do pós-apocalipse e iríamos para a distopia.

Ouvi várias versões do Evangelho do João Gerente. Twitter já foi um dos cavaleiros e Jesus tinha canal no youtube. O que nunca foi reescrito é a rotina de trabalho pré-apocalíptica do nosso apóstolo. Diariamente lutava para que a equipe de TI alcançasse os resultados. Estagiários não aceitavam 1 ou 2 anos de trabalho para serem efetivados. Funcionários iam para casa mesmo com o trabalho pendente. Não foi a toa que seus colegas foram preteridos. Não entendiam da importância de blá, blá, blá…

Tentando visualizar a descrição do João, as imagens se desfazem. Só consigo ver um homem de meia idade que, no mundo pós-apocalíptico sem computadores e eletricidade, não sabe caçar, preparar uma comida, cuidar de uma horta, construir um abrigo, dar atendimento médico, fazer um mapa e não estaria vivo se não fosse por pessoas que nem sabem como instalar uma impressora.

Lendo o livro Psicologia para Iniciantes descobri que sofro de Amnésia Dissociativa. Sobre o inicio do apocalipse lembro de estar correndo, explosões, gritos, tiros, sangue. Minha única lembrança completa: Eu sentado no escritório vestindo roupa social em pleno casual day. Meus colegas de roupa sport correndo de um lado para o outro. Eu calmamente afrouxo o nó da gravata antes de desabotoar a camisa.

-Por que você está rindo? Os computadores se desligaram! Os telefones estão mudos! Estamos todos tentando restabelecer a porra do sistema! Não vai fazer nada?! — Tirei a gravata, pus o paletó no ombro e fui embora.

Um paulistano me contou que a cidade de São Paulo foi destruída 45 minutos depois do apagão geral. Quem estava a um raio de 15 km do centro teve uma morte instantânea. Será que a TI da empresa onde eu trabalhava conseguiu restaurar o sistema?

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